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Iémen em catástrofe alimentar, sauditas com menos dinheiro para armas

São duas consequências da crise num país devastado pela guerra. Por um lado, a baixa do preço do petróleo ameaça as finanças sauditas. Por outro, a covid-19 poderá aumentar ainda mais a fome no Iémen.
Um homem usa uma máscara de proteção em Sanaa, Iémen. Foto de YAHYA ARHAB/EPA/Lusa.
Um homem usa uma máscara de proteção em Sanaa, Iémen. Foto de YAHYA ARHAB/EPA/Lusa.

Segundo a FAO, o organismo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, o Iémen pode assistir a uma situação alimentar “catastrófica” devido à pandemia do novo coronavírus.

Esta segunda-feira, Abdessalam Ould Ahmed, o representante regional da FAO na região, afirmou à agência Reuters que poderá agravar-se aquela que é considerada pela ONU a “pior crise humanitária do mundo”, devido aos cinco anos de guerra entre o movimento denominado Houthi e uma coligação internacional liderada pela Arábia Saudita.

Atualmente, cerca de 80% da população depende de ajuda alimentar externa e a fome é o quotidiano de 15,9 milhões de pessoas. As estratégias de confinamento colocaram em causa as cadeias de abastecimento dessa ajuda.

Para além disso, de acordo com o responsável da FAO, o sistema de saúde que enfrentava já um “pesado stress” será “esmagado se a covid-19 se continuar a espalhar”. Apesar de garantir que as Nações Unidas “estão a trabalhar para evitar isso”, Ahmed é claro sobre as consequências: “essa situação poderia ser verdadeiramente catastrófica se os cenários piores se concretizarem”.

O país vive umas tréguas precárias devido à pandemia, mas a incapacidade de fazer testes traz incerteza sobre qual o verdadeiro estado da disseminação da doença. O governo apoiado pela Arábia Saudita diz que há 128 casos de infeção e 20 mortes nas zonas que controla. Os Houthis, que controlam grande parte das cidades, falam em apenas quatro casos e uma morte. Na equação entram também os independentistas do sul, aliados desavindos da coligação internacional e que controlam uma outra parte do território, sobre a qual não há notícias de casos.

O grande comprador de armas face à crise do petróleo

O conflito no Iémen é muitas vezes visto como uma disputa de influência regional entre Arábia Saudita e Irão, que apoia os Houthis. Pelo meio, os Emirados Árabes Unidos têm sido um parceiro discreto dos sauditas mas as forças que apoiam, os independentistas do sul, parecem ter planos que não se coadunam com os da coligação internacional.

A intervenção militar saudita tem sido apoiada pelos EUA e conta com o fluxo do dinheiro do petróleo. A Arábia Saudita é mesmo o quinto maior comprador de armas do mundo. Em termos de percentagem do PIB gasta em armas, supera de longe até os EUA: enquanto estes gastam 3,4% do seu Produto Interno Bruto em armas, os sauditas gastam cerca de 8%.

Só que vários especialistas, citados pelo Guardian, colocam em causa a capacidade da dinastia Saud de continuar a alimentar estas compras, depois de já ter implementado medidas inéditas de austeridade na sequência da queda do preço do petróleo.

Andrew Feinstein, ex-parlamentar sul-africano e dirigente da Corruption Watch UK, especialista no comércio internacional de armas, considera que a diminuição de compra de armas poderá ter como efeito secundário um rombo no apoio político internacional ao regime saudita porque “um dos resultados da compra de armas é que se está também a comprar relações”. Sem essas compras, o “apoio sem restrições dos países mais poderosos do ocidente” pode esfriar, avisa Feinstein.

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