Está aqui

Aquele dia

Em abril de 1974 desobedecemos aos especialistas e escrevemos na pedra que é o povo que manda. Aquele dia foi isso. E, por causa dele, este dia é-o também.

Que já não sabia a idade”. Vem de longe, de muito longe, esta ânsia pela liberdade. Desaguou em abril de 1974, mas isso foi um rio feito de muitos rios e riachos antes dele. Gente, tanta gente, que estragou a vida a lutar pela respiração e pela palavra, sua e dos outros, contra ordens e quietudes que, ao longo da História, quiseram esvaziar os povos da vitalidade da crítica e da transformação. Lutas, tantas lutas, por sociedades de gente com coluna vertebral e não de gente curvada e contentinha na sua obediência. Em abril de 1974 esses rios todos convergiram para aqui. Trouxeram neles as memórias todas do passado desse movimento imparável pela liberdade, pela justiça, pelo respeito por todos. Aquele dia foi isso.

Em cada rosto igualdade”. A liberdade de cada um faz-se da liberdade de todos. É irredutivelmente pessoal, mas o contágio da falta de liberdade dos outros mata-a. Em abril de 1974, foi isso que veio para a rua e foi essa convicção funda que serviu de alicerce à invenção da política no tempo que se seguiu. A liberdade e a igualdade não são duas gavetas separadas. A liberdade de falar e de pensar esmorece com a fome, o desemprego, a doença, o racismo ou o machismo. Criámos o Serviço Nacional de Saúde em nome da igualdade e ele foi o mais forte defensor da liberdade que inventámos. “Só há liberdade a sério quando houver…”, cantávamos. Aquele dia foi isso.

O povo é quem mais ordena”. Ninguém manda mais que o povo. Nem os economistas, nem os médicos, nem os juízes, nem os opinadores, nem os políticos. Nem, sobretudo, os donos disto tudo. Em abril de 1974, essa sabedoria tornou-se História. Os dias que vieram depois, até hoje, foram, vezes demais, de negação desse princípio. Agora outra vez porque os maiorais de turno querem ditar como lei que a resposta ao sobressalto sanitário tem que ser mais pobreza e menos direitos. Dizem que é o que tem que ser, que é isso que os “especialistas” acham. Pois que achem. Em abril de 1974 desobedecemos aos especialistas e escrevemos na pedra que é o povo que manda. Aquele dia foi isso. E, por causa dele, este dia é-o também.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 25 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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