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O machismo e o marketing do cor-de-rosa

À semelhança do Pai Natal vestido de vermelho, que nasceu de uma campanha publicitária da mais famosa bebida made in USA, também a atribuição do rosa para elas e do azul para eles teve origem no maravilhoso e encantado mundo do marketing. Por Cláudia Elias
A atribuição do rosa para elas e do azul para eles teve origem no maravilhoso e encantado mundo do marketing [um pouco antes da Primeira Guerra Mundial]

Crescemos, quase tod@s, com os conceitos bem formatados. Sabemos bem que o azul é para eles e o rosa para elas, tal como é praticamente impensável oferecer uma boneca a um menino ou uma pista de carros a uma menina. Salvo escassos exemplos, como a existência do Pai Natal, muitos mitos continuam intactos ao longo da adolescência e, mais tarde, da fase adulta. E ainda que muit@s se questionem, não deixa de ser assim porque é assim. E, pelo sim, pelo não, é preferível não contrariar verdades socialmente impostas.

À semelhança do Pai Natal vestido de vermelho, que nasceu de uma campanha publicitária da mais famosa bebida made in USA, também a atribuição do rosa para elas e do azul para eles teve origem no maravilhoso e encantado mundo do marketing.

Não é pois um fator biológico, nem tão pouco um conceito ancestral. Foi no início do século XX que um catálogo de roupas norte-americano apontou o azul como mais delicado para elas e o rosa mais forte para eles, até que uma estratégia de marketing experimentou inverter a tendência. Vingou e tornou-se uma imposição social ao ponto de gerar preconceitos perante quem ouse contrariá-la. Como se a afinidade com alguma cor determinasse a personalidade ou mesmo a sexualidade.

‘O cor-de-rosa não é para homens. Será para alguns, não para todos’, ouvimos tantas vezes. E não apenas em peças de vestuário, já que por aí até vão surgindo alguns vestígios de mudança. A conexão é perversa e a separação deles e delas por cores é quase protocolar e assenta na perfeição a quem aprecia uma sociedade hierarquizada, com o sexo forte - diga-se masculino - no topo da pirâmide.

O mesmo se passa com os brinquedos. Estudos mostram que o gosto é adquirido socialmente, não é algo inato. Nada de estranho então: aos meninos há que ensinar a gostar de carros, futebol, jogos de luta e tudo o que lhes transmita competitividade, força, audácia e, porque não, liberdade; às meninas estão destinadas bonecas para brincar ao mundo da moda, eletrodomésticos em miniatura e bebés acompanhados de fraldas, biberões e até assessórios para o banho. Define-se assim o papel de cada um e cada uma na sociedade.

Num tempo dito moderno e emancipado, mas tão fortemente marcado (ainda) pelo machismo incutido, dissimulado (e tantas vezes assumido) importa, assim, continuar a fomentar a desigualdade e a definir muito bem os papéis de cada uma e um. E embora muito se fale por aí em mudança – sim, porque as mulheres já ocupam lugares de poder e chefia, os homens aprenderam a repartir as tarefas domésticas e os cuidados com @s filh@s e até se aprendeu um pouco sobre a diferença entre sexo e género! – a verdade é que a elas continua reservado, desde a nascença, o cor-de-rosa e as bonecas, ficando para eles o azul e os brinquedos mais desafiadores e aventureiros. Afinal, como disse Simone de Beauvoir, “O que é um adulto? Uma criança inchada pela idade.”

Por Cláudia Elias

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