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Polícia chilena usa quarentena como argumento para reprimir manifestações

A denúncia é feita por organizações de direitos humanos no Chile. As manifestações populares aumentaram desde que a pandemia começou a afetar a economia do país. População diz que sai à rua para pedir comida e que é recebida pela polícia com violência.
Imagem da repressão policial a manifestações populares no Chile em novembro de 2019.
Imagem da repressão policial a manifestações populares no Chile em novembro de 2019. Fotografia de cameramemories/Flickr.

Os impactos da pandemia da covid-19 na economia chilena têm sido particularmente duros, com uma elevada percentagem da população no desemprego num país com um frágil sistema de segurança social. As populações dos bairros mais pobres passam fome e, com isso, têm surgido protestos. Queixam-se que os apoios sociais são insuficientes para dar resposta às necessidades das populações, que tentam organizar-se da forma possível. Uma das formas de organização popular nos bairros tem sido a criação de cantinas comunitárias, que começaram a ser criadas assim que a pandemia surgiu, em março, quando a distribuição de comida por parte do Governo só chegou em maio.

Porém, as manifestações com o objetivo de denunciar a fome têm sido recebidas com repressão policial. A denúncia é feita ao Guardian por ativistas e organizações de direitos humanos, que afirmam que a polícia chilena tem usado a obrigação de quarentena como pretexto para pôr fim às manifestações.

“Está a piorar”, afirmou ao Guardian Ana Piquer, diretora executiva da Amnistia Internacional Chile. “Há mais pessoas desempregadas, mais pessoas a protestar, por isso há mais repressão. A relação é muito direta”.

A presença de polícias e militares nas ruas a garantir o cumprimento do confinamento faz lembrar aos ativistas a resposta governamental durante a vaga de manifestações de 2019 contra a desigualdade no país.

Milhões de chilenos ocuparam as ruas reivindicando diversas matérias, desde as baixas pensões à denúncia da privatização do sistema de saúde e de ensino. A repressão policial não podia ter sido mais violenta. No total, mais de 30 pessoas perderam a vida e centenas ficaram feridas, entre elas o chocante número de cerca de 465 pessoas atingidas nos olhos por balas de borracha disparadas pela polícia. As acusações de tortura e agressão sexual também são muitas.

A Amnistia Internacional reuniu inúmeros relatos de detenções arbitrárias e de abuso policial. Entre as denúncias está o uso indiscriminado de gás lacrimogéneo e balas de borracha contra as pessoas que desrespeitam o confinamento obrigatório e com o objetivo de dispersar manifestantes. Um dos casos mais paradigmáticos, afirmou Ana Piquer, foi o de uma mulher que procurou a polícia depois de ter sido violada, só para acabar detida por ter quebrado a obrigação de confinamento. Num outro caso, uma mulher sofreu um aborto após ter sido detida pela polícia por caminhar perto de sua casa.

Segundo os dados da polícia, entre 19 de março e 2 de agosto foram detidas 163.957 pessoas por “crimes contra a saúde pública”, com detenções diárias às centenas.

“Estão a criminalizar os protestos e as pessoas que se organizam de qualquer forma, inclusive em cantinas comunitárias”, afirmou Piquer. “A pandemia veio demonstrar o quanto as desigualdades do Chile se traduzem em violações de direitos humanos”.

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