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Vacinas não-Covid tomadas recentemente podem ter eficácia na infeção por SARS-CoV-2

Em relação ao vírus da COVID-19, tem sido levantada a hipótese de algumas vacinas já existentes para o combate a outras infeções poderem ter um efeito protetor contra a infeção por SARS-CoV-2. Por Ana Isabel Silva, bioquímica e investigadora em ciências da saúde.
Vacinação de uma criança – Foto de programa nacional de vacinação, sns.gov.pt
Vacinação de uma criança – Foto de programa nacional de vacinação, sns.gov.pt

As vacinas atuam com o objetivo de treinar o nosso sistema imunitário adaptativo. Fazem isto gerando no nosso corpo uma resposta imunitária específica ao antigénio que lhe é apresentado. Cada vez mais estudos sugerem que vacinas especifícas para certa infeção podem também ser protetoras em relação a outras infeções. Como exemplo, temos a vacina contra o sarampo que já demonstrou ter alguma eficácia também contra a tosse convulsa ou a varicela1.

Em relação ao vírus da COVID-19, tem sido levantada a hipótese de algumas vacinas já existentes para o combate a outras infeções poderem ter um efeito protetor contra a infeção por SARS-CoV-2. Estudar esta possibilidade é de extrema importância pois permitiria aos cientistas usar vacinas ou mecanismos imunológicos já existentes em vez de gastar tempo e dinheiro em novas investigações e desenvolvimento.

Cada vez mais estudos sugerem que vacinas especifícas para certa infeção podem também ser protetoras em relação a outras infeções

Já alguns artigos sugerem que a vacina BCG (para a prevenção da tuberculose) tem um efeito protetor na taxa de incidência de COVID-19. Aliás, um estudo sugere que esta vacina reduz em 53% a taxa de infeção por SARS-CoV-2. Em consequência, já está a decorrer um ensaio clínico, atualmente em fase 4 (fase final) para validar se esta vacina consegue realmente proteger contra a COVID-19. Inúmeros ensaios clínicos estão, neste momento, a decorrer com o objetivo de testar a eficácia de outras vacinas contra a COVID-19, como a da poliomielite, do sarampo, parotidite epidémica e rubéola (estas 3 últimas normalmente administradas em conjunto), a da gripe e a da prevenção da tuberculose.

Recentemente, foi realizado um estudo exploratório 2 que recolheu dados de 137.037 indivíduos que realizaram o teste diagnóstico para o SARS-CoV-2 durante o ano de 2020. Nestes indivíduos, avaliou-se a incidência de casos positivos e negativos comparando aqueles que receberam ou não uma ou mais vacinas (das 18 avaliadas) há 1, 2 ou 5 anos. Este estudo demonstrou que indíviduos vacinados para a poliomielite, sarampo, varicela, pneumonia, hepatite A/B ou gripe há 1, 2 ou 5 anos, tinham consistentemente menor probabilidade de terem um teste de diagnóstico positivo para o SARS-CoV-2. Os melhores resultados foram obtidos para as vacinas da poliomielite e contra doença invasiva por Haemophilus influenzae b- vacinas que são quase exclusivamente administradas em indivíduos com menos de 18 anos – chegando estas a demonstrar uma redução de quase 50% na probabilidade de contrair COVID-19. As vacinas da doença pneumónica, da gripe e da hepatite A/B, apesar de não demonstrarem uma eficácia tão grande como outras para a redução da infeção por SARS-CoV-2, revelam um facto interessante pois são administradas num maior leque de idades da população. Muitas destas vacinas não são administradas individualmente mas frequentemente a sua administração é feita em conjunto, principalmente em crianças. Assim, é plausível que os resultados protetores observados não se devam a uma vacina em específico mas sim à combinação entre elas.

Apesar de algumas limitações deste estudo, como a não inclusão de outras variáveis como viagens efetuadas – algo que afeta grandememente a probabilidade de infeção – este estudo reforça a importância de avaliar a eficácia de mecanismos e vacinas já existentes para outras infeções, no combate a este novo vírus. Presentemente, é essencial os investigadores perceberem as respostas de anticorpos para algumas destas vacinas para explorar os mecanismos imunológicos que sustentam esta observação empírica. Este estudo apenas se focou na susceptibilidade de desenvolver uma infeção por SARS-CoV-2. Até ao momento, não há evidências suficientes relativamente à eficácia destas vacinas na prevenção de desenvolvimento de sintomas graves da COVID-19.

Artigo de Ana Isabel Silva, bioquímica e investigadora em ciências da saúde, para esquerda.net

Notas:

1 Sánchez-Ramón, S., et al., Trained Immunity-Based Vaccines: A New Paradigm for the Development of Broad-Spectrum Anti-infectious Formulations. Front Immunol, 2018. 9: p. 2936.

2 Pawlowski, C., et al., Exploratory analysis of immunization records highlights decreased SARS-CoV-2 rates in individuals with recent non-COVID-19 vaccinations. Sci Rep, 2021. 11(1): p. 4741.

Sobre o/a autor(a)

Bioquímica e investigadora em ciências da saúde
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