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Uma bota está a esmagar o pescoço da democracia americana

Para o filósofo e ativista dos direitos humanos Cornel West, há uma questão fundamental neste momento: podem os Estados Unidos ser reformados?
Cornel West durante uma palestra em 2018 na Arizona State University. Foto de Gage Skidmore/Flickr

Aqui vamos nós outra vez. Mais uma pessoa negra morta pela polícia americana. Mais uma onda de resistência multirracial. Mais um ciclo de discussão racial nos meios de comunicação social corporativos. Mais uma demonstração de diversidade com os líderes neoliberais e, em breve, mais uma reação negativa dos brancos. No entanto, esta vez pode ser um ponto de viragem.

A morte inegavelmente bárbara de George Floyd, as inevitáveis realidades cruéis da miséria desigual do coronavírus, o desemprego massivo aos níveis de depressão e o colapso total da legitimidade da liderança política (em ambos os partidos) estão a fazer cair a cortina sobre o império americano.

A crescente militarização da sociedade americana é inseparável das suas políticas imperiais (211 destacamentos de forças armadas americanas em 67 países desde 1945). A resposta militarista ao assassinato de Floyd revela uma história de presença policial sobredimensionada, agressões sem provocação e força excessiva. Ironicamente, o debate enganador sobre desordeiros contra manifestantes e agitadores externos contra cidadãos locais legítimos desvia a atenção da forma como a forte presença da polícia alimenta o desrespeito pela polícia. O enorme contraste com a resposta da polícia aos provocadores de direita que aparecem dentro e fora das sedes estaduais com armas e munições carregadas é imenso.

Recordo-me da minha própria experiência de protesto em Charlottesville, Virgínia, contra centenas de nazis mascarados e armados com balas reais, em que a polícia recuou e permaneceu quieta e silenciosa enquanto éramos impiedosamente atacados. Sem a intervenção e a proteção dos antifa , alguns de nós teríamos morrido. A Irmã Heather Heyer morreu de facto. Creio que o ataque a qualquer pessoa inocente é errado, mas o enfoque nos ataques dos manifestantes a pessoas ou bens desvia a nossa atenção da matança policial de centenas de pessoas negras, pobres e da classe trabalhadora.

Também escamoteia o papel do aparelho repressivo na preservação de uma ordem tão injusta e cruel. A lei do grande capital, as hierarquias de classe e de género e o militarismo global devem ser realçados na nossa profunda preocupação com o assassinato e a brutalidade policial contra os negros.

As quatro catástrofes de que Martin Luther King Jr. nos alertou - o militarismo (na Ásia, África e Médio Oriente), a pobreza (a níveis recorde), o materialismo (com vícios narcisistas do dinheiro, da fama e do espetáculo) e o racismo (contra pessoas negras e indígenas, muçulmanos, judeus e imigrantes não brancos) - puseram a nu o ódio organizado, a ganância e a corrupção no país. A máquina assassina dos militares americanos, aqui e no estrangeiro, perdeu a sua autoridade. A economia capitalista, orientada para o lucro, perdeu o seu brilho. E o glamour da cultura orientada pelo mercado (incluindo os meios de comunicação social e a educação) é cada vez mais vazio.

A questão fundamental neste momento é: pode esta experiência social fracassada ser reformada? O duopólio político de um crescente partido republicano neofascista liderado por Donald Trump e de um partido neoliberal democrata liderado por Joe Biden - de forma alguma equivalentes, embora ambos devam obediência a Wall Street e ao Pentágono - são sintomas de uma classe dirigente decadente. A fraqueza do movimento operário e a dificuldade actual da esquerda radical em se unir em torno de um projecto revolucionário não violento de partilha democrática e redistribuição do poder, riqueza e respeito, são sinais de uma sociedade incapaz de recuperar o melhor do seu passado e do seu presente. Qualquer sociedade que se recuse a eliminar ou atenuar habitações degradadas, sistemas escolares decrépitos, encarceramento em massa, desemprego em massa e subemprego, cuidados de saúde inadequados e as suas violações de direitos e liberdades, é indesejável e insustentável.

No entanto, a magnífica coragem moral e sensibilidade espiritual da resposta multirracial ao assassinato policial de George Floyd que agora se traduz numa resistência política ao saque legalizado da ganância de Wall Street, à pilhagem do planeta e à degradação das mulheres e dos povos LGBTQ+ significa que continuamos a lutar independentemente das probabilidades.

Se a democracia radical morrer na América, que se diga de nós que demos tudo e mais alguma coisa enquanto as botas do fascismo americano tentavam esmagar-nos o pescoço.


Artigo publicado no Guardian a 1 de junho de 2020. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net.

Cornel West é filósofo e ativista, autor de vários livros e membro da Academia Americana de Artes e Ciência.

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