A aprovação, no passado dia 15 de junho, de um pacote legislativo onde se proíbe a divulgação de conteúdo que “mostre ou promova a sexualidade, a mudança de sexo ou a homossexualidade” a menores de 18 anos e restringe o acesso à educação sexual nas escolas, serviu como um verdadeiro catalisador para a Marcha do Orgulho LGBTQI+ de Budapeste. A lei foi alvo de duras críticas de vários países europeus, bem como uma condenação do parlamento europeu contra o governo de Orbán.
Um porta-voz da Háttér Társaság, a mais antiga organização não-governamental de lésbicas, gays, transgénero, queer e intersexuais da Hungria, disse ao programa Newshour da BBC que a lei "incentiva" e "legitima ser abertamente homofóbico ou transfóbico".
Tamas Dombos alertou ainda que o impacto desta legislação "permanecerá connosco por muitos anos".
De acordo com a organização da iniciativa, cerca de 30 mil pessoas participaram no Budapest Pride, que atravessou a Ponte da Liberdade da cidade sobre o Danúbio.
This year’s Budapest Pride Parade was unusual in many ways.
Many teens came to march for the very first time. MEPs travelled to Hungary to show solidarity. The crowd was huge.
Here is my report, written mostly sitting on a Budapest sidewalk. https://t.co/4XeIUpGM3E
— Lili Bayer (@liliebayer) July 24, 2021
Lili Bayer, do Politico relata que alguns membros do Parlamento Europeu juntaram-se à marcha e que os participantes, na sua maioria jovens, mantiveram um clima festivo, dançando canções dos Abba e agitando bandeiras de arco-íris.
Entre os participantes, que incluíam muitos alunos do ensino secundário, existia a consciência de que este foi um ato de desafio.
“Nos últimos dois anos, tivemos um ataque do governo contra a comunidade LGBTQI, muito discurso de ódio e também a adoção de legislação restritiva quando se trata de direitos transgéneros, adoção e, mais recentemente, uma lei de propaganda no estilo russo”, explicou Tamás Dombos ao Politico.
“Muitas pessoas vieram manifestar o seu apoio e mostrar que nem todos pensam como o nosso governo”, frisou.
Pequenos grupos de ativistas de extrema direita, alguns com t-shirts com o slogan "Defenda a Europa", organizaram contra-protestos. Eles esperaram pela passagem da marcha perto das margens do Danúbio com grandes placas onde se lia “STOP LGBT”. Gritaram ainda vários insultos.
Os participantes da Marcha do Orgulho LGBTQI+ responderam com aplausos e slogans como “amar é um direito humano”.
A questão dos direitos LGBTQI + deverá permanecer no topo da agenda política da Hungria antes de uma importante eleição parlamentar no próximo ano. Na quarta-feira, o primeiro-ministro Viktor Orbán anunciou um referendo sobre cinco questões relacionadas com os direitos das minorias sexuais. “Bruxelas atacou claramente a Hungria nas últimas semanas (…) Quando a pressão sobre nosso país é tão forte, apenas a vontade comum do povo pode proteger a Hungria”, defendeu o presidente húngaro.
As embaixadas de cerca de 30 países emitiram uma declaração conjunta de apoio à Marcha do Orgulho LGBTQI+. Na missiva, expressam a sua preocupação com os “desenvolvimentos recentes que ameaçam o princípio da não discriminação em função da orientação sexual ou identidade de género”. “Encorajamos medidas em todos os países para garantir a igualdade e dignidade de todos os seres humanos, independentemente da sua orientação sexual ou identidade de género, e enfatizamos a necessidade de os líderes eleitos e governos mostrarem respeito e protegerem os direitos das pessoas LGBTQI + ”, acrescentam as embaixadas.