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James Baldwin e as posições construídas

O romance de estreia de James Baldwin chegou a Portugal em 2019, 65 anos depois de ter sido escrito. Esta é considerada a sua obra mais importante e surgiu após a publicação, também pela Alfaguara, de “Se esta rua falasse”. Por Ana Bárbara Pedrosa.

Com inspiração na juventude do próprio autor, o livro narra a vida de John Grimes, rapaz de 14 anos que procura encontrar-se numa comunidade segregada. O local: Harlem, bairro de Nova Iorque.

É difícil não empatizar com este John Grimes que quer fugir ao fanatismo que lhe está reservado. A família e a comunidade esperam que venha a seguir os passos do padrasto, ministro da Igreja Pentecostal. Na véspera de um sermão na montanha, entende finalmente no que está acantonado e quer fugir ao acantonamento.

A primeira tacada está logo na segunda página. Grimes, chegado à greja, vê o que acredita ser o seu destino inexorável: “Aqueles homens e aquelas mulheres com quem se cruzavam aos domingos de manhã tinham passado a noite em bares ou em bordéis, ou nas ruas, ou em terraços ou em vãos de escadas.” (p. 14).

John foi levado a acreditar que aquela igreja, que não era a maior do Harlem, era a melhor e a mais sagrada. Era lá que o pai pregava nos domingos de Pentecostes, presidia à cerimónia e ungia os doentes. A relação com este pai, inicialmente apresentada como o exemplo a seguir, por imposição familiar e social, não será de somenos na narrativa, já que, volta e meia, “a ira quotidiana paterna transformava-se numa ira profética” (p. 17).

Desde o início, o dilema aparece e acalenta-se ao longo da história, com a rejeição daquele destino por Grimes, e o pasmo perante “o longo sofrimento acerca do qual ele lera na Bíblia e achava tão difícil de imaginar” (p. 17).

Assim como assim, o destino trilhado é um destino imposto, e Grimes verá que a segregação estimula a segregação e que o seu futuro poderá não estar nas suas mãos.

Se é certo que a história é inspirada na de Balwin, não poderá reduzir-se a constitução da personagem ao acantonamento de um ego. Pelo contrário, a vida travada mostra de que forma a história individual se extravasa, abarcando o destino colectivo de um povo segregado. O interesse social, contudo, e passe a ironia, não segrega a dimensão literária da obra. Se se põe no cerne da narrativa o que é socialmente marginal e vive na condição de outro, permite-se que seja vista a condição de segregação como centro de uma vida, e é como um sol que bate em cheio: desde quando dura a bomba atómica em que vivem os marginalizados? A vida de Baldwin terá muito desta condição, na medida em que, em 1948, fugiu para França, tentando escapar do racismo e da homofobia dos EUA.

O autor explora ainda a secundarização de negros ao permitir-se legalmente torturas por parte de brancos, de uma condição de subalternidade e desconfiança que sobreviveu para além da escravatura, de negros mortos na cadeira eléctrica por crimes cometidos por outros e de personagens moldadas à categoria de negras construída durante séculos numa posição subalterna. No meio disto, é a própria personagem principal que refere a leitura como arma de injecção de “confiança para entrar em qualquer edifício do mundo” (p. 42). No fim da leitura da obra, ficam as personagens fortes, a narrativa ambiciosa que apresenta um estado e o que levou a esse estado, numa teia com alcance no passado como justificação de um status quo.

Sobre o/a autor(a)

Doutorada em Literatura, investigadora, editora e linguista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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