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A direita não tem alternativa para o país

A direita portuguesa encontra-se perante o paradoxo de não poder afirmar abertamente o programa que realmente defende e de não ter alternativa programática para contrapor à atual solução governativa.

A direita portuguesa encontra-se perante o paradoxo de não poder afirmar abertamente o programa que realmente defende e de não ter alternativa programática para contrapor à atual solução governativa. Não pode dizer o que quer e não quer dizer o que poderia. Paralisada neste dilema, sobra-lhe a política de casos e uma contraditória agenda reivindicativa.

A primeira estratégia, praticada ad nauseum por Assunção Cristas, pode até sintonizar-se com as vagas de indignação que se vão instalando na opinião pública, mas acaba sempre por esbarrar na síndrome da Ephemeroptera. Tem vida curta e não mobiliza o país, por mais que o ruído da claque o possa aparentar. No fim sobra apenas a espuma dos dias e a certeza da espera por uma nova onda que anime as hostes. Nos entretempos alimenta-se a esperança messiânica por um escândalo estrondoso que reabra as portas do Palácio de São Bento. Sem outras ideias, é exatamente para isso que Rui Rio tenta convencer, por estes dias, a sua direção. Uma variante particular do "quanto pior, melhor", que é sempre uma confissão de profunda impotência. Pode soar a caricatura, mas é a isso que está reduzida atualmente a direita.

As greves no setor público ganharam um novo conjunto de adeptos. Do PSD ao CDS, multiplicam-se declarações de apoio e compreensão com os mais diversos setores em luta. Dos transportes às forças de segurança, sem esquecer enfermeiros, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, professores e oficiais de justiça. O CDS indigna-se com o estado dos transportes públicos, mas omite que os queria privatizar. O PSD rasga as vestes pela falta de profissionais de saúde, esperando que ninguém se lembre dos salários que lhes cortaram e como os convidaram a emigrar. Um notável exercício de hipocrisia política.

O governo liderado por Passos Coelho e Paulo Portas fez dos funcionários públicos o principal alvo das suas medidas de austeridade. Tinham de sair "da sua zona de conforto", lembram-se? Quando a atual maioria parlamentar começou a reverter os cortes salariais e a repor a normalidade constitucional no país, a direita acenou com o "vinda do diabo" e reduziu as reposições a manobras de gestão "das clientelas eleitorais". Quando chegou a altura de ir mais longe, de corresponder à expetativa que anima todos estes protestos, PSD e CDS optaram por socorrer o governo, chumbando as propostas apresentadas pela esquerda no processo de especialidade do Orçamento do Estado para 2019.

As manifestações de desorientação do Largo do Caldas e da São Caetano à Lapa têm razões muitos objetivas de ser. Durante muito tempo, PSD e CDS alimentaram uma narrativa de que dirigiram um governo de salvação nacional, condenado a levar o país pelo caminho das trevas em nome de uma superior missão salvífica. A política da geringonça evidenciou esta mentira e deixou a direita órfã de herança e de discurso. Tanto assim é que essa narrativa já nem dentro do PSD ganha eleições e nem o Presidente da República, em exercício durante esses anos, a sustenta. Cavaco Silva fez, inclusive, publicar um livro para mandar dizer que, mesmo dentro do quadro de austeridade obsessiva que movia Passos Coelho, existiam alternativas socialmente mais justas que, segundo o próprio, terá proposto por diversas vezes ao então primeiro-ministro.

O futuro do país joga-se na sua relação com as instituições europeias e com as imposições de Bruxelas. Se as políticas públicas e os recursos nacionais são orientados para cumprir níveis irresponsáveis de défice ou se são mobilizados para colmatar os défices do país. O PS entrou numa corrida irresponsável para atingir o défice zero. Um erro. Para recuperar dos anos do ajustamento, o país precisa de aproveitar o presente ciclo económico para aumentar o investimento nos serviços públicos e na economia e robustecer o Estado Social. O que propõem os líderes de PSD e CDS para o défice e para a dívida, que divirja das orientações de Mário Centeno? Nada. Militam tanto pelo cumprimento dos tratados, quanto o presidente do Eurogrupo. A direita portuguesa é hoje uma força ausente do debate estratégico sobre o nosso desenvolvimento coletivo. Não tem alternativa para o país. Em 2019, ano de todas as escolhas, o debate faz-se à esquerda.

Artigo publicado em sabado.pt a 15 de dezembro de 2018

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Sociólogo.
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