EUA

A militarização orwelliana das cidades americanas por Trump

15 de outubro 2025 - 18:06

Trump quer que acreditemos quando diz que os EUA vivem uma “insurreição” e uma “invasão interna” que exige tropas para a reprimir. É claro que não há insurreição nem invasão. Usa uma ferramenta clássica dos totalitários, exigindo obediência absoluta, incluindo a rejeição total da realidade.

por

Amy Goodman e Denis Moynihan

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Protesto contra o ICE em Chicago.
Protesto contra o ICE em Chicago. Foto de CRISTOBAL HERRERA-ULASHKEVICH/EPA.

“Dois mais dois são cinco”. Que isto é falso seria evidente para a maioria dos alunos do primeiro ano de escolaridade. No entanto, é isso, na prática, que o presidente Donald Trump quer que acreditemos quando nos diz que os Estados Unidos estão no meio de uma “insurreição” e que existe uma “invasão a partir de dentro” que exige tropas dos EUA para a reprimir. É claro que não há insurreição nem invasão. Mas Trump está a utilizar uma ferramenta clássica dos totalitários, exigindo obediência absoluta, incluindo até a rejeição total da realidade. Está a provocar conflitos como pretexto para justificar o envio de tropas americanas para cidades controladas pelos democratas. Já enviou a Guarda Nacional e os Fuzileiros Navais para Los Angeles e agora enviou a Guarda Nacional para Chicago. Está a tentar enviá-los também para Portland, Oregon. Estes envios estão a ser contestados em tribunal, com um juiz federal – um nomeado por Trump, nada mais nada menos – a impedir temporariamente Trump de enviar tropas para o Oregon.

“Dois mais dois são cinco” é uma famosa frase do romance distópico “1984”, de George Orwell. Na história, a Inglaterra está sob um governo opressor que exige obediência total, enquanto é constantemente vigiada pelo “Big Brother”. Cidadãos como o protagonista do livro, Winston, são sujeitos a uma propaganda implacável para que acreditem nas mentiras do governo. Para aqueles que não acreditam, segue-se a prisão e a tortura.

“Não há emergência e não há justificação para ter guardas nacionais ou tropas aqui na cidade de Chicago ou na região de Chicagoland. Na verdade, o que temos assistido nas últimas semanas é a escalada da violência e do caos conduzida pelos agentes do ICE” [a agência para as migrações dos EUA], disse Ed Yohnka, diretor de comunicação da ACLU de Illinois, no programa de notícias do Democracy Now!.

Num exemplo flagrante, os agentes do ICE realizaram uma operação noturna num prédio inteiro de apartamentos na zona sul de Chicago, fazendo rapel a partir de um helicóptero Blackhawk até ao telhado, arrombando portas e arrastando os moradores para fora, de pijama. Amarraram as mãos de crianças atrás das costas.

Cristóbal Cavazos, um ativista de Chicago que organiza grupos de defesa comunitários, descreveu outros exemplos da violência da administração Trump ao Democracy Now!. “Estamos a assistir a um ataque histórico em Chicago, o assassinato de Silverio Villegas González. Estamos a assistir a isto no centro de detenção de Broadview, amigos meus que foram atacados com gás lacrimogéneo, pessoas a serem atiradas como panquecas, o ICE no Loop, o ICE a descer o rio Chicago em barcos. É realmente um ataque a Chicago. Estão a tentar quebrar o nosso espírito.”

Trump ameaçou ainda prender o presidente da Câmara de Chicago, Brandon Johnson, e o governador do Illinois, JB Pritzker, ambos democratas.

Cristóbal Cavazos continua: “Trump fez realmente uma guerra de propaganda… Ele está a tentar assustar-nos. Está a tentar criar demasiado medo na comunidade para nos impedir de reagir. Mas, sabem, francamente, não vai funcionar. Vamos sair às ruas”.

A administração Trump está a tentar agressivamente utilizar todos os artifícios legais possíveis para exercer um controlo autoritário, desde a ameaça de invocar a Lei da Insurreição, originalmente promulgada em 1792, até à Lei do Inimigo Estrangeiro de 1798. Mas Trump também está a utilizar propaganda, desde a conferência de imprensa diária na Casa Branca, onde a Secretária de Imprensa Karoline Leavitt divulga uma série de mentiras oficiais sobre o que o governo está a fazer, até à publicação online de vídeos do Departamento de Segurança Interna, editados de forma ousada para mostrar agentes do ICE e do CBP a perseguir e a prender pessoas.

Como escreveu George Orwell no”1984”, o seu último livro, publicado em 1949, “No final, o Partido anunciaria que dois mais dois são cinco, e terias de acreditar… A heresia das heresias era o senso comum”.

A obra de Orwell é o tema de um novo documentário, Orwell: 2+2=5, realizado pelo aclamado cineasta haitiano Raoul Peck e produzido pelo documentarista vencedor de um Óscar, Alex Gibney.

Em entrevista ao Democracy Now!, Gibney descreveu a relevância de George Orwell e de “1984” para a atual conjuntura dos Estados Unidos:

“Temos um presidente que… inventa coisas na hora, mas espera que sejam veneradas como verdade. Dois mais dois são cinco. É assim que nos impressiona com o seu poder, com o facto de nos poder fazer ir contra o nosso próprio senso comum. É esse o perigo contra o qual todos nos devemos levantar.”

O partido autoritário que governava em “1984”, de Orwell, tinha três slogans principais:

GUERRA É PAZ.

LIBERDADE É ESCRAVIDÃO.

IGNORÂNCIA É FORÇA.

No final de “1984”, Winston é brutalmente forçado a aceitar as mentiras. Este não tem de ser o nosso destino. Podemos e devemos resistir à tentativa de Trump de enviar tropas para as cidades americanas.


Texto publicado originalmente no Democracy Now.

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