O relatório do Corporate Europe Observatory divulgado esta quinta-feira, revela a dimensão das “portas giratórias” entre reguladores e regulados na indústria financeira europeia. E conclui que um terço das pessoas que ocuparam altos cargos na Direção-Geral da Estabilidade Financeira, dos Serviços Financeiros e da União dos Mercados de Capitais tinham trabalhado ou foram trabalhar depois para a indústria financeira.
Entre 2008 e 2017, 19 dos 61 maiores responsáveis da Direção-Geral da Estabilidade Financeira, dos Serviços Financeiros e da União dos Mercados de Capitais entraram e saíram deste departamento para o setor privado.
Ao nível dos diretores, dos cinco que saíram da função pública entre 2008 e 2017, quatro estão agora a trabalhar nas empresas que costumavam regular ou consultadorias de lobby que representam os seus interesses.
Como ficou evidente no caso de Durão Barroso, que passou da presidência da Comissão Europeia para a presidência do Goldman Sachs, as portas giratórias não se limitam aos responsáveis técnicos da União. Dois dos três comissários europeus responsáveis pelas finanças passaram a trabalhar no setor financeiro após o final do seu mandato.
“As regras da Comissão para mitigar os potenciais conflitos de interesse falharam em conter a recente vaga de casos de portas giratórias e devem ser reforçadas com urgência”, afirma Margarida Silva, responsável pela campanha de Regulação Ética e Transparência dos Lóbis do Corporate Europe Observatory.
“A ideia de que a passagem de um órgão regulador para a indústria que regulava é uma progressão na carreira perfeitamente lógica deve ser destruída de uma vez por todas”, defende a ativista.
Para Yorgos Vassalos, co-autor deste relatório, há outra questão a ter em conta: “Quando a implementação de regulação no interesse público pode comprometer as perspetivas de carreira pessoal no setor, o risco de compaixão indevida pelos interesses particulares da indústria é alto”.