Debate completo: Catarina Martins e António Filipe

10 de dezembro 2025
PARTILHAR

Num debate com muitas convergências, a posição face ao apoio à Ucrânia no seu direito a defender-se da invasão russa acabou por dividir os dois candidatos.

Catarina Martins e António Filipe debateram esta quarta-feira na RTP e deixaram claros os pontos de convergência quanto ao apoio à luta dos trabalhadores na greve geral de 11 de dezembro e nas críticas ao pacote laboral do Governo. O mesmo aconteceu quanto à reação às palavras do primeiro-ministro sobre um aumento do salário mínimo, com Catarina Martins a dizer que Montenegro “está a gozar com as pessoas e isso é feio”, enquanto António Filipe diz que o silêncio das confederações patronais é a prova de que “nem eles acreditam” nas palavras do líder do Governo.

O debate prosseguiu sobre as convergências à esquerda nas presidenciais. António Filipe afirmou que “quando avancei não havia candidaturas à esquerda”, pois considera que António José Seguro “faz parte do consenso neoliberal”,  preferindo não esperar “por um messias que descesse à terra”. Catarina Martins afirmou por seu lado que acreditou que era possível surgir uma candidatura independente “para agregar vários espaços partidários”, por considerar que “ninguém faz convergência consigo próprio”.

Sobre a hipótese de um candidato de esquerda estar ausente da segunda volta, Catarina lembrou que “Maria de Belém tinha 20% nas sondagens e acabou com 5%”, enquanto António Filipe insistiu que “os eleitores é que vão decidir quem vai à segunda volta”.

No debate sobre a função presidencial, Catarina defendeu que é preciso uma Presidente “que fale menos dos jogos partidários e mais dos problemas do país”, dando o exemplo da falta de apoio ao envelhecimento. “Uma Presidente tem de ser a voz de quem se sente abandonado” e colocar esses temas na agenda, ao contrário do que fez o atual inquilino do Palácio de Belém. Quando Marcelo “considerou que o Orçamento do Estado é uma moção de censura ao governo, passou-se a discutir mais tática política e menos os problemas das pessoas”, e a partir daí “a degradação do debate político acelerou-se”.

António Filipe lembrou que o Presidente da República “é o último garante da democracia” e que até agora nunca se dissolveu o Parlamento por falta de garantias de funcionamento regular das instituições, “e ainda bem”. Mas acrescentou que “cumprir a Constituição é respeitar os direitos sociais” que ela contém, como o direito à saúde, educação, habitação ou cultura. Os portugueses têm o direito de exigir um Presidente da República que esteja do seu lado” e este “tem obrigação de lutar pelo seu povo”.

“Independentemente do que se pense de Zelensky, a Ucrânia tem o direito a defender-se”

O tema em que as divergências ficaram claras foi o da guerra na Ucrânia, com Catarina a reclamar a tradição da esquerda na defesa da autodeterminação dos povos e o direito à resistência armada. A candidata assumiu o apoio à resistência da Ucrânia à invasão russa, embora se tenha oposto à escalada militar do conflito. Por outro lado, “choca-me um acordo de paz proposto por Trump que vai ao encontro das pretensões de Putin”, acrescentou Catarina, lamentando não ter sido aproveitada a oportunidade das negociações de paz em 2022 e que nesta questão a União Europeia continue a permitir que a morte e destruição da economia ucraniana prossiga, pois transformou-se num “capacho dos EUA que estão ligados à Rússia”.

António Filipe justificou a oposição ao apoio à resistência ucraniana com o argumento de que “é errado pensar que se chega à paz com o envio de armas”. E em seguida fez um paralelo com a ocupação israelita da Palestina, afirmando que ninguém exigiu o envio de armas para os palestinianos. “A Europa devia ter-se empenhado sempre numa solução de paz”, prosseguiu o candidato, criticando os “dois pesos e duas medidas” da UE na invasão da Ucrânia e no genocídio de Israel. No caso ucraniano, “entre Putin e Zelensky, venha o diabo e escolha, eu creio que são muito iguais, estamos perante elites corruptas”, afirmou.

Catarina respondeu que não compara as duas situações, pois na Palestina há uma situação de ocupação e as resistências são diferentes. “Não se resolve o problema de 2014 ou o mau governo invadindo”, prosseguiu a candidata, concluindo que “independentemente do que se pense de Zelensky, a Ucrânia tem o direito a defender-se”.

A entrega do Nobel da Paz a Maria Corina Machado também veio ao debate, com Catarina a defender que “Portugal deve manter relações com a Venezuela sobretudo na proteção da comunidade” e que apesar de não ter “nenhuma simpatia por governo de Nicolás Maduro”, também não consegue “apoiar a entrega de um prémio Nobel de alguém que apelou à invasão do seu próprio país por Donald Trump”.

António Filipe concordou com Catarina, lembrando o erro do Governo do PS por ter em tempos reconhecido Juan Guaidó como presidente legítimo da Venezuela. E concordou também na saudação aos artistas do Festival da Canção que anunciaram que não irão ao Festival da Eurovisão enquanto Israel se mantiver no certame.

As limitações ao uso das redes sociais, quer em termos de idade mínima quer do eventual fim do anonimato dos utilizadores, foi o tema a encerrar o debate, com António Filipe a dizer que “vale a pena fazer esse debate, idade e anonimato” e Catarina Martins a separar entre as questões do impacto das redes na saúde das crianças e jovens com o discurso de ódio. “Não aceito a falsa dicotomia entre perder a privacidade de cada cidadão que usa as redes ou corresponsabilizar as redes pelos crimes cometidos nessas redes”, dando o exemplo de um grupo de Telegram com 60 mil homens que publicam imagens não consentidas de mulheres. “Não precisamos de um estado de vigilância individual sobre cada cidadão para conseguirmos responsabilizar as redes pelos crimes que permitem que aconteçam”, concluiu.

Termos relacionados: SugestõesPresidenciais 2026