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Patrícia Reis e as crianças como entulho

O grande trunfo do romance será a exploração de uma vida quase marginal, com personagens convincentes, pese embora a tentativa de universalização da criança pela ocultação de género e de nome (“M.”). Tudo pesado, o que sobrevive após a leitura são as partes acutilantes e comoventes. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Se inicialmente a leitura emperra em artifícios que podiam ter sido secados, ultrapassada essa barreira, a narrativa de As Crianças Invisíveis, de Patrícia Reis, ganha novo fôlego e a leitura flui ao mergulhar-se na condição psicológica periclitante de uma criança que, durante anos, permanece num limbo, numa instituição de acolhimento, em sucessivos e infrutíferos processos de adopção. O grande trunfo do romance será esse: a exploração de uma vida quase marginal, com personagens convincentes, pese embora a tentativa de universalização da criança pela ocultação de género e de nome (“M.”).

A narrativa parece bem urdida. Fora os artifícios iniciais e um ou outro cliché escusado, a opção do ponto de vista parece acertada. O ponto fulcral será, no caso de M., o hábito à falta de expectativas, numa vida em que rejeição e limbo se mesclam com a esperança de uma família, ou com a cogitação da sua necessidade.

Para mais, subjaz no romance a ideia romântica e, em simultâneo, mercantilista de um processo de adopção, com gente que pede para ver uma criança como quem faz um test drive, que devolve uma criança como quem fez um test drive, e a clareza de como as possibilidades de adopção diminuem à medida que as crianças crescem. Afinal, quanto maiores forem, mais são de outros. Quanto menos tiverem vivido, menos experiência têm, e por isso mais se assemelharão a tábua rasa, tal qual recém-nascido.

Para mais, não ser uma tábua rasa implica trazer entulho que terá de ser tratado. Ou seja, Patrícia Reis explora ainda no romance o papel de candidatos à adopção que querem crianças apenas se estas vierem mutiladas da vida que tiveram até então.

Defraudadas as expectativas, há crianças que são devolvidas após um período experimental, como carros com defeitos, e aqui usa-se o eufemismo “devolução” para o que, findo o período de pré-adopção, seria considerado crime de abandono de menores.

Aliás, numa entrevista dada à Sapo24, a autora afirmou que, na construção da obra, lhe preocupava a ideia de que “as pessoas, muitas vezes, partem para a adoção porque querem ser boazinhas, querem preencher buracos, querem aliviar as suas questões existenciais. Então partem para a adoção como uma certa ligeireza. Este amor não nasce espontaneamente. Se adotas um miúdo com cinco anos, esse miúdo tem cinco anos de tralha e desastre para trás.”

No caso de M., as sucessivas devoluções devem-se também a um defraudar de expectativas dos candidatos à adopção, devido a um problema cardíaco, juntando-se ao entulho psicológico o entulho motor. Ou seja, findo o test drive, conclui-se que o carro não acelera até ao fim.

A prosa peca por ter explicações evitáveis em situações em que menos seria muito mais. Não é uma característica omnipresente, mas a autora, por vezes, rodeia quando podia ir ao osso, usando artifícios que sublinham que o drama é dramático, num livro que teria muito a ganhar se a prosa fosse totalmente enxuta. Tudo pesado, o que sobrevive após a leitura são as partes acutilantes e comoventes.

O livro extrapola a experiência individual de uma ou outra criança, ou até de uma enquanto todas, atingindo-se uma condição. Assim, Patrícia Reis chega ao leitor com o estalo da desumanização e da invisibilidade de uma criança que vive marginal. 

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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