Neste frente-a-frente esteve em destaque a atuação do ex-líder do PS nas votações dos Orçamentos e das leis laborais da troika.
Catarina Martins e António José Seguro tiveram este sábado o seu frente a frente na SIC. O tema de abertura foi a Justiça e a divulgação das escutas ao antigo primeiro-ministro António Costa, com os dois candidatos a concordarem que o Procurador Geral da República deve dar explicações.
“Ter medo da justiça é um sentimento que a democracia não pode ter”, afirmou Catarina Martins, com António José Seguro a lembrar que “houve um país que na sequência de um comunicado perdeu um governo e uma maioria”.
Mas o debate recuou ainda mais no tempo, ao período do governo de Passos Coelho, em que o então líder do PS decidiu abster-se na votação do Orçamento do Estado e nas leis laborais, enquanto Catarina Martins e vários deputados do PS - contra a vontade de Seguro - os contestavam junto do Tribunal Constitucional. “Quando foi preciso escolher entre a Constituição e a austeridade, [Seguro] escolheu a austeridade”, apontou a candidata.
António José Seguro defendeu essas abstenções invocando razões de interesse nacional, garantindo que hoje “voltaria a fazer o mesmo”. Catarina respondeu que Seguro “achou que se devia ir contra a Constituição” e levantou a dúvida sobre “o que fará agora”, quando o pacote laboral reintroduz algumas dessas medidas.
Seguro voltou a negar que se tenha aliado à direita, lembrando que votou contra o banco de horas individual e a extinção de feriados. Catarina contrapôs que “em 2015 fiz um acordo que permitiu repor o que a troika tinha cortado com a sua abstenção” e lembrou que Seguro não defendeu esse governo quando Bruxelas começou por ameaçar com sanções. Em seguida, trouxe outra recordação do período da troika, quando Mário Soares ameaçou com uma cisão no PS caso Seguro avançasse nas negociações de um governo de coligação com o PSD e o CDS. Seguro respondeu que propôs que esse governo fosse alargado aos restantes partidos e que nunca se passou à fase de negociações.
Depois desta fase mais viva do debate, o tema seguinte voltou a aproximar os dois candidatos quanto às respostas ao envelhecimento do país. Catarina defendeu que Portugal pode aproveitar a revolução tecnológica em curso para aumentar a produtividade e distribuir de outra forma a riqueza criada, aumentando salários e pensões, “em vez de pormos gerações umas contra as outras”. Seguro apontou o desafio de uma economia mais tecnológica que permita que os jovens qualificados possam usar as suas competências em Portugal. E ambos deixaram ideias concretas, com Catarina a defender a aposta na produção solar descentralizada em vez dos megaparques de painéis solares e Seguro a propor um plano de fusão de PME para dar dimensão às empresas portuguesas.
O último tema lançado pela moderadora Clara de Sousa foi a pertença do país à NATO, com Catarina Martins a lembrar o artigo da Constituição que defende a dissolução dos blocos político-militares e a pedir trinta segundos para falar de um tema que nunca é trazido aos debates: a situação em Gaza, onde 360 pessoas foram assassinadas por Israel desde o cessar-fogo. A candidata defendeu que Portugal deve parar de importar bens de Israel e a UE deve suspender o acordo com aquele país.
António José Seguro diexou a promessa de que “serei leal à necessidade de continuarmos membros da NATO”, acrescentando que “a Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica” e que não defende a extinção da NATO. Catarina respondeu que todos os candidatos com quem já debateu “me garantiram que a NATO é a nossa segurança esquecendo-se que quem manda na NATO é Donald Trump, que ameaçou a Dinamarca e o Canadá, que apoia Putin contra a Ucrânia, que na sua estratégia de segurança nacional que publicou agora diz claramente que é um perigo para a Europa e quer apoiar a extrema-direita”.
Na conclusão do debate, António José Seguro prometeu vir a ser um “presidente agregador, de diálogo e inspirador” e voltou a apelar à convergência dos votos da esquerda na sua candidatura. Por seu lado, Catarina defendeu que “a esquerda precisa de muito mais clareza e menos jogos, muito mais esperança e menos calculismos”, lembrando que noutras eleições presidenciais “Maria de Belém estava muito bem nas sondagens e deixou de estar”.