O caminho é o mesmo do que em outras partes. A extrema-direita faz a pauta anti-imigração, os governos do centrão seguem-na, supostamente para correr atrás do prejuízo. No Reino Unido, o primeiro-ministro Keir Starmer apresentou esta segunda-feira os seus planos para reprimir “significativamente” a imigração depois do partido de extrema-direita Reform UK ter vencido as recentes eleições locais.
O chefe do governo trabalhista justifica querer “retomar o controlo das fronteiras” e encerrar um “capítulo sórdido” de crescimento da imigração, acentuando restrições aos vistos de trabalho e de estudo, como a redução de vistos de pós-graduação para 18 meses e o aumento dos níveis de língua inglesa exigidos, e a proibição de contratação de trabalhadores estrangeiros no setor dos cuidados, como os lares de idosos. A solicitação automática do direito de residência para trabalhadores estrangeiros passará de cinco para dez anos. Anunciam-se ainda planos para deportar mais estrangeiros condenados por crimes e pretende-se exigir que trabalhadores qualificados que entrem no país possuam licenciatura e aumentar em 32% a sobretaxa paga pelas empresas que contratem trabalhadores qualificados do estrangeiro.
Starmer pretende ainda uma interpretação mais restritiva nas leis sobre direitos humanos, para cortar no número das pessoas que podem alegar “circunstâncias excecionais” sobre o direito à vida familiar para permanecer no Reino Unido. E diz que mais medidas no mesmo sentido virão se forem necessárias.
E não são só as medidas sobre imigração que endurecem, é o próprio discurso. O primeiro-ministro declarou que, sem as suas medidas, “arriscamos ser uma ilha de estranhos não uma nação que caminha em frente junta”.
Quis ainda contrapor “a teoria de que números de migração mais altos levam necessariamente a crescimento maior”, o que disse não ter funcionado nos últimos quatro anos, acusando o governo anterior de ter “perdido o controlo” sobre a imigração.” E defendeu que o controlo da imigração é um “valor fundamental” do seu partido, acrescentando: “devíamos estar a escolher quem queremos, as qualificações mais elevadas, os caminhos para os talentos de alto nível que entram no nosso país”.
Mas até nas hostes trabalhistas tais políticas não são vistas como valores fundamentais e tradicionais do partido. Foram vários os deputados trabalhistas que questionaram diretamente Starmer sobre o tema. Sarah Owen, presidente da comissão de mulheres e igualdade, contrapôs: “correr atrás da cauda da direita corre o risco de levar o nosso país por um caminho muito sombrio. A melhor forma de evitar tornarmo-nos uma 'ilha de estranhos' é investir nas comunidades para prosperar – não colocar as pessoas umas contra as outras.”
No mesmo sentido, a deputada Nadia Whittome avaliou a retórica anti-imigrante do governo como “vergonhosa e perigosa”. Para ela, “sugerir que a Grã-Bretanha arriscar tornar-se uma 'ilha de estranhos' por causa da imigração imita a política de medo da extrema-direita.” O deputado Bell Ribeiro-Addy republicou o vídeo desta declaração na sua conta do X, mostrando concordância.
O ex-líder trabalhista Jeremy Corbyn, agora deputado independente, foi outro dos que reagiu fortemente. Na sua intervenção parlamentar, denunciou que “a linguagem de Enoch Powell foi utilizada pelo primeiro-ministro”. Nele “não se fala no enorme valor da migração para este país que manteve o nosso Serviço Nacional de Saúde a funcionar, o nosso sistema educativo a funcionar e muito mais e há já 130.000 vagas por preencher no setor dos cuidados”-
E questionou: “alguma coisa no livro branco faz alguma coisa para melhorar relações comunitárias ou para lidar com a falta que já existe no SNS e no setor de cuidados ou é só algo para tentar agradar a estas pessoas”, referindo-se aos deputados da extrema-direita que se sentam à sua frente.
Migrants are not your enemy. pic.twitter.com/J23cOY68VO
— Jeremy Corbyn (@jeremycorbyn) May 12, 2025
Estes acusaram o toque e, por intermédio de Lee Anderson, reagiram apelando a que Corbyn fosse deportado junto com os jovens migrantes que atravessem o canal da Mancha.
Zarah Sultana, outra ex-deputada trabalhista também sancionada pela direção do seu partido por ter votado contra a limitação de subsídios públicos a duas crianças por família, agora independente, também criticou o governo no mesmo sentido de Corbyn, escrevendo que o discurso de Starmer imitava o de Enoch Powell e que se tornou depois um slogan para os racistas do país. Na rede social X, escreveu: “esse discurso alimentou décadas de racismo e divisão. Repeti-lo hoje é uma vergonha. Junta-se à retórica anti-imigração que coloca vidas em risco. Tenha vergonha, Keir Starmer”.
O discurso matriz da extrema-direita sobre imigração: os “rios de sangue”
O discurso a que estes dois deputados e muitas outras figuras se referiram, foi pronunciado por Enoch Powell em 1968. Este ex-governante em pastas como a Saúde, Habitação e Finanças, era na altura deputado conservador e ministro-sombra da Defesa. Num encontro do seu partido, em Birmigham, citou uma parte da Eneida que antevê o rio Tibre a “espumar com muito sangue” para falar do futuro do seu país por causa da imigração. Ficou conhecido como o discurso dos “rios de sangue” e tornou-se um clássico do pensamento anti-imigração que continha já grande parte dos tópicos que hoje em dia são repetidos pela extrema-direita.
A partir de supostas cartas de eleitores que se queixavam que “neste país dentro de 15 ou 20 anos os negros terão controlo sobre o homem branco”, traçava um quadro de áreas “que já estão a sofrer uma transformação total sem paralelos”. A situação seria “como ver uma nação ocupada a preparar a sua própria pira funerária”, disparava, enquanto defendia a expulsão de imigrantes.
Daí vem a ideia de que os nacionais se passavam a “considerar estrangeiros no seu próprio país. Descobriram que as suas esposas não conseguiam obter camas hospitalares para o parto, os seus filhos não conseguiam obter vagas na escola, as suas casas e bairros estavam irreconhecíveis, os seus planos e perspetivas para o futuro estavam derrotados; no trabalho, verificaram que os empregadores hesitavam em aplicar ao trabalhador imigrante os padrões de disciplina e competência exigidos ao trabalhador nativo; com o passar do tempo, começaram a ouvir cada vez mais vozes que lhes diziam que agora eram eles os indesejados”.