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“Um país empobrecido nunca vai parar de empobrecer”

Num comício muito participado em Braga, Marisa Matias evocou a revolta da Maria da Fonte, que a partir daquele distrito “pôs todo o país de pé e derrubou um governo que não servia a nação”. Francisco Louçã foi um dos oradores e previu a derrota da direita nas eleições “por cabazada”.
Grande animação no comício em Braga. Foto de Paulete Matos
Grande animação no comício em Braga. Foto de Paulete Matos

Marisa Matias começou a sua intervenção recordando a revolta da Maria da Fonte que em 20 de maio de 1846 derrubou o “odiado governo dos Cabrais”. Um governo que “caiu derrubado pela força do movimento popular”, sublinhou, “que a partir deste distrito de Braga pôs todo o país de pé e derrubar um governo que não servia o país”.

Invocando um documento da Academia Portuguesa de História, a candidata fez um paralelo entre a situação de hoje e as “causas profundas” daquela revolta, há mais de 160 anos, encontrando também naquela época uma situação financeira grave, um aumento da dívida interna e externa e dificuldades de crédito externo, a venda dos “bens nacionais” (o património público) que empobreceu o país; a expansão da agiotagem que era lesiva dos interesses públicos, mas favorecia alguns privados conotados com o governo. Também nessa altura, assistia-se “ao enriquecimento de uma elite associada ao poder político muitas vezes com responsabilidades ministeriais”. Assim, rematou Marisa Matias, “nós somos os tetranetos deste povo e como ele saberemos derrubar todos os 'governos dos Cabrais' que têm assolado o país”.

“Temos de desobedecer à Europa dos que são falsos à nação. De pé!”

Acusando o “bloco central” de fazer da campanha uma “novela de dramas, arrufos e vitimização”, a cabeça de lista do Bloco de Esquerda passou a falar das “questões importantes, que devemos trazer para cima da mesa” nesta campanha das europeias, que considerou “a mais importante de todas”. Defendeu uma política que tenha capacidade de criar emprego, e “é por isso que rejeitamos o Tratado Orçamental”. Que promova o Estado social e os serviços públicos – “e é por isso que precisamos de reestruturar a dívida pública”. Que reponha os rendimentos dos salários e das pensões “porque um país empobrecido nunca parará de empobrecer”. Que promova uma reforma fiscal “porque só uma redistribuição da riqueza poderá garantir um país mais justo”. Que defenda intransigentemente os direitos humanos, sublinhando que “a esquerda tem sido a única voz que tem colocado os direitos humanos e sociais no centro da política”. Por uma Europa que seja aberta a todos e todas “e não a Europa racista e xenófoba que exclui cidadãos”.

Regressando à evocação da revolta da Maria da Fonte, Marisa Matias concluiu: “Temos de desobedecer à Europa dos que são falsos à nação. De pé!”

Abstenção deixa tudo na mesma”

Antes da cabeça de lista, Catarina Martins já tinha ido ao púlpito da tenda montada na Avenida Central de Braga para avisar que "o maior favor que se pode fazer à direita e à finança é a abstenção, ou o voto branco, ou o voto nulo porque esses não escolhem nada e por isso premeiam o que está".

"A abstenção não resolve nada e não transforma nada. Deixa tudo precisamente na mesma".

E insistiu: "A lição que temos com estes menos de quatro em cada dez a escolherem, é que quando não escolhemos o nosso futuro, alguém escolherá por nós e alguém pode estar a escolher contra nós, como tem acontecido. A abstenção não resolve nada e não transforma nada. Deixa tudo precisamente na mesma".

A direita vai levar uma cabazada”

“Não imaginam as saudades que tinha de vos ver”, comentou Francisco Louçã ao subir ao púlpito do comício. No seu discurso, o professor de economia previu que as eleições vão terminar com uma derrota por uma “enorme cabazada” para a coligação apoiada por pelos partidos que suportam o governo. Citando uma música de Zeca Afonso, comparou PSD e CDS ao “comboio descendente” onde impera uma “grande reinação”, citando momentos da campanha como a garrafa de champanhe a que “anda sempre agarrado” o primeiro candidato “popular”, Nuno Melo, ou o brinde do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, ao bacalhau.

"Reina a desorientação nas hostes da direita, cujos candidatos estão conscientes da derrota que vão sofrer pelo mal que fizeram ao país”.

Na opinião do dirigente do Bloco, estes são episódios que mostram a desorientação nas hostes da direita, cujos candidatos estão conscientes da derrota que vão sofrer “pelo mal que fizeram ao país”.

Louçã listou então três razões para um voto no Bloco no próximo domingo: a luta pela Europa contra a união entre Merkel e Hollande que “só querem o que for pior para a Europa”; a possibilidade de todos quantos votam no PSD e no CDS nas últimas europeias ou nas legislativas que elegeram o atual governo “fazerem as pazes com o país”; e um apelo forte contra a abstenção.

Lista com muitos independentes

Pedro Soares, dirigente do Bloco, sublinhou a importância de metade da lista ser composta por independentes e destacou um deles, um minhoto de Barcelos – Manuel Carlos Silva, “com um percurso de vida que nos empresta um grande orgulho, que nos empresta uma grande honra ao participar nesta lista. Um percurso de vida académico, mas também cívico, de luta”.

E sublinhou: “É uma lista com pessoas independentes com grande competência, com grandes qualidades, com provas dadas na nossa sociedade e também com um grande percurso de vida, de luta cívica,de luta pelos ideais de liberdade e de luta por melhores condições de vida para o nosso povo.”

O candidato independente Manuel Carlos Silva defendeu no comício que “vale a pena lutar para transformar estar país num regime mais livre, mais justo e mais solidário”, sublinhando que “este governo, ao desrespeitar a constituição degradou a democracia, não só jurídico-política, mas também económica e social.”

O comício teve ainda a participação musical de Vasco Ribeiro Casais, com o seu projecto Omiri.

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