Está aqui

Luis Fernando Veríssimo e as mentiras sem hormonas

Vai dizer-se que já está ultrapassado. É que é fácil olhar para os títulos e julgar que já estão ultrapassados. Caricatura, gaveta? Sexismo, visão reaccionária, a cada genital o seu impulso, a cada hormona a sua condição social? Mentiras azuis para um lado, enganos cor-de-rosa para o outro? Até na falta à verdade o ser humano se divide entre testosterona e estrogénio?

 Os títulos podem iludir; talvez sirvam, afinal, mais para isso do que como complemento ao texto. O facto é que Luis Fernando Veríssimo foi objectivo na tarefa de compilar textos humorísticos que publicou em 2000 e 2015 pela Editora Objetiva, Brasil: As Mentiras Que os Homens Contam (2000) e As Mentiras Que as Mulheres Contam, respectivamente. Os dois livros foram publicados em Portugal em 2016 pela editora D. Quixote.

O que parece, se atendermos só ao título, uma mera frivolidade sexista, uma tentativa inócua de dividir o mundo entre estrogénio e testosterona, encontra a sua sublimação na formulação literária e humorística do autor. Poderá pensar-se que se refere a mentiras entre os sexos, que opta pela caricatura ou pelo automatismo de acções, mas Veríssimo faz outra coisa. Não apenas se adentra nas ambiguidades como mostra a mentira como forma de manter a paz. Há uma mulher que se engana a si mesma, com plástica atrás de plástica; outra que afirma ser mais velha só para que lhe elogiem o estado de boa conservação. O humor de Veríssimo é uma lufada de ar fresco e ele não se importa de ir ao absurdo ou às últimas consequências. Que dizer de “A mentira”, conto em que as personagens acabam a fingir que um homem adoece e é, no espaço de minutos, internado numa clínica que será barrada e cujas ruas circundantes serão bloqueadas só porque querem fugir de um jantar planeado? “Estão desconfiados de que é um vírus africano que...”

Ou seja, Veríssimo ultrapassa largamente a visão sexual sobre cada um dos sexos – pese embora o que parece um pleonasmo mas que é, afinal, apenas uma imprudente e pouco engenhosa aliteração da autora desta crítica –, se pensarmos a mulher enquanto figura erótica feminina, o homem enquanto figura erótica masculina, e vai mais longe beber ironia a outros domínios. Começa, assim, pela mentira mais antiga que ouvimos de uma mulher (ou de um homem que cumpra o seu papel de pai): “Olha, um aviãozinho!” Desta forma, ao invés de pensar qual é a relação de um sexo ou de outro com a mentira, Veríssimo faz, através do humor, uma proposta de retrato panorâmico sobre o papel da mentira no quotidiano.

Mente-se, afinal, porque é necessário, porque a verdade não dá jeito, porque a verdade não afaga o ego, porque se quer proteger o outro, porque se quer proteger o próprio. Mente-se, enfim, pela paz social e pela interior, porque os logros podem amansar a auto-estima e há que colocar os primeiros ao serviço da segunda. Tal como no caso da mulher que fingia ser mais velha para que a elogiassem por parecer mais nova – e já que o leitor vai acompanhando a farsa e a forma como esta é delineada e desenvolvida... –, é precisamente o caminho da ficcionalização que é ridicularizado e é a ficção, portanto, que se torna ridícula. As personagens que assumem a mentira como a verdade acabam por assumir o que será uma versão mais conveniente que alguém dá de si mesmo.

Assim, os livros acabam por parecer ter títulos enganadores, já que o que trazem a público está muito para lá da dualidade que parecem querer apresentar. E com essa estratégia nascem desculpas, mentiras sexuais, gente que finge a memória, gente que finge leituras, mal-entendidos que acabam em tragédias, entre drama, humor e descarrilamento. É no que dá ficcionalizar o eu e maquilhá-lo.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Ciência Humanas e investigadora em Literatura. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
Termos relacionados Cultura
(...)