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Japão: rumo ao holocausto nuclear?

Há uma grande possibilidade de existir uma brecha no núcleo do reactor e por ela estar a escapar radioactividade. Uma fuga de grandes proporções pode afectar, em níveis diferenciados, milhões de pessoas.
Fumo negro saiu do reactor 3 de Fukushima. Foto de daveeza, FlickR

Já se passaram mais de duas semanas desde que o terremoto seguido de tsunami provocou o maior acidente da história japonesa. Foram registadas mais de 10 mil mortes e 17 mil continuam desaparecidos. Esse número deve ser superior, pois há a possibilidade de que famílias inteiras tenham sido dragadas pela fúria do tsunami e jamais serão encontrados. Se nenhum familiar registar as mortes, essas vítimas ainda serão consideradas vivas por um período superior aos cem anos de idade, como ocorre, actualmente, nos arquivos japoneses.

O desastre nuclear resultante da tragédia na central nuclear Fukushima 1, que possuía seis reactores em funcionamento, passou até agora por diversas fases. Houve explosões, saída de fumaça, fuga radioactiva e uma actividade desesperada para tentar controlar o desastre nuclear que já é um dos maiores da história e pode, ainda, tornar-se o maior. Temos presenciado a incapacidade da Tokyo Electricidade, operadora da central, e também do governo japonês de controlar a situação e dar uma solução definitiva que é o que o mundo inteiro está à espera, não apenas os japoneses.

Longe disso, com as recentes contaminações dos trabalhadores que tentavam amenizar a situação, esta semana, evidenciou-se que, segundo a própria operadora, há uma grande possibilidade de que exista uma brecha no núcleo do reactor e por ela esteja a escapar radioactividade. Já não estamos a falar de radioactividade “inofensiva”, mas de vários trabalhadores que receberam doses excessivas de radioactividade e cujas vidas já foram afectadas, sem saber quais as consequências dessas irresponsabilidades. Já saímos de uma situação de incompetência e irresponsabilidade para uma situação criminosa. A esses trabalhadores foi-lhes assegurado que não havia risco de contaminação que pusesse em perigo a sua saúde, e aí vemos o resultado. Heróis? Criminosamente enganados?

As fugas ocorridas, as quais, a princípio, se alardeava que não eram prejudiciais à saúde e se situavam no nível do tolerável passaram a contaminar, até onde sabemos, o leite da província de Fukushima. Verduras, como os espinafres, nas províncias de Ibaraki, Tochigi, Gunma e Chiba. E, por último, a contaminação da água, inclusive, de Tóquio. Segundo o próprio governo, a contaminação pode afectar bebés de menos de 1 ano. Já saímos de uma situação de contaminação “inofensiva” para uma concretamente prejudicial a crianças de menos de 1 ano. O governo aconselha que não se lhes dê dessa água.

A contaminação “inofensiva”, efectivamente, tem voado distâncias superiores até a 300 km de Fukushima.

Ao contrário do se dizia até então, hoje, existe, segundo a operadora e o governo, uma grande possibilidade de fuga nuclear.

A Tokyo Electricidade pode garantir que novas fugas ocorram nos limites “inofensivos”? Não, não pode garantir e o governo tampouco. A questão é que se uma grande fuga nuclear prejudicial à saúde ocorrer, não sabemos, e é melhor nem querer imaginar, as proporções que pode tomar. Uma fuga de grandes proporções pode afectar, em níveis diferenciados, milhões de pessoas. Na área de Fukushima e Kanto, que engloba varias províncias e a capital Tóquio, vivem cerca de 50 milhões de pessoas. O governo, prensado contra a parede, não pode evacuar milhões de pessoas neste momento, nem sequer alguns milhares, sem criar um gigantesco pânico. Por esse motivo, permanece calado com relação à segurança da população. A experiência dos últimos dias, a contaminação verificada, demonstra que se quiser ficar isento de uma contaminação “inofensiva” ou prejudicial, o sensato, por vias das dúvidas, é proteger-se numa área cuja distância seja superior aos 300 km da Fukushima 1. A política do primeiro-ministro, Naoto Kan, de priorizar os interesses económicos da burguesia imperialista japonesa, coloca-se acima de priorizar a segurança da população. Esperemos que não seja assim, mas existe, sim, a possibilidade de um holocausto nuclear. Um de tamanhas proporções que nos faria, quem sabe, ter saudades de Hitler.

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