Está aqui

Respirar

É essencial que esta enorme vaga de indignação e mobilização por justiça se traduza em mudanças reais e profundas. Artigo de Beatriz Gomes Dias.
Beatriz Gomes Dias, deputada do Bloco de Esquerda - Foto de António Cotrim/Lusa
Beatriz Gomes Dias, deputada do Bloco de Esquerda - Foto de António Cotrim/Lusa

Não consigo respirar. Estas foram as últimas palavras de George Floyd, um homem negro americano de 46 anos, que foi torturado e assassinado por um polícia branco, no dia 25 de maio.

As palavras de George Floyd, as mesmas que em 2014 foram ditas por Eric Garner, também ele uma vítima mortal da brutalidade policial, ressoam com uma crueza e violência perturbadoras. Mas são também uma metáfora poderosa para compreender os efeitos do racismo estrutural e institucional que asfixia e oprime a vida e os sonhos das pessoas negras.

Este homicídio insere-se numa cultura de violência e desumanização das pessoas negras que se alicerça no preconceito e discriminação racial. Estes processos foram histórica e socialmente construídos e remontam à exploração capitalista de pessoas escravizadas.

A herança escravocrata continua viva e ativa na sociedade americana

A herança escravocrata continua viva e ativa na sociedade americana. As pessoas negras continuam a enfrentar obstáculos ao exercício pleno da sua cidadania e a ser desproporcionalmente afetadas por múltiplas formas de violência, desigualdade e exclusão social.

A violência policial é inegavelmente uma das dimensões mais expressivas e letais do racismo na sociedade americana. É um legado da escravatura, dos linchamentos, da segregação racial. Os corpos negros continuam a ser percecionados como subalternos, inferiores, primitivos, perigosos. Sujeitos à violência discricionária, supremacista e colonial. Quando assistimos à morte de uma pessoa negra, o que nos é revelado é o projeto de dominação dos corpos negros e da perpetuação da sua exploração, um instrumento primordial de afirmação do capitalismo.

A morte de George Floyd engrossa a longa lista de pessoas negras assassinadas pela polícia nos Estados Unidos. Os dados da organização Mapping Police Violence revelam que naquele país as pessoas negras têm três vezes mais probabilidade de serem mortas pela polícia do que as pessoas brancas.

Quando a indignação por este caso esmorecer, não pode esmorecer com ela a luta contra o racismo e pela transformação das estruturas, instituições e processos que o suportam

Os milhares de pessoas que se têm mobilizado em manifestações em inúmeras cidades nos Estados Unidos reivindicam justiça para George Floyd e igualdade de direitos. Combatem a política da “lei e ordem” defendida e implementada por Trump e por muitos dos seus antecessores, eufemismo para a repressão e o encarceramento em massa de que a comunidade negra tem sido o alvo preferencial. Exigem justiça racial, clamando que “as vidas negras importam”, as vidas das pessoas sobre os ombros das quais se construiu a riqueza e prosperidade da sociedade que historicamente os exclui e marginaliza.

É essencial que esta enorme vaga de indignação e mobilização por justiça se traduza em mudanças reais e profundas, tão profundas como as causas do racismo que esteve na origem deste e de tantos outros crimes. Quando a indignação por este caso esmorecer, não pode esmorecer com ela a luta contra o racismo e pela transformação das estruturas, instituições e processos que o suportam. Esta tem de ser uma luta quotidiana, porque o racismo acontece todos os dias, nos Estados Unidos, como aqui. Só quando vencermos esta luta é que conseguiremos respirar.

(...)

Resto dossier

EUA: Protestos no país que não consegue respirar

A morte de George Floyd voltou a despertar os Estados Unidos para o combate ao racismo e à brutalidade policial. A extrema-direita que ocupa a Casa Branca ameaça com a repressão militar dos manifestantes e a criminalização dos antifascistas. Dossier organizado por Luís Branco.

A histeria "Antifa" de Donald Trump é absurda. Mas também é muito perigosa

Antifa ocupa no imaginário da direita o papel do Partido Comunista em meados do século XX. Enquanto alguns na direita associam antifa aos anarquistas, outros rotulam-los frequentemente de comunistas ou marxistas, destacando a continuidade com a “ameaça vermelha” do passado. Artigo de Chip Gibbons.

Uma bota está a esmagar o pescoço da democracia americana

Para o filósofo e ativista dos direitos humanos Cornel West, há uma questão fundamental neste momento: podem os Estados Unidos ser reformados?

#BlackLivesMatter, um movimento da internet para as ruas

Criado por três mulheres negras, Black Lives Matter começou por ser um hashtag de denúncia da violência policial contra pessoas negras nos Estados Unidos da América para se tornar num movimento não hierárquico com representação em mais de quarenta cidades.

Trump

Isto é Fascismo

Não há dúvida de que o fascismo de Trump já foi sangrento e bárbaro para muitos seres humanos. Mas até aos últimos dias não era claro se a Casa Branca poderia mobilizar em massa os seus apoiantes armados para a violência. Artigo de Adam Weinstein.

Alex Vitale: A melhor forma de “reformar” a polícia é cortar-lhe o financiamento

Nesta entrevista à Jacobin, o sociólogo Alex Vitale afirma que a polícia norte-americana “é a face pública do fracasso do Estado em prover às necessidades básicas das pessoas, e em esconder esse fracasso com soluções que apenas prejudicam mais as pessoas”.

 

A militarização tem fomentado uma cultura policial que coloca os manifestantes como "o inimigo"

Neste artigo, o ex-polícia e professor de Sociologia e Justiça Criminal Tom Nolan fala do processo de militarização da polícia iniciado após o 11 de Setembro, concluindo que as consequências desta mentalidade policial militarizada “podem ser mortais, especialmente para os americanos negros”.

Beatriz Gomes Dias, deputada do Bloco de Esquerda - Foto de António Cotrim/Lusa

Respirar

É essencial que esta enorme vaga de indignação e mobilização por justiça se traduza em mudanças reais e profundas. Artigo de Beatriz Gomes Dias.

Trump e Twitter

O porno autoritário de Trump tem muitos fãs

Uma nação liderada por um homem que é um cobarde, um rufia, um mentiroso e um sádico está a ser policiada por forças que o admiram e ao que ele representa. Artigo de Joan Walsh.