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"Laços", Domenico Starnone: um romance sem pontas por atar

O que comove e choca neste romance será, por isso, a perfeição cirúrgica com que o autor confronta os leitores com a honestidade, mostrando como, não raras vezes, é a ausência dela a única forma de alicerçar relações e fazê-las durar.

Em 2014, Domenico Starnone lançou o romance “Laços”. Em menos de 150 páginas, o autor italiano conseguiu esventrar as relações de uma família de quatro: os pais, Vanda e Aldo, e os filhos, Sandro e Anna. O romance foi publicado em Portugal em Junho de 2018, pela Alfaguara.

Vanda e Aldo estão casados há mais de 50 anos. O casamento, aparentemente tranquilo, quase banal, esteve sujeito a tensões e traições, raivas atiradas e disfarçadas, sapos engolidos, vontades ignoradas, humilhações várias. Um dia, voltando de férias, já velhos, encontram o apartamento revirado. Para mais, falta-lhes o gato. Haverá que chamar a polícia, o raptor pedirá resgate?

Ao reorganizar os papéis, Aldo vê-se forçado a encarar o passado que parecia repousar ileso. A paz armada em que a família vive inclui segredos de todas as partes, mal-entendidos também, e por isso este é um romance sobre perspectivas. Esventrar as relações familiares como Starnone o fez só seria possível assim, mergulhando nas constituições psicológicas das personagens e encarando sem complacência o que podem esconder. Encarar a literatura também como terreno onde se espraiam perspectivas, anulando-se a verdade única ou versões oficiais e limpas, será o seu grande trunfo, já que é o que lhe permite uma literatura honesta. O que comove e choca neste romance será, por isso, a perfeição cirúrgica com que o autor confronta os leitores com a honestidade, mostrando como, não raras vezes, é a ausência dela a única forma de alicerçar relações e fazê-las durar.

Voltando atrás, Aldo encontra as cartas que Vanda lhe escreveu quando ele, apaixonado por outra mulher, saiu de casa. A partir daí, vem tudo em catadupa: a esposa traída, o abandono enquanto familiar e mulher, os filhos deixados para trás, a infidelidade, a paixão a agir como catarse e cataclismo. Na narrativa, onde cada detalhe mostra que a vida não é feita ao acaso, desde o nome do gato do casal à forma como pai e filho atam os sapatos, não parecem ficar pontas soltas.

Como o primeiro relato é o dela, é, durante uma grande parte da leitura - que tem na primeira versão de Vanda o seu pontapé de partida -, a única versão que o leitor tem, e portanto parecer-lhe-á a versão oficial. Volvem-se umas páginas e chegam as outras versões, e tudo o que parece um facto é afinal um imbróglio de mal-entendidos. A narrativa continua a ser desfiada e esventrada e, quando a sua anatomia é apresentada no seu todo, conclui-se pela construção sublime. Como se não bastasse, a armadilha que o autor aponta é aquela em que faz cair o benévolo leitor.

O que aparenta ser ileso é, afinal, um conjunto de silêncios. Manter edifícios erguidos passa por calar, e para que não caiam convém que haja mais silêncios do que a coragem da verdade.

Fica ainda latente a forma como os anos parecem vorazes, voláteis e efémeros, como a chama da paixão, sonegando tudo à volta, pode ainda sonegar uma ideia de futuro. Não apenas a família que fica, os filhos que se transformam em desconhecidos, a mulher que leva a facada na auto-estima, mas ainda o que poderá acontecer quando/se essa paixão acabar. O que fazer com os destroços? Dará para retornar ao ponto de partida? Como se limpa o que fica poluído?

Domenico Starnone mostra, em Laços, um olhar incisivo e cirúrgico sobre as aparências. Provocante, o romance atordoa e mostra a literatura em todo o seu esplendor de elemento catártico e de expansão humana.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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