Albânia

Protestos contra encerramento de canal televisivo pela polícia

13 de agosto 2025 - 15:27

As autoridades albanesas dizem que se trata apenas de resolve um conflito de propriedade sobre as instalações onde pretendem construir um polo industrial para servir as forças armadas. Associações de jornalistas nacionais e internacionais falam num ataque deliberado à liberdade de imprensa.

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Entrada do edifício da News 24.
Entrada do edifício da News 24.

No passado sábado pela manhã, uma operação policial entrou nas instalações do maior canal televisivo albanês de notícias, o News 24, ordenou que os trabalhadores saíssem, cortou a eletricidade e mandou abaixo a sua transmissão.

De acordo com o Balkan Insight, os jornalistas relatam que os seus computadores pessoais e outro equipamento, incluindo “informação sensível”, foram apreendidos, colocando em causa as suas fontes e a segurança do seu trabalho.

As autoridades alegam ter do seu lado uma decisão judicial que lhe permitiria que o complexo da velha Fábrica de Tratores Automóveis fosse devolvido ao Estado para que aí seja construído pela Kayo, uma empresa estatal, um polo industrial que produzirá fardas e equipamento para as Forças Armadas. Na visão do primeiro-ministro albanês, Edi Rama, este é “um desenvolvimento positivo para as Forças Armadas, para a nossa economia nacional e para a comunidade local, trazendo de volta à vida uma antiga infraestrutura que esteve ociosa durante décadas”.

Entendimento diferente tem a empresa Focus Media News, dona deste e de vários outros canais como a BalkanWeb, Panorama e a Gazeta Shqiptare. Esta alega que as instalações são sua propriedade e que tem toda a documentação que o prova e que se trata de “um golpe na liberdade de expressão”. Acrescenta-se que não há nenhuma ordem do tribunal que justifique a ação policial de sábado que foi comandada pelo governo.

A diretora geral do canal, Anila Jole, citada pela DW, diz que a expulsão foi “arbitrária” e “sem aviso prévio escrito”. Sublinha que “a liberdade de imprensa é o fundamento de uma sociedade democrática e, quando é minada, a própria democracia está em risco”. Esta responsável pede agora uma suspensão da intervenção que dê à estação tempo para mudar de instalações.

Também jornalistas, ativistas e apoiantes da oposição estão indignados com o que se passou e manifestaram-se esta segunda-feira, utilizando com palavra de ordem o lema que tem sido utilizado pelo Washington Post, “Democracy dies in darkness”, a democracia morre na escuridão.

A Associação Albanesa de Jornalistas sublinha que a intervenção policial é uma “violação flagrante dos princípios fundamentais da democracia e da liberdade de expressão, garantidos pela Constituição e pelos instrumentos internacionais de direitos humanos”. Segundo a organização, “ações policiais que obstruam diretamente o trabalho de jornalistas são inaceitáveis e constituem uma pressão aberta sobre a imprensa livre”.

A rede SafeJournalists Albânia tomou posição semelhante, vincando que o bloqueio do acesso dos jornalistas à sua redação e a restrição da sua capacidade de trabalho “coloca em perigo a independência e a liberdade de imprensa”.

Quem também se pronunciou contra o que se passou foi o ex-presidente e ex-primeiro-ministro Sali Berisha, líder do maior partido da oposição, o conservador Partido Democrático da Albânia, que diz tratar-se de um “grave ataque contra a liberdade de expressão”.

Mas as expressões de solidariedade não são unânimes na oposição. Muitos vincam as posições tradicionais deste meio de comunicação que era tradicionalmente vinculado ao poder e as ligações que o seu proprietário mantinha com o atual primeiro-ministro antes de se terem desentendido.

Do exterior, chegam posições de organizações como os Repórteres Sem Fronteiras, a Federação Europeia de Jornalistas e o International Press Institute que fizeram uma declaração conjunta em que dizem que as ações policiais avançaram “com fundamentos legais pouco claros e sem o devido processo legal”, referindo a ausência de uma base jurídica publicada para a decisão, de ordens judiciais ou de um calendário claro que levanta sérias dúvidas sobre a sua legalidade e proporcionalidade.