Entrevista a José Duarte: “Sou o ouvido branco mais negro da Europa”

21 de fevereiro 2016 - 21:28

Era ainda um jovem, um “puto de liceu” como gosta de dizer quando um dia foi desafiado pelos amigos a ir até ao Hot Club. Mas aquela cave onde estava um grupo a tocar, uns tipos a jogar poker e um rádio sintonizado na “ Voz da América” a fazer propaganda política ao “american way of life”, não lhe agradou.

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" O 25 de Abril durou até Novembro de 75. Depois abriu-se o caminho para termos chegado até aqui. A Europa está a desfazer-se e já estivemos mais longe de uma guerra à escala mundial".

No 50º aniversário do programa Cinco minutos de jazz, José Duarte recorda ainda o dia em que, por acaso, reparou num papel que estava no chão a convidar as pessoas para irem assistir a uma palestra sobre jazz na Associação de Estudantes do Técnico. Foi até lá sem saber que estava prestes a encontrar-se com um amor para a vida: o jazz. Que hoje, passadas tantas décadas, ainda o comove quando se confronta com a improvisação e a surpresa que caracterizam este estilo musical.

Ainda muito jovem é levado a ouvir jazz e não gosta. Porquê?

Naquela época, estamos a falar da década de 50, era completamente analfabeto em relação a esse estilo de música. E quando fui ao Hot, achei aquilo tudo muito estranho, o ambiente e a própria música. E não gostei.

Não terá sido também por razões políticas?

Eu era muito novo, mas já tinha ideias de esquerda, progressistas por causa de dois tios que eram comunistas, gente do povo, operários, e não gostei de ouvir a “Voz da América” que era um instrumento de propaganda da guerra fria e que fazia a apologia dos valores americanos para combater os países de Leste. Mas não terá sido só por isso.

Então, o que é aconteceu?

Sinceramente, eu era completamente ignorante em relação ao jazz. Aliás, ninguém sabia nada sobre este estilo musical em Portugal. Não se ouvia, não se conhecia e por isso era difícil perceber a sua qualidade, o seu virtuosismo.

Mas para o regime era música subversiva?

Provavelmente, os homens da ditadura desconheciam a história subjacente ao surgimento do jazz. E, como era regra, a rejeição ficava-se pelo facto de ser “música de pretos” o que para um regime colonialista já era suficientemente mau.

Mas há um dia em que se cruza de novo com o jazz e aí consuma uma relação para a vida?

Nas deambulações de rua, próprias de rapazes ainda muito jovens, há um momento que parece tirado de um filme, ou seja, por mero acaso leio um papel, uma espécie de convite, que anunciava uma palestra sobre jazz do Raul Calado na associação de estudantes do Técnico. E fui.

Não hesitou por causa da experiência negativa que já tinha tido?

A curiosidade levou-me até lá e ainda bem porque o Raul Calado fez uma excelente intervenção e uma magnífica sessão fonográfica com comentários que me levaram a ter, posso dizê-lo sem exagero, um choque cultural.

Começa aí a sua reconciliação com o jazz?

Não, porque eu não estava zangado com ele. Fui vítima da minha ignorância que era aliás apanágio do país, como já disse. Ninguém sabia nada daquilo e para gostar de jazz é preciso conhecer e para conhecer é preciso estudar.

E foi o que começou a fazer?

Ele (Raul Calado) queria abrir um clube universitário de jazz.

E abriu?

Sim. E eu fui o sócio número dois. Mas este clube transformou-se rapidamente num centro de resistência antifascista, porque começou a ser frequentado por gente da oposição e também por estudantes das colónias que estavam a estudar em Portugal e alguns deles até pertenciam aos movimentos de libertação.

Mais uma vez o jazz como expressão da liberdade.

É e será sempre a sua raiz. Talvez por isso o clube tenha começado a ser olhado como um local frequentado por perigosos comunistas, que queriam o fim da opressão.

E a Pide entra em campo.

De uma forma muito inteligente.

O que nem sempre era habitual.

Mas eu explico essa esperteza. O clube tinha que ter estatutos. Eles foram enviados para aprovação e nunca obtivemos resposta. Assim, dois anos depois somos obrigados a fechar.

Porque não tinham os estatutos aprovados.

Sim. Disseram-nos que nunca os enviámos. E nós contrapúnhamos afirmando que o tínhamos feito mas como a intenção era arranjar um expediente de natureza administrativa, eles acabaram por ganhar e nós tivemos de fechar as portas.

Mas nessa altura, o jazz já fazia parte da sua vida?

Em 1958, estreei-me na Rádio Universidade com um programa que se chamava “ O jazz, esse desconhecido” e em 1959 entro na Renascença para fazer o programa “ Encontro com o Jazz”.

Estava então dado o pontapé de saída para começar a “educar” os portugueses para esta música e e assim introduzi-la no país.

É justo que se diga que foi o Luís Villas-Boas (1924-1999) que trouxe o jazz para Portugal. Fundou o Hot Club que teve uma importância decisiva na sua divulgação.

Mas a rádio chegava a mais pessoas?

Com certeza. Mas o caminho foi aberto por ele.

Li que numa determinada altura não gostava que dissessem que era um homem que só gostava de jazz. Porquê esse incómodo?

Hoje não me aborrece nada...mas sabe, eu sou um tipo culto. Também gosto de outras expressões artísticas como pintura ou literatura.

Não receia ser tomado como arrogante. Normalmente, as pessoas não dizem isso.

Não tenho esse medo. Já vivi muito, conheci muitos lugares, imensas pessoas. Sou um velho que não se encandeia com a luzes da ribalta, nem se esconde atrás da porta da falsa modéstia.

[caption align="right"]"Sou um velho que não se encandeia com a luzes da ribalta, nem se esconde atrás da porta da falsa modéstia".[/caption]

Quer dizer então que gostava de ter feito outras coisas e ser conhecido para além do homem do jazz?

Mas eu fiz outras coisas. Na rádio, estive num programa de grande sucesso como foi o “ Pão com Manteiga”, fui coautor do concurso de televisão “ 1,2,3”, escrevi em jornais e revistas, toquei, cantei, gravei discos...

mas será sempre o homem do jazz.

O que não deixa de ser verdade mas é bom que se saiba que o meu universo é mais alargado.

É um comunicador, ou melhor, sente necessidade de comunicar?

Com certeza que sim. Aliás essa é uma característica essencial para se fazer rádio e televisão.

A aventura do programa“ Cinco minutos de jazz” faz hoje 50 anos. Como é que tudo começou?

Começou na Rádio Renascença. No dia 21 de fevereiro de 1966.

Começa numa estação católica, conhecida pelo seu conservadorismo. Algo improvável, não acha?

Já lá tinha estado. O ambiente era marcado por algum reaccionarismo mas a ignorância em relação ao jazz era a regra no país e talvez por isso nunca tenha tido problemas de maior.

Por ser considerado um género menor, a tal “ música de pretos"?

Se calhar ainda hoje há quem pense assim. O racismo é uma nódoa muito difícil de apagar.

[caption align="left"]O programa de rádio mais antigo de Portugal, provavelnete do mundo comemora o seu 50º aniversário.O programa de rádio mais antigo de Portugal, provavelmente do mundo, comemora o seu 50º aniversário.[/caption]

Mas o jazz não transpôs já a barreira mais popular sendo hoje mais elitista?

Há muita gente que gosta ou diz gostar de jazz. Acontece que não sabe ouvi-lo. Se o querem elitizar...bom acho difícil. O jazz é tão universal que é impossível aprisioná-lo

Mas é assim tão difícil aprender a ouvir jazz?

Para conseguirmos extrair tudo aquilo que ele nos pode dar, temos de aprender a saber ouvi-lo.

Porquê?

Porque ele é fruto de um trabalho coletivo e vive muito da improvisação, como já disse. Eu descubro sempre algo novo, mesmo que já tenha ouvido uma música dezenas de vezes. Temos que saber ouvir cada instrumento para perceber a harmonia no seu conjunto.

Foi por isso que a Universidade de Aveiro criou em 2002 as disciplinas “Histórias do Jazz” e “Audição Musical Comentada” tendo-o convidado para professor auxiliar?

Sou amigo do reitor dessa universidade, doei todo o meu espólio à instituição e tem sido muito gratificante este trabalho. As sessões fonográficas despertam-nos para a realidade de estarmos perante uma expressão musical que, se a soubermos ouvir, acaba por nos surpreender todos os dias.

É o que lhe acontece (ainda) a si?

Sim. O que é ótimo porque desta forma continuo a querer saber mais, mesmo quando sou tentado a pensar que já sei tudo.

E não sabe já tudo?

Tenho surpresas extraordinárias todos os dias. Algumas ainda me fazem chorar.

Essa capacidade está relacionada com facto de considerarem que tem “o ouvido branco mais negro da Europa”?

Foi isso que começaram a dizer quando o “Cinco minutos de jazz” passou para a Rádio Comercial.

Ficou incomodado?

Antes pelo contrário, até porque acho que é verdade.

Porque é que saiu da Renascença?

Foi depois dos emissores da estação terem sido destruídos, em 1975.

E após uma interrupção vai, em 1983, para a Rádio Comercial.

A convite do João David Nunes, que era o diretor na altura.

Finalmente vai para a RDP, em 1993, onde ainda se mantém. Ao fim de meio século, continua a ter vontade de fazer o programa?

Espero ele só termine quando eu morrer. Continua a justificar-se para mim e para os ouvintes. Faço-o com o mesmo entusiasmo que tinha há 50 anos.

Assume-se como um homem de esquerda e celebrou o 25 de Abril com enorme entusiasmo. Ao fim destes anos, Portugal está onde devia estar?

Não, não está. O 25 de Abril durou até Novembro de 75. Depois abriu-se o caminho para termos chegado até aqui. A Europa está a desfazer-se e já estivemos mais longe de uma guerra à escala mundial.

Não há aí demasiado pessimismo?

Para um velho como eu, não há. Vi a minha pensão ser cortada, fiquei apenas com um programa de rádio e estou cansado do discurso político. Pedia até a todos quantos se batem por outros valores, para renovarem o discurso porque se assim não for estamos derrotados.

Acha que esse discurso está gasto?

Para os homens e mulheres da minha idade, a palavra luta faz muito mais sentido do que a palavra esperança. Se lutarmos conseguiremos ainda mudar a situação.

Mas a esperança não será um alicerce essencial para fazer essa luta?

No início da nossa conversa falei-lhe em dois tios operários, comunistas, das tascas e dos copos que foram essenciais na minha formação política, no facto de me ter tornado inequivocamente um homem de esquerda. Um deles esteve até preso no Tarrafal. Foram até ao fim homens de luta e se hoje (ainda) aqui estamos a eles também o devemos. É essa garra que temos de ir buscar novamente.

Entrevista de Pedro Ferreira

O 50º aniversário do programa Cinco minutos de jazz será assinalado com cinco concertos no Hot Club de Portugal. Eis o programa comemorativo:

22 e 24 de fevereiro- Concertos do saxfonista Lou Donaldson, autor e intérprete do indicativo sonoro do programa.

25, 26 e 27 de fevereiro- Concertos de Steve Potts que, no início dos anos 70, participou com o quinteto de Steve Lacy na gravação do primeiro disco de jazz ao vivo em Portugal intitulado Estilhaços.

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