Fabian Figueiredo

Fabian Figueiredo

Deputado do Bloco de Esquerda. Sociólogo.

A esquerda tem uma tarefa dupla: disputar uma ideia de país e uma ideia de Europa. As duas são inseparáveis. Não para defender o que existe, mas para construir uma correlação de forças diferente.

A democracia portuguesa não tem necessidade de proteger-se de si própria mantendo partes do seu passado em sigilo. Dispõe da solidez para encarar os anos em que foi alvo do extremismo político violento.

Há uma diferença enorme entre não ganhar mais e devolver. O que o Governo fez foi garantir que, no meio de uma crise que as famílias portuguesas não criaram, não arrecada receita extraordinária. É menos que o mínimo exigível.

As pessoas trans não precisam de tutores morais no Parlamento, nem de polícias da identidade. Precisam de segurança, de proteção legal contra o bullying e de acesso a cuidados de saúde.

Enquanto a bandeira nacional flutua sobre escolas sem professores, hospitais sem médicos e tribunais paralisados, o CDS parece ter encontrado a verdadeira emergência do país: a presença de bandeiras LGBT em edifícios públicos. 

Onde estava o zelo democrático quando, na semana passada, o PSD e o Chega rejeitaram no Parlamento o voto de condenação apresentado pelo Bloco pela detenção e tortura da Prémio Nobel da Paz, Narges Mohammadi? Para uma parte considerável da direita portuguesa, a defesa dos direitos humanos no Irão é apenas um acessório retórico para atacar a esquerda.

Sendo Portugal um dos países mais expostos às alterações climáticas, investir na transição e corrigir os erros do passado constituem exigências de segurança coletiva e de elementar racionalidade económica.

A incompatibilidade entre a esquerda e a teocracia iraniana é estrutural. Quem defende a liberdade sabe que ela não é compatível com o rasto de desolação das incursões militares.

Quando o poder de Estado reage a uma paródia com o peso das instâncias judiciais, o que está em causa não é a honra de um cargo, mas a tentativa de instaurar um “efeito inibidor” sobre a participação cívica no espaço público.