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Maria Archer: a proibição de "Casa sem pão"

"Casa sem pão" (1957) foi o segundo livro de Maria Archer proibido pela PIDE e deu azo não apenas ao processo mais longo sobre qualquer uma das suas obras, mas também ao processo mais longo que tratamos neste dossier. Por Ana Bárbara Pedrosa.
Fotografia: ephemerajpp.com
Fotografia: ephemerajpp.com

A obra foi proibida aquando da sua publicação, em 1947, vindo a ser autorizada, embora com cortes, 12 anos depois. O processo foi complexo e o livro voltou várias vezes às mãos dos censores literários.

O livro, com personagens necrófilas, contou com pré-censura por parte da polícia política, que cortou as notícias que referiam a sua publicação (recorde-se que a censura jornalística era feita a priori). A autora viria também a afirmar que os seus livros haviam sido apreendidos sem que lhe tivesse sido dada qualquer justificação para isso e sem que tivesse tido qualquer resposta aos pedidos de explicação.

Contudo, Casa sem pão motivou muita correspondência dentro da PIDE, tendo tido vários pareceres, que iremos aqui listar, começando pelo relatório nº 1971 da censura, assinado por Rodrigues de Carvalho:

 

Acho perniciosa a divulgação deste livro sob o ponto de vista moral social.

Para justificar esta minha informação junto um relato desenvolvido, com as transcrições dos passos mais escabrosos, quanto ao baixo estilo e sentido descritivo, que se contem no romance Casa sem Pão, para apreciação superior.

 

Este relato, de dez páginas, indica que o livro foi considerado um “grave inconveniente moral”. Nele, podemos encontrar comentários de análise de carácter de personagem, como o seguinte:

 

EDUARDO – rapaz de sentimentos pouco escrupulosos, filho dum Chefe de Repartição (Belarmino) e de D. Aida, senhora muito pretenciosa

 

Para além disso, podemos ver as partes sublinhadas pelo censor literário (que são as que mais “feriram” a sua “sensibilidade”), que aqui listaremos:

 

E às vezes, no quarto, às ocultas, as faces muito coradas, sentindo o sangue a circular vivamente, Adriana chegava a bôca da boneca ao bico do seu pequeno seio. (p. 9)

mas agora, que já tinha dez anos, mandavam-na ganhar a vida. (p. 9)

 

De seguida, a PIDE lista as personagens – Clarisse, Adriana, Gustavo, Felismina, Rosa, Ismenia –, acrescentando que se fazem “estas referencias para depois se apreciarem as incoherencias de que foram vitimas, por virtude do tratamento que a auctora deste livro fez às suas qualidades morais.”

Sublinhando o excerto “Mas no fundo da mala, entre a roupa que é sua, esconde quatro lençois e meia duzia de toalhas turcas, que tira do roupeiro a acultas de Ismenia.”, o agente da PIDE faz ainda uma nota sobre os propósitos dos sublinhados:

 

Os sublinhados salientam os passos que mais feriram a nossa sensibilidade ao ler este livro.

Uma criada velha da casa, que neste livro foi sempre considerada como fazendo já parte da familia do Coronel, pela sua fidelidade e absoluta confiança, pelo carinho com que tratou a falecida mulher do coronel e pala amizade que consagrava aos seus filhos... remata a sua vida neste romance com ou roubo de roupas na casa que era todo o seu mundo!!!...

 

Nas páginas 60 e 61 do livro, são sublinhados os seguintes excertos: “está fazendo uma coisa vergonhosa”; “Casam-se para fazerem porcarias”; “e a sua cama range, range como se fôsse partir-se e agora as duas raparigas passam”. E continua-se:

 

para o pecado da carne, o horror das coisas deshonestas que se fazem nos quartos dos casados, porque tudo isso é preciso para que nasça um filho. (p. 62)

só de pensar que haverá um homem, ali, perto dela, roçando as calças pelas suas saias. (p. 108)

Na primeira noite, Eduardo, ao entrar lançara a mão ao seio da Ismenia, um pequeno seio de garota, mal apontado sob a blusa de chite (…) corpetos que acolumam o peito, e demorar-se, muito corada e fremente, ao alcance das mãos de Eduardo. (p. 137)

Mas Clarisse (…) dá-lhe a mão com abandono e Eduardo preme-lha com fôrça, metendo os dedos, até ao pulso, pelo punho da manga do seu vestido. A mão da rapariga estremece e palpita como o corpo de uma ave aprisionada. (p. 140)

que, a dois passos dele, se consome de desejo insatisfeito (p. 142)

O que ela precisa é de um homem; homem, é o que ela quere.... (p. 143)

e Eduardo aperta o corpo de Clarisse contra o corpo, chupa-lhe a boca num beijo voraz (p. 145)

A minha vontade é meter um livrete nas mãos desta desavergonhada (p. 160)

– Então? Apareceu a coisa?... – Veio-me esta manhã e até com bastantes dôres... (p. 161)

conseguira introduzir-se na Morgue, varias vezes, com acumplicidade de um dos empregados. O cumplice avisava-o para aparecer quando havia raparigas mortas à espera da autopsia (p. 163)

Mas com as mortas! (p. 163)

vem a saber, com certeza absoluta que o sátiro que se deleita, morbidamente, na contemplação das mortas, é o Eduardo (p. 163)

 

Na página 6 do relatório, a PIDE refere-se a esta parte, dizendo:

 

Este incidente, que denuncia um crime de necrofilia, fica depois completamente esquecido e impune. Neste romance nada mais se refere sobre o caso; e, o SÁTIRO que o coronel teve a certeza ser o Eduardo, que profanava os cadaveres de raparigas solteiras na Morgue, continua sendo o heroi do livro de Maria Archer, sem aqueles incomodos que a lei impõe, em casos desta natureza, e como seria de esperar.

Isto nos leva a crer que a narração desta noticia dum jornal foi introduzida neste livro sem qualquer interesse romanesco, e sòmente para que esta aberração sexual chegasse ao conhecimento daqueles leitores ou leitoras que, possivelmente, desconheciam esta perversão.

 

Acrescenta ainda:

 

Outra narração, tambem sem sequencia justificativa:

A auctora introduziu no seu livro a descrição dum passeio à mata de Sintra, não para evidenciar o seu estilo descritivo sobre a paisagem luxuriante daquela região, mas sim para salientar uma sena nojenta de tardia sensualidade entre um casal de velhos, – Belarmino e D. Aida – pais de Eduardo, que com este e a sua nora Adriana foram de tipoia, de Pedrouços a Sintra, em passeio dominical

 

A partir daqui, continua a listar o que fora sublinhado:

 

– Que queres tu!... Fogachos da mocidade... O teu sôgro teve a sua ideia e é que foi ali mesmo, atrás duma arvore... Em se apanhando no campo, pronto, torna-se rapaz...

Visionava o par de velhos na atitude animal, roupas descompostas, ritus lubrido/, na face, impudicos e desonetos. E o risco de serem vistos...

…...............

Que porcaria, que grande porcaria... (p. 174)

– Não mexa nas coisas...

Ele encostara a cabeça a uma arvore e puzera-se a vomitar. (p. 176)

 

A este excerto, faz o seguinte comentário:

 

Este mimo de literatura parece que foi inserto neste livro sòmente para descrição desta cena porca e não para ser apresentada uma descrição dum passeio à mata de Sintra, visto que nenhuma outra ocorrencia deste passeio é relatada.

 

E comenta ainda o livro no seu todo:

 

Há no texto deste livro expressões que pouco dignificam a auctôra, na sua qualidade de senhora, pela forma cruamente realista como as refere e pelos motivos como os apresenta.

 

Os sublinhados continuam:

 

E agradava-lhe essa ideia de beijar e ser beijada sem descanso... (p. 184)

Adriana tem fome de beijos e continua com a mesma sensação de insaciedade que sofrera em solteira. E quanto a... Nos primeiros dias do casamento tudo aquilo fôra doloroso, porque o Eduardo insistia, implacavel, exigente... Mas depois de a ter desflorado, extinguira-se completamente o seu ardor de amante. (Ap. 185)

Todo um mês, às vezes mais que um mês, sem que Eduardo se lembre como marido... E as suas amigas que lhe falam do amor realizado dia a dia, e que se gabam de excessos, de loucuras... (p. 186)

Mas o Eduardo não queria filhos, tomava os cuidados precisos... «A burla do casamento» dizia a médica num tom desdenhoso, tão reprovador, que Adriana corava pelo marido. (p. 189)

 

Na página 201, chama-se a atenção para o excerto “tambem dizem que faz bem... resolve estas coisas...”, havendo ainda um comentário a lápis, no relatório: “Nestas mezinhas deve a autora ser perita...”

Finalmente, é transcrito um diálogo da página 314 em diante, fazendo o agente da PIDE o seguinte comentário:

 

Pare rematar esta série de transcrições porcas do livro de Maria Archer, terminamos o nosso relato com o dialogo que segue, entre mulher e marido, Adriana e Eduardo, os herois deste romance; nesta altura já atingiram os 60 anos e Eduardo dá-se ao luxo de ter por amante uma rapariga de 20 anos com quem todos os domingos vai passear para o campo e para as praias, comendo ambos o farnel que Adriana lhe arranjava, apesar das dificuldades económicas do lar, que, na época em que estes factos ocorrem já em casa se recorria aos emprestimos sobre penhores e já nada havia para penhorar, motivo do titulo deste romance - “CASA SEM PÃO”.

 

O comentário final considera que este livro contém “baixa literatura”, razão pela qual o relatório teve uma grande extensão, de forma a facilitar quem superiormente tivesse de avaliar aquele parecer:

 

Eis o que de baixa literatura se contêm no livro de Maria Archer. Demos a este relato um desenvolvimento maior do que o que talvez merecesse, precisamente, para facilidade de consulta a quem tenha de superiormente sancionar ou rejeitar o nosso parecer.

Este, com não podia deixar de ser, em face de texto imoral do livro, é de aberta oposição à divulgação do romance “CASA SEM PÃO” que melhor lhe ficaria o titulo - “Livro sem moral” de Maria Archer.

À Exmª. Direcção se submete este relatorio para que se digne determinar o que tiver por mais conveniente.

A BEM DA MORAL SOCIAL

Lisboa, 9 de Fevereiro de 1947.

O Adjunto

(a) M.Rodrigues Carvalho

 

Três anos mais tarde, é assinada nova correspondência. Havia sido feita uma procura por Casa sem pão nas livrarias, tendo sido apreendidos alguns exemplares:

 

Em referência ao assunto de que trata o ofício confidencial dêsses Serviços de Censura, nº 1184, de 16 de Agosto findo, tenho a honra de informar V. Exª de que na “Livraria Livrolândia”, que se encontra instalada presentemente na rua dos Poiais de S. Bento, nº 119, desta cidade, apenas foi encontrado um exemplar do livro intitulado “CASA SEM PÃO”; da autoria de Maria Archer, tendo esta Polícia procedido à sua apreensão, de harmonia com o solicitado no ofício nº 137/L, de 10 de Fevereiro de 1947, também desses Serviços de Censura.

Como o exmplar [sic] do livro em causa, que junto remeto, foi comprado, segundo declarou o proprietário da citada livraria, na última Feira do Livro, levada a efeito na cidade do Porto, conjuntamente com mais dois exemplares, que na altura da diligência que efectuamos já tinham sido vendidos, solicito a V. Exª a fineza de esclarecer esta Directoria se ao aludido livro foi autorizado, posteriormente à comunicação feita naquele ofício nº 137/L, a sua circulação no país, o que antecipadamente muito agradeço.

A Bem da Nação

Lisboa, Polícia Internacional e de Defesa do Estado, em 5 de Setembro de 1950.

 

No dia seguinte, o sub-director da PIDE responde, reafirmando a proibição da circulação da obra em território português:

 

O Exmº. Director agradecendo a V.Exª. a diligencia feita relativamente ao livro “CASA SEM PÃO”, constante do ofício dessa Policia nº. 2162-S.R., de 5 do corrente, encarrega-me de informar de que, [sic] o referido livro continua proibido de circular no País.

Com os protestos da minha mais elevada consideração.

A Bem da Nação

Lisboa, 6 de Setembro de 1950

O SUB-DIRECTOR

 

Na caixa 423 do SNI, Censura, da Torre do Tombo, podemos ainda encontrar o relatório de 1952, em que é dito que, com alguns cortes, a obra pode circular, ainda que se considere que se trata de “um mau livro, ou obra má”. Esses cortes seriam uns que Maria Archer tinha já feito, para além de uns que o censor da PIDE indica:

 

“Casa sem pão” é, fundamental ou intrinsecamente, um mau livro, uma obra má --- de cuja leitura póde advir o menor proveito moral ou espiritual, antes pelo contrário.

Não se trata, porém, de julgar ou apreciar o livro, mas tão sómente de observar se os córtes feitos pela autora, dentro das normas restritivas que lhe foram apontadas, satisfaz, no minimo, a esse critério restritivo.

Posto o problema assim, julgo serem aceitáveis esses córtes (feitos a vermelho) desde que sejam feitos ainda e tambem os córtes suplementares que indico (a lápis verde) a pag. 161 – 174 – 175- 176 – 189 – 222 – 291 – 302 – 316 – 319 – e 378.

Estes córtes fazem-se para dar sentido a várias passagens e trechos (que, sem isso, ficariam dúbios ou desvirtuados) e para dar satisfação à ideia e vizão expressas pelo censor nas suas marcações --- as quais, sem tais córtes, ficariam incompletamente satisfeitas ou seriam iludidas.

Em 10 de Novembro – 1952

 

Segundo Cândido de Azevedo1, em 1969, para se proceder à reedição da obra, foi feito um novo relatório. Este, segundo Bordeira2, teria sido assinado pelo leitor Capitão José Brandão Pereira de Mello e autorizado por alguém não identificado:

Trata-se de um romance social e naturalista, cuja acção decorre em Pedrouços e Lisboa, entre os anos de 1900 e 1946, que tem como figuração os membros de duas famílias burguesas, ligadas por um casamento.

O romance foi proibido por estes Serviços em 11 de Fevereiro de 1947, com a taxa de imoral.

Mas tratando-se, segundo creio, de uma reedição que a autora pretende fazer, julgo que poderá ser levantada a interdição e autorizada a reedição do romance – com alguns “cortes” ou eliminações, que vão marcadas a lápis vermelho, a páginas 185, 315 e 316 (esta última, ao que parece, já no espírito ou intenções da Autora, uma vez que ela própria já a apontara no livro).

Julgo pois que, com a condição expressa dos “cortes” apontados, possa ser autorizada a reedição do romance em causa. (Azevedo, 1997, p. 85/86)

 O censor da PIDE considera este romance “social” e “naturalista”, embora não seja claro o que se entende por isto. Refere-se à proibição anterior, sugerindo a publicação, já que ela já havia acontecido em 1952. Para além disso, sugere novos cortes.

Como se vê, o que é atacado no livro é a sua imoralidade. São listadas as cenas que descrevem actos sexuais e é dado um ênfase particular ao que se refere a necrofilia, que os censores literários julgam não ter qualquer papel relevante na narrativa, ressalvando ainda que o episódio fica “completamente esquecido e impune”, o que não será de todo de somenos: o censor literário afirma crer que este episódio fora introduzido na narrativa somente para publicitar o que considera uma aberração sexual. De resto, é de notar que este episódio não tem, de facto, qualquer papel na narrativa.

O mesmo acontece com o referido passeio à mata de Sintra, que, para o censor literário, devia servir para “evidenciar” o “estilo descritivo” da autora sobre a paisagem. Não o fazendo, condena-se que Archer tenha, uma vez mais, feito descrições de relações eróticas, voltando à mesma consideração: a cena parece ser apenas um pretexto para que essas descrições existam, já que, no seu decorrer, não há ênfase noutro assunto.

Considera-se, por isto, que o livro tem partes indignas de uma mulher, “expressões que pouco dignificam a auctôra, na sua qualidade de senhora”, o que evidencia novamente que havia temas de um sexo e de outro, assuntos proibidos para as mulheres, e que a ideia de moralidade consistia na distanciação de qualquer contacto erótico, mesmo verbal.

Para saber mais sobre as obras das autoras portuguesas censuradas pela PIDE, clique aqui.

1 Azevedo, Cândido de (1997). Mutiladas e Proibidas. Para a história da censura literária em Portugal nos tempos do Estado Novo. Porto: Caminho.

2 Bordeira, Guilherme (2014). Acerca de Maria Archer. Lisboa: Edições Vieira da Silva.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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