O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, acendeu um pavio que fez voar em pedaços a máscara das potências ocidentais. Abbas anunciou que no próximo dia 23 de Setembro pedirá ante o Conselho de Segurança da ONU o reconhecimento da Palestina como Estado de pleno direito.
Aliados incondicionais de Israel, os Estados Unidos, que nada fizeram desde que Obama chegou ao poder para desbloquear o processo de paz, manifestaram-se rapidamente para julgar “contraproducente” a iniciativa de Abbas enquanto que a União Europeia, por meio da chefe da diplomacia europeia, a escandalosa e inoperante Catherine Ashton, defendeu uma “solução construtiva” que conduza à retomada das negociações entre Israel e Palestina.
A fórmula da comissária europeia é de um cinismo calamitoso: ao cabo de 18 anos de negociações o processo não conduziu a nenhum acordo tangível. Os europeus, lúcidos na hora de falar, mas imobilistas na hora de agir, não conseguiram influir em nenhuma das administrações israelitas enquanto Washington foi incapaz de obter de Israel a mais mínima concessão capaz de fazer o processo avançar.
A proclamação de um Estado palestiniano pretende pôr fim ao infrutífero regime de negociação instaurado pelos acordos de Oslo. Por outro lado, o movimento de Mahmud Abbas não tem saída, já que os EUA adiantaram que exercerão o seu poder de veto no Conselho de Segurança. A Palestina não se converterá então no Estado número 194 das Nações Unidas. O máximo que pode conseguir é um estatuto semelhante ao do Vaticano.
Contudo, a decisão do presidente da Autoridade Palestiniana é tanto mais emblemática na medida em que ela ocorre no momento em que os países árabes passam por um intenso processo revolucionário. Resulta incongruente para os Estados Unidos e União Europeia oporem-se a um Estado palestiniano, ou seja, continuarem a apoiar Israel incondicionalmente, ao mesmo tempo que, ainda que tardiamente, apoiaram a primavera árabe. O cinismo sempre se faz evidente quando chega o momento de tomar uma posição.
Mahmud Abbas ignorou as insistentes recomendações dos emissários norte-americanos, da União Europeia e do inócuo Quarteto para o Oriente Médio (Estados Unidos, Rússia, União Europeia e ONU). Ainda que os diálogos tenham fracassado, o Velho Continente insiste em dizer que a União Europeia vai “redobrar” os seus esforços para “retomar as negociações entre as partes o mais rápido possível”. Segundo disse a senhora Ashton, “esse é o único meio de pôr fim ao conflito”.
Assim como ocorre com outros grandes temas cruciais da política internacional, os países da União Europeia estão profundamente divididos sobre a questão. Itália, República Checa, Holanda e Polónia mostram-se hostis à criação de um Estado palestiniano reconhecido pela ONU. Ainda que em menor medida, a Alemanha não simpatiza com a ideia. O resto dos países da UE tem uma tendência favorável, mas sabem que a iniciativa palestiniana pode causar divisões na unidade do grupo. Paris afirmou que “assumirá as suas responsabilidades” e precisou que a posição francesa está “guiada pela tripla preocupação de preservar a perspectiva de uma reactivação do processo de negociação, evitar a confrontação diplomática e manter a unidade europeia”. As três aspirações simultâneas parecem hoje inalcançáveis.
O porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Mark Toner, considerou que a proclamação de um Estado palestiniano não conduzirá à meta desejada, ou seja, a existência de “dois Estados convivendo em paz e segurança”. Washington e os europeus clamam por um acordo de paz “completo”, mas esta perspectiva foi-se evaporando com a ampliação da colonização israelita na Cisjordânia.
A posição de Mahmud Abbas tão pouco é confortável. Desde Maio passado não consegue formar um governo de unidade nacional, o seu mandato já expirou, e o território palestiniano de Gaza permanece mais dividido do que nunca através das suas respectivas administrações, os fundamentalistas do Hamas e a OLP. Quando anunciou que falaria na ONU no próximo dia 23, Abbas manteve intactas as reivindicações históricas da OLP: um Estado palestiniano dentro das fronteiras do armistício de 1948, um Estado com Jerusalém Oriental como capital, o retorno dos refugiados e a plena soberania.
A actuação da administração Obama na crise palestiniana tem sido um fracasso total. Obama suscitou enormes esperanças quando foi eleito e, há pouco mais de dois anos, num discurso pronunciado no Cairo (Junho de 2009), realimentou-as quando disse : “A situação dos palestinianos é intolerável”. Mas, até agora, não foi capaz sequer de impedir que Israel continue a construir colónias na Cisjordânia.
Tradução: Katarina Peixoto