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O trabalho na Rússia, as dificuldades económicas e o medo de Putin de revoluções coloridas

Os rendimentos na Rússia já tinham baixado antes da guerra e a sua economia está num impasse. A dificuldade do capitalismo oligárquico da Rússia de manter a legitimidade tornou-se ainda mais complicada. Mas há poucas probabilidades de uma revolta em massa a curto prazo. Por Stephen Crowley.
Zona industrial em São Petersburgo. Foto de Sergei F/Flickr.
Zona industrial em São Petersburgo. Foto de Sergei F/Flickr.

Os líderes políticos russos, como os de qualquer sociedade capitalista, enfrentam uma contradição na manutenção simultânea de acumulação e legitimação – ou seja, a acumulação de riqueza e capital, por um lado, mas preservando a legitimidade política por outro lado. Na Rússia a acumulação de riqueza e a desigualdade resultante tem sido espantosa, incluindo o aumento do número de oligarcas ligados ao Kremlin. Na era Putin, a legitimidade foi mantida inicialmente por um importante crescimento económico durante o "boom petrolífero" de 2000 a 2008, permitindo ao governo afirmar que tinha proporcionado "estabilidade" em contraste com o salto tumultuoso para o mercado livre nos anos 90. Desde então, o governo russo tem confiado cada vez mais na repressão e na propaganda, ambas as quais atingiram agora novos patamares com a invasão russa da Ucrânia.

No entanto, os rendimentos reais disponíveis na Rússia eram 10% mais baixos em 2021 do que em 2013. Devido a essa adversidade económica – agora certamente agravada pelas sanções económicas – a dificuldade de manter a legitimidade do capitalismo oligárquico da Rússia tornou-se ainda mais complicada. Apesar do regime de Putin gostar de se apresentar como um defensor da classe trabalhadora e dos "russos verdadeiros" do coração industrial do país, a experiência mostra que o nível de tolerância desses grupos tem um ponto de rutura.

Na altura da redação deste artigo (meados de maio de 2022), ainda não é possível calcular o verdadeiro impacto cumulativo das sanções ocidentais sobre a sociedade russa. No entanto, a economia russa já mergulhou numa profunda recessão, com projeções de contração económica de mais de 11% em 2022. A verdade é que já antes da invasão havia poucos caminhos para sair da má situação económica russa que não colocassem a possibilidade de um protesto social potencialmente desestabilizador. Poderá o governo russo empreender reformas para reanimar a economia? Será que consegue renunciar e adiar uma reestruturação económica fundamental, agravando e prolongando as dificuldades sociais? Este desafio forma o que denominei de "dilema laboral" da Rússia, uma vez que qualquer das abordagens aumentará o potencial de protesto social e, em última análise, de contestação política.

Desafios económicos (pré-)existentes

A economia da Rússia já sofria de estagnação prolongada antes das atuais sanções. As razões são múltiplas, mas o legado do passado soviético continua a ser um grande desafio. Apesar do dramático declínio económico dos anos 90, a Rússia evitou o desemprego em massa, mas apenas através de enormes quedas nos níveis salariais (incluindo, durante algum tempo, o seu não pagamento, levando a uma crise de "salários em atraso"). Embora a Rússia tenha evitado uma temida "explosão social" durante este período, também evitou a reestruturação substancial da infraestrutura industrial soviética. Apesar dos salários terem subido de novo, depois de baterem no fundo, com o crescimento económico nos anos 2000, a Rússia continua a ser uma economia com elevado emprego e baixos salários (Gimpelson, Kapeliushnikov e Roshchin, 2017).

Os salários baixos, por mais brutais que sejam para os trabalhadores, podem tornar-se a vantagem comparativa global de um país, se a economia estiver baseada na exportação de produtos de mão-de-obra intensiva. No entanto, isto não é o caso na Rússia pois, com exceção de certas empresas do sector metalúrgico e da indústria militar, as exportações de produtos russos são não competitivas. Com salários baixos, há menos incentivo ao investimento na educação e na tecnologia. A incapacidade de investir suficientemente na educação tem contribuído para um declínio do capital humano da Rússia, um problema que se tornou "colossal" segundo alguns dos principais economistas e peritos empresariais (e isto antes do atual êxodo de russos qualificados) (Volkov e Kolesnikov, 2021). O mesmo se passa com um investimento atrasado em tecnologia: por que razão deveria uma empresa gastar dinheiro em maquinaria cara quando pode acrescentar mais trabalhadores a baixo custo e remunerá-los ainda menos quando os tempos se tornam difíceis?

Em termos simples, pagar aos trabalhadores a baixo custo e não investir na educação e na tecnologia diminui a produtividade. A menos que os preços do petróleo e do gás permaneçam elevados indefinidamente, o crescimento económico futuro na Rússia dependerá quase certamente do aumento da produtividade laboral. Dado o problema demográfico da Rússia, nomeadamente o declínio da sua população em idade ativa, aumentar a produtividade da força de trabalho existente parece ser ainda mais correto. No entanto, em termos comparativos a produtividade da mão-de-obra russa é muito baixa. De acordo com a Organização para a Cooperação Económica e Desenvolvimento (OCDE, 2022), por cada hora trabalhada um trabalhador russo contribui com o equivalente a 23 dólares para o Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o valor nos Estados Unidos e na Alemanha é de 68 dólares. Com efeito, a produtividade da mão-de-obra russa é inferior à do Chile e à da Turquia, sendo, numa comparação de trinta e seis países da OCDE, apenas superior à do México e à da África do Sul (ver Figura 1).

Figura 1. Produtividade laboral russa

Fonte: OCDE (2022)

Os baixos salários também criam outros problemas sociais e económicos. Pressionam os trabalhadores a procurar emprego na economia informal, em empregos que são ainda mais precários, são tipicamente ainda menos produtivos e com remuneração que não contribui para receitas ou fundos da Segurança Social. Os russos têm lidado com salários persistentemente baixos, assumindo uma maior dívida dos consumidores. O baixo nível de procura interna na Rússia continua a ser um grande obstáculo ao crescimento económico (Inozemtsev, 2022).

Para além dos baixos salários, a produtividade da Rússia é também mantida baixa pelo grande número de grandes empresas herdadas da época soviética. Em 2014, 80% dos trabalhadores russos empregados na indústria transformadora estavam a trabalhar em grandes empresas (as que empregam 250 ou mais trabalhadores), de longe a proporção mais elevada dos trinta e seis países inquiridos pela OCDE (2017). Em quase todos esses outros países, a maioria dos trabalhadores da indústria transformadora estavam empregados em pequenas e médias empresas, que tendem a ser muito mais produtivos (ver Figura 2).

Figura 2. Russos empregados na indústria

Fonte: OCDE (2017)

Embora essas grandes fábricas tenham permanecido em funcionamento durante a década de 1990, quando os tempos eram maus, por outro lado elas também não fizeram grandes transformações durante o boom petrolífero dos anos 2000. Os trabalhadores continuaram empregados, mas, dados os baixos níveis de produtividade, o resultado global foi que a Rússia ficou presa numa "armadilha de rendimento médio".

Tudo isto era já verdade antes do impacto potencial sobre a economia russa de novas e importantes sanções económicas. Para além disso, a previsão de que as iniciativas globais para conter as alterações climáticas poderiam começar a diminuir a procura de petróleo e gás já na próxima década, parecia tornar ainda mais imperativa a realização de uma reforma económica (Gustafson, 2021). A ausência de reforma cria os seus próprios desafios uma vez que, para muitos russos, a estabilidade começou a parecer estagnação, com um impacto significativo no nível de vida. Escusado será dizer que tudo isto tem implicações sociais – e, em última análise, políticas.

Protesto social e económico

Como pode a Rússia escapar à "armadilha do rendimento médio"? As patologias geralmente associadas a essa armadilha são bem conhecidas pela Rússia: baixa produtividade, trabalho pouco qualificado e mal pago, desigualdade e informalidade. Os economistas defendem que existe um caminho para sair dessa armadilha: a chave é impulsionar o crescimento da produtividade através do investimento, especialmente no ensino superior e técnico e na investigação e desenvolvimento.

No entanto, como defendem Doner e Schneider (2016), o desafio central é "mais político do que económico" uma vez que a mudança de recursos implica inevitavelmente fazer de determinados grupos sociais vencedores e de outros perdedores. Escapar à armadilha, argumentam eles, requer uma "coligação de crescimento", comprometendo "especialmente as empresas e o trabalho, que são os principais grupos potenciais para uma coligação que poderia dar o grande salto" (Doner e Schneider, 2016: 4) (Doner e Schneider, 2016). Apesar de Doner e Schneider assumirem que o trabalho pode atuar como uma força política organizada, o que é simplesmente impossível na Rússia, a possibilidade de protesto desestabilizador pode também impedir um tão grande salto.

Os economistas liberais defendem um caminho diferente. Por exemplo, Kudrin e Gurvich (2015: 20-21) afirmam que para impulsionar o crescimento económico na Rússia será necessário "facilitar a passagem de fatores de produção de indústrias menos eficientes para indústrias mais eficientes, ou seja, intensificar o que Schumpeter denomina de processo de 'destruição criativa'". Por muito criativo que tal processo possa ser a longo prazo, a destruição dos locais de trabalho existentes pode muito bem levar a desemprego generalizado. Isso seria uma rutura importante com a prática russa, desde o período soviético. Os subsídios de desemprego na Rússia continuam a ser extremamente baixos e as instituições do mercado de trabalho são fracas, pelo que um aumento considerável do desemprego aumentaria quase inevitavelmente a probabilidade de protesto.

O mais preocupante para o Kremlin é que, de facto, existem poucos caminhos para sair do mal-estar económico da Rússia que não corram o risco de desencadear protestos sociais, com potencial para instabilidade política. A experiência russa das últimas duas décadas sugere que não é uma situação de privação económica por si só que cria o protesto económico, mas sim ações governamentais concretas que empurram a população para além do seu limiar de tolerância. Assim, é pouco provável que as sanções por si só conduzam a protestos, pois como a experiência noutros locais demonstrou as dificuldades que as sanções criam podem ser imputadas a terceiros (Mulder, 2022). Mas a culpa das medidas para recuperar a economia que afetam negativamente segmentos da população podem ser, e muitas vezes são, atribuídas aos líderes políticos.

Para compreender como os protestos sociais e económicos se espalharam na Rússia nos últimos anos, são úteis os conceitos de Charles Tilly (1978) de "netness" e "catness" para explicar a mobilização de protesto bem-sucedida. O conceito de Netness refere-se à capacidade dos protestos de se espalharem através de redes, tais como os sindicatos, os grupos de oposição ou outras formas de sociedade civil. Na Rússia, a Federação de Sindicatos Independentes da Rússia (FNPR), a maior federação sindical do país, continua a ser um "sindicato herdado” – um remanescente da época comunista e um aliado do Kremlin e do partido Rússia Unida, o partido apoiado pelo Kremlin e que domina o parlamento russo (Caraway, Cook e Crowley, 2015). Os sindicatos alternativos, embora combativos, são de pequena dimensão e têm sido cada vez mais marginalizados através medidas duras, tais como serem rotulados de "agentes estrangeiros". As greves são severamente restringidas por lei e quando ocorrem são frequentemente "greves espontâneas"1, ocorrendo sem apoio sindical.

Por sua vez, o conceito de Catness refere-se a indivíduos pertencentes a uma única categoria. Quando o governo toma uma decisão que tem um impacto adverso sobre todos os membros dessa categoria, indivíduos que de outro modo estariam isolados podem de repente encontrar-se unidos numa causa comum. Quando isso acontece, os protestos podem irromper espontaneamente, com pouca ligação à oposição desmoralizada e à sociedade civil perseguida da Rússia. Tais protestos estendem-se para além de um único local de trabalho e tendem a ser mais amplos do que os típicos protestos laborais.

Por exemplo, a tentativa do governo, em 2005, de substituir os transportes públicos gratuitos para pensionistas por prestações pecuniárias levaram os manifestantes a protestar, com pouca coordenação, em numerosas cidades por toda a Rússia, forçando o governo a recuar. O aumento da idade da pensão em 2018 levou a um surgimento semelhante de protestos, ainda que o impacto direto sobre a população fosse adiado por anos. Durante a crise económica global de 2009, o governo impôs um imposto sobre os veículos importados, a fim de preservar empregos na indústria automóvel nacional. Mas isso rapidamente levou a protestos no Extremo Oriente da Rússia, onde os carros japoneses usados eram populares (a polícia de choque vinda de Moscovo finalmente subjugou os protestos contra Putin). Um imposto sobre camiões de longo curso em 2015 levou a um protesto espontâneo de camionistas desde o Daguestão2 até Chita3. Os camionistas – vistos como parte dos principais apoiantes de Putin – inicialmente suplicaram "Presidente, ajude-nos!" No entanto, em pouco mais de um ano, apelaram a uma greve geral, exigiram ao governo que se demitisse e apresentaram o seu líder como candidato à presidência contra Putin (candidatura que foi severamente reprimida).

Enquanto os protestos com exigências políticas explícitas foram severamente reprimidos na Rússia, mesmo antes da invasão da Ucrânia, já os protestos baseados em queixas sociais e económicas foram tratados com mais clemência. No entanto, os exemplos acima demonstram como os protestos sociais e económicos podem tornar-se rapidamente politizados. Além disso, os protestos de grupos sociais como os reformados e os camionistas são extremamente problemáticos porque apontam para insatisfação dentro da presumível base de apoio de Putin.

Revoluções coloridas

Como observa o cientista político Ilya Matveev (2022), a Rússia está fortemente integrada na economia global, tendo a mais elevada percentagem de importações face ao PIB entre os países BRIC (ou seja, Índia, Rússia, China e Brasil)4. Isto levanta uma questão intrigante: por que razão o regime de Putin mudou subitamente em 2014 para uma maior ênfase dada às preocupações geopolíticas à custa da economia da Rússia? Uma resposta é claramente a preocupação da Rússia com a expansão da Nato para a Ucrânia, que a anexação da Crimeia e o fomento de revoltas armadas no Donbass pareciam ter evitado. No entanto, essas ações levaram a sanções ocidentais, que tiveram um impacto negativo na economia da Rússia. A recente invasão russa da Ucrânia vai muito mais longe neste caminho e, com o seu único foco na geopolítica, parece desafiar lógica económica.

Outra explicação para esta nova ênfase é a de que Putin há muito tempo está preocupado com a perspetiva de "revoluções coloridas" – revoltas populares no espaço pós-soviético que ele afirma serem incitadas pelos Estados Unidos – como por exemplo a revolução de Maidan de 2014 que fez o Presidente Yanukovych, apoiado pela Rússia, abandonar a Ucrânia. Putin e o Presidente Xi Jinping da China denunciaram as revoluções coloridas na sua recente declaração conjunta imediatamente antes da invasão russa da Ucrânia (TASS, 2022).

Putin sobreviveu aos protestos "Rússia sem Putin" de 2011-2012 – o mais próximo que a Rússia esteve de ter a sua própria revolução colorida – em parte alegando que mantinha um forte apoio dos "russos verdadeiros" no coração industrial e rural do país contra os manifestantes liberais e cosmopolitas em São Petersburgo e na Rússia. Enquanto esses protestos estavam em curso, Igor Kholmanskikh, um capataz na fábrica Uralvagonzavod em Nizhniy Tagil, dirigiu-se a Putin durante um dos programas anuais televisivos do presidente de conversa com a audiência5. De pé, no chão da fábrica, rodeado por companheiros trabalhadores e referindo-se aos protestos, Kholmanskikh disse a Putin que "se a milícia . . . não conseguir lidar com isso, então eu e os rapazes [muzhiki] estamos prontos para sair e defender a estabilidade". A administração de Putin usou consideravelmente este evento, tendo Putin nomeado mais tarde Kholmanskikh (apesar da sua falta de qualificações relevantes) como representante presidencial para a Região Federal dos Urais, um símbolo humano do apoio da classe trabalhadora a Putin (Bratersky, 2012).

Contudo, tais reivindicações de apoio da classe trabalhadora tornaram-se menos convincentes nos anos seguintes em condições de salários e padrões de vida em declínio. Por exemplo, em 2015 – apenas quatro anos após as suas observações – a fábrica Uralvagonzavod6 de Kholmanskikh estava à beira da bancarrota (Novaya Gazeta, 2016). No ano seguinte, os trabalhadores da fábrica enfrentaram cortes salariais e 3.000 foram despedidos e em 2019 houve relatos nas redes sociais de vários suicídios de trabalhadores da fábrica (Volin, 2019).

As condições económicas irão sem dúvida piorar com as sanções e o maior isolamento da Rússia face à economia global. Nessa situação, a probabilidade do protesto social irá certamente aumentar. No entanto, qualquer a transformação fundamental do sistema político russo exigiria a superação da profunda divisão social que Putin procurou explorar durante os protestos em 2011-2012: o fosso entre os profissionais qualificados e a população da classe trabalhadora, a qual tem ainda uma dimensão importante.

A título de exemplo, quando os camionistas começaram o protesto contra a imposição do imposto de circulação, parte da oposição liberal russa teve esperança de que o protesto se espalhasse. No entanto, o jornalista e comentador Arkady Babchenko (2018) respondeu afirmando, no blogue do líder da oposição (e ex-campeão mundial de xadrez) Garry Kasparov, que os liberais russos "não compreendem o seu próprio povo", acrescentando amargamente: "Quando é que finalmente compreenderão, meus queridos amigos liberais idealistas e atenciosos", que não haverá revolução, porque "o povo" só está preocupado com pequenos problemas localizados, como impostos sobre camionistas e lixeiras, mas apoia incondicionalmente Putin em tudo o resto, apoio que comparou ao apoio popular a Hitler na Alemanha nazi. Se os comentários de Babchenko podem parecer exagerados, outros proeminentes comentadores liberais referem-se repetidamente aos russos médios como "gado" passivo e que não pensa, como se os próprios russos da classe trabalhadora fossem os responsáveis pela manutenção de Putin poder (como analisado em Morris, 2021). Por sua vez, os trabalhadores que protestam, tais como os camionistas rapidamente radicalizados, veem frequentemente a oposição política com ceticismo e os seus líderes como paternalistas e pensando apenas nos seus interesses.

No entanto, as revoluções coloridas nos estados vizinhos ocorreram mais frequentemente quando as queixas pela situação económica se somaram a ações governamentais impopulares, permitindo a união de grupos díspares. Por exemplo, ao lado, na Bielorrússia, os cidadãos saíram à rua em grande número em 2017 para protestar contra um novo imposto sobre o "parasitismo" – essencialmente um imposto sobre o emprego clandestino – exigindo a demissão do Presidente Aleksandr Lukashenko. O imposto foi suprimido, mas as manifestações foram o presságio da revolta ainda maior no país em 2020. Embora os protestos se centrassem nessa altura em torno da reeleição fraudulenta de Lukashenko, como a economia do país estava a sofrer devido à redução dos subsídios da Rússia os trabalhadores – que o próprio Lukashenko considerava como a sua base de apoio – juntaram-se aos protestos em numerosas fábricas e locais de trabalho por todo o país. O próprio Lukashenko foi a uma fábrica para apelar aos trabalhadores, queixando-se de que os seus protestos eram para ele como uma "facada nas costas" (udar v spinu). Os trabalhadores responderam com vaias, apupos e assobios (Kolesnikov, 2020). Além disso, numa clara demonstração de que os trabalhadores procuravam quebrar os estereótipos da classe trabalhadora, alguns marcharam com uma grande faixa onde se lia: "Não somos ovelhas, não somos gado, não somos 'pessoas pequenas'. Somos os trabalhadores da Fábrica de Tratores de Minsk e não somos 20, somos 16.000" (Aris, 2020). Aí e noutros locais, os trabalhadores que marcharam para fora dos portões das fábricas vestidos com os seus fatos de trabalho foram aplaudidos pelos outros manifestantes.

Ainda mais recentemente, no Cazaquistão, a revolta em massa de janeiro de 2022 foi desencadeada por um aumento dos preços do gás. Começou em Zhanaozen, uma cidade sinónimo de luta laboral no país, desde 2011, quando o governo matou mais de uma dúzia de trabalhadores em greve (People and Nature, 2021; Kurmanov, 2022). Os protestos rapidamente se espalharam por todo o país.

Os líderes da Bielorrússia e do Cazaquistão mantiveram-se no poder, mas, sem dúvida, apenas devido ao apoio da Rússia (e, no caso do Cazaquistão, à intervenção direta da Rússia). A probabilidade de uma sublevação de massas semelhante ocorrer na Rússia num futuro próximo é indiscutivelmente bastante pequena. No entanto, as consequências potenciais para Putin e a sua equipa podem ser graves. Após a revolução de Maidan, o ex-presidente da Ucrânia, Yanukovych, fugiu para a Rússia apenas com o que conseguiu levar na sua mala e os despojos roubados que deixou para trás tornaram-se um "museu da corrupção" (Olsen, 2014). Caso uma revolta semelhante ocorra na Rússia, quem irá apoiar Putin? Para onde poderá ele fugir?

Conclusão

Para ser claro, há poucas probabilidades de uma revolta em massa a curto prazo na Rússia. As sanções e a consequente situação económica difícil, de privação, serão imputadas ao Ocidente, uma vez que os meios de comunicação social estatais russos retratam o país como uma fortaleza sitiada. As receitas do petróleo e do gás poderão permanecer elevadas durante um período prolongado. Mas, com o tempo – um tempo que pode ser medido em anos em vez de meses – o governo russo pode sentir-se compelido a empreender reformas duras para melhorar condições económicas de outro modo intoleráveis. Fazê-lo revelar-se-á perigoso, uma vez que tais reformas poderão levar à instabilidade social e a um desafio à legitimidade do governo.

Putin tem boas razões para recear uma revolução colorida russa. Para que isso aconteça, os profissionais liberais das grandes cidades precisariam de unir-se com a classe trabalhadora da indústria do centro da Rússia. Essa perspetiva poderá tornar-se realidade caso grandes segmentos da população venham a acreditar que o próprio Putin é a causa das suas privações e sofrimento.

Tendo em conta os horrores da invasão russa da Ucrânia muitos poderão congratular-se com resultado do tipo acima descrito. Ainda assim, a experiência de outros estados pós-soviéticos mostra os limites da tentativa de mudança profunda através de revoluções coloridas. Estas revoltas removeram com sucesso líderes corruptos dos cargos. Mas ao concentrarem-se unicamente no topo do poder político, mantiveram as estruturas oligárquicas. Estas enormes desigualdades no poder económico permitiram reiniciar os ciclos de exploração e corrupção – e acumulação juntamente com lutas por legitimação.


Referências

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Stephen Crowley é professor de Política no Oberlin College. O seu livro mais recente é Putin's Dilema Labor: Russian Politics between Stability and Stagnation (Cornell University Press, 2021). Tem escrito amplamente sobre o trabalho e a economia política da Rússia e de outros países pós-comunistas. Mais investigação pode ser encontrada em www.stephencrowley.org.

Artigo publicado no Global Labour Journal, Vol. 13 No. 2 (2022): Maio de 2022 (Special Issue), pp. 260-268. Traduzido para o Esquerda.net por Paulo Antunes Ferreira.
 


Notas:

1Nota de tradução: No original em inglês “wildcat strikes”, ou seja, greves iniciadas por um grupo de trabalhadores sem aprovação formal do sindicato ou em violação de um contrato.

2 Nota de tradução: A República do Daguestão é uma divisão federal da Rússia situada no sudoeste do país.

3 Nota de tradução: Chita é uma cidade na região de Zabaykalsky Krai, no sudeste da Rússia.

4 Nota do autor: O BRIC foi o grupo de países inicial; a África do Sul juntou-se em 2010 para o tornar BRICS (Wayback Machine, 2011).

5 Nota de tradução: No original “cal-in show”, um tipo de programa (de televisão ou rádio) de entrevista em que um apresentador e, por vezes, um ou mais convidados conversam com membros da audiência que ouvem ou veem o programa enquanto este está a ser transmitido e telefonam para lá em direto.

6 Nota de Tradução: A UralVagonZavod é uma empresa russa de construção de máquinas localizada em Nizhny Tagil. É um dos maiores complexos científicos e industriais da Rússia e o maior fabricante principal de tanques de guerra do mundo.

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