A luta dos palestinianos na Cisjordânia ocupada pelas terras que lhes foram roubadas é uma batalha desgastante em múltiplas frentes. “O roubo de terras é realizado através do uso de documentos falsificados, corrupção de advogados e manipulação de jovens colonos órfãos”, afirma Alice Kisiya, uma palestiniana de Beit Jala.
Após quase vinte anos de esforços do governo israelita, de organizações não governamentais e de grupos de colonos para demolir a propriedade da família e expulsá-la, os Kisiya recuperaram o acesso às suas terras ancestrais após uma decisão judicial israelita a seu favor, que rejeitou os documentos de propriedade dos colonos como “fabricados”.
Alice Kisiya conversou com Nelson Pereira por ocasião da exibição, em Genebra, do documentário de Yanis Mhamdi, “Alice in Settlerland”, durante o Festival Internacional de Cinema e Fórum sobre Direitos Humanos.
Alice denuncia as organizações israelitas que visam expandir os colonatos a qualquer custo. Organizações que não hesitam em aproveitar os adolescentes que vivem sem os pais em colonatos ilegais no topo de colinas. Submetidos a uma intensa doutrinação religiosa extremista e anti-palestiniana, estes "Jovens das Colinas" (Hilltop Youth) passam os dias ociosos, entregues ao abuso de álcool e drogas. Facilmente manipuláveis, são peões ideais nas mãos de organizações como a Himanuta, uma subsidiária do Fundo Nacional Judaico, e a Regavim, uma ONG pró-colonização que move processos contra palestinianos que constroem em Israel e na Cisjordânia.
Com idades compreendidas entre os 16 e os 26 anos, abandonaram as escolas e a educação para viver em povoações erguidas no topo de colinas, devastando comunidades palestinianas e cometendo assassinatos e incêndios em massa.
"São crianças em risco, sem cuidados parentais, abusadas por organizações de colonos como a Himanuta ou a Regavim. Por detrás da fachada de horas de voluntariado nas escolas agrícolas, os Jovens das Colinas são uma milícia utilizada para tomar posse de terras palestinianas", explica Alice. "Dissimulada como uma instituição de acolhimento, o seu objetivo é criar crianças muito violentas, fazendo-lhes uma lavagem cerebral e dizendo-lhes que os árabes são terroristas. Usam estas crianças como uma ferramenta para atingir um objetivo político; não se preocupam verdadeiramente com elas."
Os Kisiya são cristãos palestinianos que vivem e cultivam a terra há gerações no vale de Al-Makhrour, uma área listada pela UNESCO perto de Belém.
A propriedade da família em Al-Makhrour, incluindo a sua casa e um restaurante, foi demolida várias vezes pelas autoridades israelitas, tendo ocorrido grandes demolições em 2013, 2015 e 2019, sob a alegação de falta de licenças de construção.
Entrevista
Israel ultrapassou o limiar da anexação na Cisjordânia?
Dikla Taylor-Sheinman
Com Israel a travar uma guerra devastadora em Gaza, os colonos exploraram a falta de atenção global sobre a Cisjordânia ocupada para roubar grandes extensões de terra palestiniana com pouca resistência ou protesto internacional.
Recorrendo a documentos falsificados, as organizações de colonos pretendiam incorporar a propriedade no bloco de colonatos ilegais de Gush Etzion, uma manobra que visava aumentar o controlo israelita sobre a área e separar Belém de Jerusalém.
“A Himanuta falsificou documentos, alegando que tinham sido encontrados nos arquivos da regulamentação jordana. No entanto, conseguimos ter acesso aos arquivos e provámos que esses documentos não existiam”, conta Alice Kisiya. “Além disso, tentaram manipular, subornar e ameaçar os advogados que nos representavam. Assim, desmascarámo-los e provámos que temos direitos sobre a terra. E agora continuamos a batalha legal contra a administração civil”.
“Não foi fácil”, acrescenta, “mas no final conseguimos expulsá-los. E apresentei uma queixa contra a Himanuta a um organismo anticorrupção israelita por falsificação de documentos”.
“Estamos a lutar pela nossa terra há décadas e não vamos daqui embora”, sublinha Alice. “Palestinianos cristãos e palestinianos muçulmanos, estamos unidos contra o roubo de terras e a ocupação.”