E não se pode exterminá-lo?

porJosé Soeiro

01 de junho 2022 - 23:11
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O Orçamento que acaba de ser aprovado - o tal que, em tempos, alguém quis brandir como “o mais à esquerda de sempre” - não foi capaz de acolher qualquer medida que se assemelhasse vagamente às moderadas recomendações da Oxfam, embora tenham sido propostas.

O título desta crónica é também o de um lendário espetáculo da Cornucópia, encenado em 1979 por Jorge Silva Melo, de que temos hoje o registo (não totalmente correspondente à peça) através de um filme de Solveig Nordlund. A pergunta aparece num dos sketches cómicos de Karl Valentin. É feita por um filho (Luís Miguel Cintra) ao seu pai (Silva Melo), a propósito de uma explicação sobre a origem da guerra e sobre as aldrabices do “capitalismo internacional”.

A cena e a explosiva interrogação ocorreram-me quando se soube do último relatório da Oxfam, “Lucrar com a dor”, sobre o estado da desigualdade no mundo. O documento revela a ignomínia da realidade que vivemos. Os multimilionários viram a sua riqueza aumentar tanto nos últimos 24 meses como nos 23 anos anteriores. No setor alimentar e da energia, as fortunas dos mais ricos aumentaram mil milhões de dólares a cada dois dias. Em simultâneo, crescia a aflição da maioria perante a subida de preços, que atingem os níveis mais altos em décadas. Nos últimos dois anos, a cada 30 horas, o capitalismo mundial foi capaz de produzir mais um multimilionário, ao mesmo tempo que, a cada 33 horas, mais um milhão de pessoas são atiradas para a pobreza. A combinação dos efeitos da pandemia, do aumento da desigualdade global e do choque do aumento de preços dos alimentos agravado pela guerra na Ucrânia pode empurrar 263 milhões para a pobreza extrema em 2022.

Há quatro setores em que este processo de acumulação está a ser fulgurante: o farmacêutico, o alimentar, o energético e o tecnológico. Em todos eles se verificam grandes concentrações de mercado e lógicas de oligopólio. Os lucros das petrolíferas quase duplicaram durante a pandemia - e o custo da energia deverá aumentar 50% neste ano para os consumidores. As empresas farmacêuticas estão também entre as que mais lucraram. O desenvolvimento de vacinas, tratamentos, testes e máscaras produziu 40 novos multimilionários no setor. Pfizer e Moderna estão a lucrar mais de mil dólares por segundo com a vacina. Os 10 homens mais ricos detêm uma riqueza maior do que os 40% da população mundial mais pobre. Os 20 mais ricos possuem mais riqueza que todo o produto interno bruto da África subsariana. As mulheres e os grupos racializados são quem mais está a sofrer com a pandemia, a especulação na energia e a crise alimentar, agravando-se a pobreza e o acesso ao trabalho.

A Oxfam sugere três medidas de elementar sensatez: um imposto sobre os lucros extraordinários dos maiores grupos multinacionais, a começar pelos da energia (na origem da espiral inflacionista), que aliás já foi recomendado pela Comissão Europeia e até pelo FMI. Um imposto de solidariedade sobre a riqueza dos novos multimilionários, já adotado em países como a Argentina. E um imposto permanente sobre a riqueza como forma de equilibrar o tratamento fiscal do trabalho face ao capital.

Por cá, estamos a fazer a nossa parte? O Orçamento que acaba de ser aprovado - o tal que, em tempos, alguém quis brandir como “o mais à esquerda de sempre” - não foi capaz de acolher qualquer medida que se assemelhasse vagamente às moderadas recomendações da Oxfam, embora tenham sido propostas. Pelo contrário. O efeito da inflação será comer os salários que não sobem e aumentar exponencialmente os lucros na energia e na distribuição alimentar. A promessa para 2023, também em Portugal, é termos ainda mais ricos e ainda mais pobres.

Triste acomodação, que aliás sublinha um paradoxo: o maior conhecimento sobre esta inaceitável injustiça não significa necessariamente uma transformação na lógica que a fabrica. Este relatório, é verdade, teve uma assinalável, embora fugaz, repercussão mediática. Mas numa conjuntura em que, parafraseando Frederic Jameson, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, os mecanismos de acumulação de riqueza não estão sequer a ser beliscados. Ao contrário da impostura liberal, pobreza e riqueza são fenómenos relacionais. A dor é mesmo o outro lado da moeda do lucro. Talvez por isso nunca tenha sido tão urgente ampliar a nossa imaginação política, para lá das variações na gestão deste sistema de saque organizado e de produção de desiguais.

Artigo publicado em expresso.pt a 31 de maio de 2022

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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