Rajoy forma governo sem paridade e com figuras polémicas

22 de dezembro 2011 - 2:49

O novo ministro da Economia do governo espanhol era o presidente do Lehman Brothers para Portugal e Espanha quando se deu a falência do gigante da banca. E o ministro da Defesa foi representante da empresa que vendeu bombas de fragmentação a Khadafi.

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Luis de Guindos é o autor do programa económico do PP e quer implementar a agenda austeritária no Governo. Foto mercedesalonso/Flickr Foto

À frente da pasta da Economia estará Luis de Guindos, já foi secretário de Estado num governo de Jose Maria Aznar, entre 2002 e 2004. Daí passou a conselheiro assessor para a Europa do Lehman Brothers, o banco de investimentos considerado um dos maiores responsáveis pelo rebentar da crise financeira em 2008.



Mais tarde, Guindos veio a ascender a presidente do banco para Portugal e Espanha, até ao dia em que o Lehman Brothers faliu. O novo ministro da Economia espanhol passou então a responsável do sector financeiro da consultora PricewaterhouseCoopers. Foi ele que coordenou o programa económico do PP e é um defensor das receitas de austeridade, cortes nos serviços públicos e alterações nas leis laborais para desproteger os trabalhadores.



Para a frente do Ministério da Defesa vai um representante de peso da indústria de armamento. Pedro Morenés Eulate vem da presidência da MBDA, a multinacional do fabrico de mísseis que resultou da fusão das principais empresas do ramo no Reino Unido, França e Itália. Também foi secretário de Estado com Aznar, ocupando várias pastas entre 1996 e 2004. Morenés Eulate foi ainda conselheiro duma empresa - Instalaza SA - que vendeu bombas de fragmentação à Líbia, que as tropas leais a Khadafi vieram a utilizar contra a população.



Segundo a edição online do Publico.es, enquanto o novo ministro da Defesa trabalhava para a Instalaza, a empresa pediu uma indemnização ao Governo espanhol por danos causados ao seu negócio mortífero. A razão apontada foi a assinatura da Espanha, a par de outros 106 países, no tratado internacional de proibição do uso, fabrico, compra e armazenamento das bombas de fragmentação. A empresa do novo ministro reclamou 40 milhões de euros por lucros não recebidos. E em abril deste ano, o New York Times foi encontrar estas bombas disparadas pelas tropas de Khadafi contra as populações civis, com data de fabrico de 2007 e do mesmo modelo - MAT 120 - fabricado pela Instalaza.



Outra figura polémica de regresso aos governos desde a era Aznar é o ministro da Agricultura e Meio Ambiente. Miguel Arias Cañete era o titular da pasta da Agricultura e Pescas quando se deu a catástrofe do Prestige na costa da Galiza em novembro de 2002.



Cañete aplaudiu a decisão do Governo de afastar o navio da costa e uma semana após o Prestige se ter partido ao meio, derramando muitos milhares de toneladas de petróleo, o ministro agora regressado ainda afirmava que "o derrame atinge uma vasta extensão, mas não é uma maré negra".



Há apenas quatro mulheres em treze pastas do Governo de Mariano Rajoy, que assim reduz o tamanho e abandona a paridade trazida por Zapatero ao palácio da Moncloa. Uma delas, Soraya Saenz de Santamaria, será o braço direito de Rajoy na pasta da Presidência. Ana Pastor, Ana Mato e Fatima Báñez ocuparão as pastas do Fomento, Saúde e Emprego.



A presidente da Associação de Mulheres Progressistas diz-se surpresa por esta composição marcadamente masculina do Governo. "Parecia que Rajoy se tinha rodeado de mulheres na oposição para apostar nelas quando chegasse ao Governo e não foi isso que aconteceu", lamentou Yolanda Besteiro.