Ex-conselheiro de Barroso acusa-o de obedecer a Berlim para dividir a UE

09 de abril 2014 - 11:16

O economista que Durão Barroso escolheu em 2011 para liderar o seu grupo de conselheiros em Bruxelas diz agora que ele preferiu alinhar com a austeridade defendida pela Alemanha, tendo em vista aumentar os seus próprios poderes.

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Foto Partido Popular Europeu/Flickr

Philippe Legrain disse ao Financial Times que a Comissão preferiu, "em vez de se manter à margem, alinhar-se estrategicamente com a Alemanha", contribuindo para a divisão da Europa em dois blocos. "A UE está agora dividida entre credores e devedores e as suas instituições tornaram-se um instrumento para que os credores imponham a sua vontade face aos devedores", diz o economista inglês, que abandonou no mês passado, a liderança do Bureau of European Policy Advisers. Legrain liderava há três anos o think tank que funciona junto do presidente da Comissão Europeia.

A Comissão Europeia liderada por Barroso "tem sido uma seguidora nesta crise em vez de líder", acusou Philippe Legrain, considerando-a "politicamente mais fraca que nunca", apesar das medidas criadas para aumentar o poder da comissão sobre os orçamentos nacionais, como o semestre europeu, os six-pack e o two-pack.

O ex-conselheiro de Barroso diz ainda que a análise incorreta da crise levou à tomada de medidas contraproducentes e que "passámos de uma crise grave para uma crise crónica", agravada pelas políticas da Comissão. 

[caption align="left"]Philppe Legrand (à esquerda) liderou até ao mês passado o think tank de Barroso em Bruxelas desde 2011. Foto Lisbon Council/Flickr[/caption]

Por seu lado, o porta-voz do comissário Olli Rehn veio atacar as declarações de Legrain, considernado-as um produto das "opiniões de um antigo membro do staff temporário que infelizmente escolheu não dar nenhum contributo útil ou praticável na resposta à crise". Simon O'Connor já tinha vindo atacar o Manifesto dos 74 nas suas conferências de imprensa em Bruxelas e reafirma agora que "a estratégia da Comissão não é alinhada com a opinião de nenhum estado-membro em particular, mas reflete a abordagem apoiada pelo Conselho do Ecofin (ministros das finanças da UE), do Banco Central Europeu e do FMI, que resulta agora no fortalecimento da recuperação económica na Europa". 

Comissão Europeia recusa aplicar critérios estatísticos que impõe aos países

Depois da fraude com as contas públicas gregas, com o défice de 3,7% em 2009 a transformar-se em 15,4%, os países da UE foram obrigados a aplicar a legislação para dar independência aos organismos estatísticos nacionais. Mas Bruxelas recusa-se a aplicar o mesmo princípio ao Eurostat, diz o portal EU Observer.

O Parlamento Europeu quer ver alargada a Bruxelas a aplicação da lei europeia para dar independência e transparência aos organismos que tratam as contas públicas em cada país. Isso passaria por exemplo por consultar o Parlamento Europeu sobre o nome do presidente do Eurostat, que deveria passar a prestar contas na comissão de assuntos económicos e seria obrigado a avisar o Parlamento sempre que a Comissão tomasse uma medida que ponha em causa a sua independência.

Mas a Comissão continua a argumentar que o Eurostat faz parte da Comissão, que age politicamente na base dos dados produzidos. Para o eurodeputado francês Liem Hoang Ngoc, que tem a tarefa de negociar a proposta com a equipa de Durão Barroso, a Comissão tem feito tudo para sabotar esta propsta, "incluindo ameaçar retirar a legislação e requerer um voto por unanimidade no Conselho", de forma a impedir na prática a independência do Eurostat.