José Soeiro

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.

Quem pensa com base nas narrativas da extrema-direita brasileira perde facilmente o fio democrático da discussão. É o que sucede a tantas figuras da direita, que hesitam em reconhecer o óbvio. E explica o sonoro silêncio da Iniciativa Liberal.

Não admira que o dono de uma empresa com centenas de trabalhadores defenda estas posições. O estranho é que as tenha querido fazer passar como representando os interesses dos “estafetas”.

Contração dos rendimentos, desvalorização do Parlamento, substituição do diálogo com os partidos de esquerda pelos “acordos de regime” com o PSD, os patrões e a UGT, exibidos como caução de uma paz social duradoura.

De 2019 para 2020, o número de pessoas em risco de pobreza aumentou 12,5% e aumentou também a desigualdade na distribuição do rendimento. Se há pessoas e redes antipobreza, também há muitos inimigos do combate à pobreza.

Atualizar as pensões pela lei de Vieira da Silva não fazia “perder 13 anos de vida ao sistema”. Essa justificação era mentira e, ao utilizá-la, o Governo sabia que estava a falsear o debate. O relatório do Orçamento traz agora os números reais e comprova que o documento de há três semanas era uma fraude.

Lula, cuja vitória na segunda volta é a esperança para que a democracia política sobreviva, está numa camisa de forças. O futuro do Brasil mostra-se tão dramaticamente imprevisível como as ameaças do passado.

No ano letivo que agora começa, há menos 80% de oferta de casas e quartos para arrendar a universitários e os preços dos poucos espaços disponíveis aumentaram 10%. Ou seja, a situação é desesperante para grande parte dos 21 mil alunos deslocados, de entre os 50 mil colocados este ano no Ensino Superior.

A direita teve sempre uma tese: o atual sistema não é sustentável; e uma estratégia para lhe responder: seria preciso congelar atualizações e cortar pensões. António Costa acaba de recuperar ambas, ao invocar os mesmos perigos e ao avançar com a mesma suspensão da lei de Vieira da Silva.

Costa fez do anúncio um exercício de habilidade. Apresentou como um apoio (“mais 50% de pensão em outubro”) o que não é mais que uma antecipação agora e um corte de pensão depois, cujo único objetivo é assegurar poupança no OE 2023, à custa da diminuição dos rendimentos reais dos pensionistas.

O conformismo com as “leis do mercado” não é outra coisa que não uma opção ideológica em favor da estrutura de privilégios que existe. Foi para isso que o PS quis uma maioria absoluta?