José Soeiro

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.

Ana Luísa Amaral quis "fazer outra vez das palavras armas de arremesso que não se limitem a pairar, suaves, mas perfurem as florestas da noite", como escreveu em 2012.

As árvores estão em stress hídrico por causa da seca e do aquecimento global e as suas folhas morrem mais cedo para que elas possam guardar o resto da água de que dispõem. É só mais um sinal, desolador e triste, dos efeitos dos eventos climáticos extremos, que matam também pessoas e não só nos incêndios

Que o Ministro da Cultura mude a posição do Governo e defenda agora a entrega a privados como uma “solução virtuosa” não revela ausência de “preconceito” (como disse o próprio), mas sim de qualquer pensamento sobre o assunto, substituído pelo mero seguidismo da posição de Moreira.

Conhecemos apenas a ponta do iceberg de um processo de banditismo económico, aliciamento político, corrupção académica e manipulação informativa para impor um novo modelo de negócio fora da lei ou capaz de moldar as leis a seu favor. No nosso país, estão a conseguir. Falta saber como têm conseguido.

Como outros governos europeus, também o nosso tem os direitos humanos na boca, mas engole em silêncio se as vítimas estiverem em Melilla ou em Ceuta.

As marchas do orgulho, que acontecem este ano em mais de 20 cidades portuguesas, já trouxeram à rua dezenas de milhares de pessoas. Elas são, ao mesmo tempo, um sintoma do que mudou no país e um motor da transformação desse país que muda com as marchas.

Para os liberais, a segregação territorial, com os ricos a tomarem conta das zonas centrais e os pobres a serem expulsos para as periferias, é simplesmente a beleza do mercado a funcionar.

Na “Agenda do Trabalho Digno” agora entregue no Parlamento, não só não haverá revisão da “Lei Uber” como se exporta o modelo perverso do “operador-intermediário” e do “emprecário sem contrato” para todo o universo das plataformas, incluindo os estafetas.

O Governo quis separar as propostas para o “trabalho digno” do debate sobre a “política de rendimentos”, atirado para outubro, ao mesmo tempo que projeta no espaço público grandes declarações. Só que separar os debates, por mais jeito que dê na gestão da agenda política, é um artifício.

O Orçamento que acaba de ser aprovado - o tal que, em tempos, alguém quis brandir como “o mais à esquerda de sempre” - não foi capaz de acolher qualquer medida que se assemelhasse vagamente às moderadas recomendações da Oxfam, embora tenham sido propostas.