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Banco de Portugal sabia do buraco do GES no ano passado

Seis meses antes de tranquilizar os potenciais investidores no aumento de capital do BES, Carlos Costa já tinha conhecimento que as contas dos Espírito Santo ocultavam dívida e sobrevalorizavam ativos.
Carlos Costa soube do buraco nas contas do BES seis meses antes de recomendar o investimento em ações no aumento de capital do BES. Foto José Sena Goulão/Lusa

O semanário Expresso revela este sábado a correspondência trocada no início de dezembro de 2013 entre o então vice-governador do Banco de Portugal, Pedro Duarte Neves, e Ricardo Salgado, na qualidade de presidente do Espírito Santo Financial Group. Numa das cartas, o Banco de Portugal pede uma “explicação detalhada sobre as razões da diferença identificada nas contas da Espírito Santo International (€1,3 mil milhões, referentes a dezembro)” e do valor de alguns ativos do grupo, “designadamente a Real Estate Investments (€240 milhões) e Investment Projects (€841 milhões)”.

Hoje sabe-se que Carlos Costa conhecia o problema pelo menos seis meses antes antes de dar estas garantias públicas, mas não tomou de imediato nenhuma medida para inibir os responsáveis do grupo de continuar a desenvolver atividade no setor financeiro. Salgado e a sua equipa continuaram mais seis meses ao leme do BES e o buraco só aumentou desde então.

Estes ativos nunca chegaram a ser identificados, pelo que a soma da dívida ocultada e dos ativos inexistentes ascendia a 2,4 mil milhões. Na carta de 23 de dezembro, o regulador fez algumas exigências para “proteger o BES dos riscos ligados aos problemas no GES”, mas o Grupo Espírito Santo não executou essas recomendações.

Quatro meses depois de conhecer a dimensão do buraco das contas da ESI, o Banco de Portugal deu luz verde ao aumento de capital do BES, cujo prospeto não identificava o valor desse buraco, limitando-se a falar em ocultação materialmente relevante das contas. E já no verão, o governador do Banco de Portugal veio dizer que havia uma almofada financeira mais do que suficiente para o BES acomodar a dívida ocultada. Garantindo que o BES era um banco sólido, expressão depois repetida quer pelo primeiro-ministro quer pelo Presidente da República, a garantia do Banco de Portugal levou muitas pessoas a aplicar as suas poupanças no capital de um banco condenado a abrir falência a curto prazo.

Hoje sabe-se que Carlos Costa conhecia o problema pelo menos seis meses antes antes de dar estas garantias públicas, mas não tomou de imediato nenhuma medida para inibir os responsáveis do grupo de continuar a desenvolver atividade no setor financeiro. Salgado e a sua equipa continuaram mais seis meses ao leme do BES e o buraco só aumentou desde então. As responsabilidades do Banco de Portugal também estão na agenda da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES e o Bloco de Esquerda já requereu toda a correspondência - incluindo emails - trocada entre os responsáveis do banco e do regulador.

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