Empresa responsável por sondagem divulgada pelo Chega é acusada de manipulação

25 de fevereiro 2024 - 22:58

Diretor-executivo da Intercampus, contratada pela Paraná Pesquisas para fazer as entrevistas telefónicas da sondagem, fala em “atitude desleal e de má-fé”. ERC, que, em 2023, já se pronunciou sobre atos de desinformação por parte do Chega, abriu “um processo de averiguações”.

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foto de Foto de Nuno Veiga, Lusa.

Conforme explica o jornal Expresso, a empresa portuguesa de sondagens Intercampus foi contratada pela Paraná Pesquisas, que não tem autorização para operar em Portugal, para fazer as entrevistas telefónicas e entregar os resultados em bruto. Posteriormente, o jornal do Chega “Folha Nacional” publicou um artigo sobre a sondagem, apontando para um “empate técnico” entre a AD, o PS e o Chega.

Rapidamente, André Ventura e outros membros do partido de extrema-direita fizeram circular esse conteúdo, num formato de notícia que imita o ambiente gráfico da Rádio Renascença.

De acordo com uma análise do site internacional de jornalismo de investigação Bellingcat, em colaboração com o semanário, as primeiras publicações sobre a sondagem, com o grafismo da Renascença, são todas da autoria do Chega, tendo a conta oficial do partido no Facebook lançado o conteúdo às 12h39 de quinta-feira, e a conta oficial no X às 12h43. Seguiram-se mensagens do vice-presidente do partido, Pedro Frazão, às 12h58 e 14h20, e de André Ventura, às 14h31.

Esta não é a primeira vez que o Chega copia o grafismo dos media para credibilizar as suas publicações. Em agosto de 2023, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) emitiu uma deliberação em que afirma que “a publicação, por André Ventura, de imagens que emulam o Público e a Rádio Renascença pode configurar uma ação de desinformação, na medida em que pretende apoiar-se na imagem daqueles dois órgãos de comunicação social conhecidos do público para credibilizar as mensagens que o próprio pretende promover”.

No que respeita à sondagem da Paraná Pesquisas, a ERC informou, entretanto, que “já determinou a abertura de um processo de averiguações para apreciação da matéria em causa” e confirmou “a receção de uma participação a este respeito".

André Ventura, por sua vez, voltou a apostar na vitimização, afirmando que se a ERC “está chateada com o Chega ou está ao lado do PSD e do PS é um problema que a ERC tem de resolver”. “Se querem perseguir pessoas e perseguir partidos, estejam à vontade”, continuou o líder de extrema-direita à margem de uma arruada em Almada.

“Atitude desleal e de má-fé”

Em declarações ao Correio da Manhã, o Diretor-geral da Intercampus denunciou a “atitude desleal e de má-fé”, explicando que teve a garantia de que o trabalho realizado não seria publicado. Até porque as sondagens a serem divulgadas ao público têm de ser depositadas na ERC.

Ao Expresso, António Salvador adiantou ainda que, embora os números publicados pela Paraná Pesquisas não estejam errados, o título produzido pelo jornal do Chega é “inquietante”. O representante da Intercampus detalha que o empate técnico triplo refere-se a uma situação hipotética “meramente teórica”, na medida em que “falamos da margem de erro máxima” e isso “nunca acontece”.

Paraná Pesquisas: Uma empresa ao serviço de Bolsonaro

A Paraná Pesquisas já esteve envolvida em polémicas no Brasil, após a Folha de São Paulo ter noticiado que a empresa recebeu um pagamento de 500 mil euros do Partido Liberal, de Jair Bolsonaro, antes das presidenciais brasileiras de 2022.

A empesa, cujo contrato com o governo federal foi criticado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), foi a única a avançar com sondagens que apontavam para um empate técnico entre Bolsonaro e Lula da Silva, o que agravou as suspeitas sobre a imparcialidade dos seus estudos.

A proximidade entre o Chega e os seus parceiros bolsonaristas nesta campanha é cada vez mais expressiva. O projeto do MediaLab do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), em parceria com a agência Lusa, que visa aferir a desinformação e os conteúdos a circular nas redes e sociais e meio online, assinalou que publicações de apoio a André Ventura de dois deputados bolsonaristas, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, e Carla Zambelli, entraram na campanha eleitoral nas redes sociais esta semana.

Informações enganosas marcam campanha do Chega

O MediaLab também apontou que “a informação enganosa” sobre os alegados tiros à comitiva do Chega a Famalicão, “em grande parte propagada por páginas e contas afetas ao partido Chega”, acabou por ter “mais alcance e mais impacto (medido em interações) do que a sua correção quatro horas depois”.

Os especialistas lembram que, passadas cerca de quatro horas sobre o acontecimento, “um comunicado da PSP esclareceu que os alegados disparos eram afinal rateres de uma moto”.

“No entanto, quatro horas foram suficientes para que a narrativa original e enganosa circulasse pelo Facebook e pelo Twitter/X com muito mais alcance que a sua posterior correção”, lê-se no texto.