No passado sábado pela manhã, uma operação policial entrou nas instalações do maior canal televisivo albanês de notícias, o News 24, ordenou que os trabalhadores saíssem, cortou a eletricidade e mandou abaixo a sua transmissão.
De acordo com o Balkan Insight, os jornalistas relatam que os seus computadores pessoais e outro equipamento, incluindo “informação sensível”, foram apreendidos, colocando em causa as suas fontes e a segurança do seu trabalho.
As autoridades alegam ter do seu lado uma decisão judicial que lhe permitiria que o complexo da velha Fábrica de Tratores Automóveis fosse devolvido ao Estado para que aí seja construído pela Kayo, uma empresa estatal, um polo industrial que produzirá fardas e equipamento para as Forças Armadas. Na visão do primeiro-ministro albanês, Edi Rama, este é “um desenvolvimento positivo para as Forças Armadas, para a nossa economia nacional e para a comunidade local, trazendo de volta à vida uma antiga infraestrutura que esteve ociosa durante décadas”.
Entendimento diferente tem a empresa Focus Media News, dona deste e de vários outros canais como a BalkanWeb, Panorama e a Gazeta Shqiptare. Esta alega que as instalações são sua propriedade e que tem toda a documentação que o prova e que se trata de “um golpe na liberdade de expressão”. Acrescenta-se que não há nenhuma ordem do tribunal que justifique a ação policial de sábado que foi comandada pelo governo.
A diretora geral do canal, Anila Jole, citada pela DW, diz que a expulsão foi “arbitrária” e “sem aviso prévio escrito”. Sublinha que “a liberdade de imprensa é o fundamento de uma sociedade democrática e, quando é minada, a própria democracia está em risco”. Esta responsável pede agora uma suspensão da intervenção que dê à estação tempo para mudar de instalações.
Também jornalistas, ativistas e apoiantes da oposição estão indignados com o que se passou e manifestaram-se esta segunda-feira, utilizando com palavra de ordem o lema que tem sido utilizado pelo Washington Post, “Democracy dies in darkness”, a democracia morre na escuridão.
A Associação Albanesa de Jornalistas sublinha que a intervenção policial é uma “violação flagrante dos princípios fundamentais da democracia e da liberdade de expressão, garantidos pela Constituição e pelos instrumentos internacionais de direitos humanos”. Segundo a organização, “ações policiais que obstruam diretamente o trabalho de jornalistas são inaceitáveis e constituem uma pressão aberta sobre a imprensa livre”.
A rede SafeJournalists Albânia tomou posição semelhante, vincando que o bloqueio do acesso dos jornalistas à sua redação e a restrição da sua capacidade de trabalho “coloca em perigo a independência e a liberdade de imprensa”.
Quem também se pronunciou contra o que se passou foi o ex-presidente e ex-primeiro-ministro Sali Berisha, líder do maior partido da oposição, o conservador Partido Democrático da Albânia, que diz tratar-se de um “grave ataque contra a liberdade de expressão”.
Mas as expressões de solidariedade não são unânimes na oposição. Muitos vincam as posições tradicionais deste meio de comunicação que era tradicionalmente vinculado ao poder e as ligações que o seu proprietário mantinha com o atual primeiro-ministro antes de se terem desentendido.
Do exterior, chegam posições de organizações como os Repórteres Sem Fronteiras, a Federação Europeia de Jornalistas e o International Press Institute que fizeram uma declaração conjunta em que dizem que as ações policiais avançaram “com fundamentos legais pouco claros e sem o devido processo legal”, referindo a ausência de uma base jurídica publicada para a decisão, de ordens judiciais ou de um calendário claro que levanta sérias dúvidas sobre a sua legalidade e proporcionalidade.