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José Dias Coelho: uma vida ceifada antes do tempo

José Dias Coelho viveu uma vida curta, mas marcada por dois traços que fundamentam o seu legado até hoje: um enorme e raro talento artístico e um grande sentimento de revolta contra a injustiça e a opressão. Hoje, 59 anos passados desde a sua morte, relembramos o seu papel no derrubamento do fascismo, tarefa que levou até ao final dos seus dias. Por Matilde Marques.
José Dias Coelho. Foto do site do Museu do Aljube.

No dia 19 de dezembro de 1961, há precisamente 59 anos, José Dias Coelho, 38 anos, artista, escultor, antifascista e comunista, seguia tranquilamente pela rua dos Lusíadas, em Alcântara, quando cinco agentes da PIDE em sua perseguição cercaram-no e dispararam dois tiros sobre si: o primeiro, à queima-roupa, atingiu-o no peito, deitando-o por terra; o segundo foi disparado sobre o seu corpo já no chão. Os assassinos meteram-no no carro e partiram, e só duas horas depois entregaram o seu corpo, já moribundo, no Hospital da CUF.

O ano de 1961 foi um ano de grandes dificuldades para o regime fascista. Variados acontecimentos provavam um aumento das forças revolucionárias contra as políticas ditatoriais salazaristas. Muitos portugueses começavam a ganhar consciência sobre os movimentos revolucionários, as manifestações contra a burla eleitoral aumentavam e as tensões nas colónias cresciam de tal forma que o início da queda do Império Colonial tornava-se cada vez mais visível. Em gesto de contra ataque, Salazar, ameaçado pelo crescimento do poder do povo, aumenta o poder de repressão do aparelho da PIDE, intensificando-se assim o aprisionamento, a perseguição e o assassinato de vários camaradas. José Dias Coelho foi um deles.

O artista revolucionário

José Dias Coelho nasce no dia 19 de junho de 1923, em Pinhel, perto da Guarda, no seio de uma grande família, sendo o quinto de nove irmãos e irmãs. Dotado de um talento raro e de uma sensibilidade de artista pouco usual, larga as suas origens nortenhas em 1942 e muda-se para a capital para estudar na Escola de Belas de Artes de Lisboa. Ingressa primeiro no curso de Arquitetura, do qual desiste rapidamente para cursar na sua verdadeira paixão, a Escultura.

Desde muito jovem, Dias Coelho assume um lugar importante na luta antifascista e contra o regime salazarista, juntando-se à Frente Académica Antifascista e, mais tarde, em 1946, ao MUD Juvenil. Junta-se ao Partido Comunista Português em 1947, Partido ao qual dedicou a sua vida. Em 1952 demonstra publicamente o seu apoio à candidatura do general Norton de Matos, o que resulta na sua detenção.

Em 1955 é forçado a entrar na clandestinidade. Dias Coelho exerceu sempre importantes funções em apoio ao seu Partido, sacrificando a coerência da sua carreira artística, que à altura começava a ganhar maior reconhecimento, em detrimento da sua luta pela libertação do povo português. À altura da sua morte, servia numa oficina de falsificação de documentos para dar cobertura às atividades dos militantes clandestinos, na Rua da Creche, perto de onde foi brutalmente assassinado pelas forças da PIDE, e rua esta que agora lhe rouba o nome em sua homenagem.

A sua morte prematura deixou por interrompido o seu legado como artista, como revolucionário, como pai, como marido. Dias Coelho foi brutalmente roubado da sua vida pelo ideal que defendia, sendo privado de alguma vez poder ter a hipótese de presenciar o Portugal pelo que lutou. No entanto, sacrifício nunca foi uma palavra que constou no seu vocabulário.

O legado

José Dias Coelho foi uma das vítimas do fascismo, como outros tantos que viram as suas vidas ceifadas injustamente e antes da hora pelas suas intenções de libertar Portugal. Ele, “que tanto adorava a cidade e o ar livre, caiu em plena rua, assassinado”1. Num dia em que “a morte saiu à rua”, como se intitula a música que Zeca Afonso lhe dedica, Dias Coelho viu então o final dos seus dias de luta. No entanto, como Zeca canta, “Na curva da estrada há covas feitas no chão/E em todas florirão rosas de uma nação.” A sua vida poderá ter acabado no dia 19 de Dezembro de 1961, mas a sua luta permanece até hoje. Morreu cedo, mas não em vão.

Recordamos hoje o artista e o homem, que deu a sua vida, consciente dos perigos que enfrentava e certo de que a sua luta conduziria a um Portugal socialista e democrático. Que a sua coragem não passe nunca em branco nas nossas memórias, e que tenhamos sempre presente o espírito dos que tanto lutaram pela nossa democracia, num momento em que necessitamos de avidamente sobressaltar a necessidade de se cumprir Abril. Lembremos sempre Dias Coelho e honremos sempre a sua luta.

* Matilde Marques, estudante da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa.


Fontes:

https://www.dorl.pcp.pt/index.php/histria-do-pcp-menumarxismoleninismo-103/85-momentos-da-historia-do-pcp/56-44-assassinato-de-jos-dias-coelho

https://media.rtp.pt/treze/mortes/jose-dias-coelho/

 

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