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Um triunfo eleitoral mudou o governo, mas não o poder

Qualquer concessão importante que AMLO faça à sua base — e deverá fazê-las — provocará a saída do círculo governamental de uma parte dos direitistas refugiados no Morena e aumentará o temor de Washington. Artigo de Guillermo Almeyra.
Foto Armando Simonin/Flickr

A Andrés Manuel López Obrador (AMLO) deve reconhecer-se a sua tenacidade e persistência — foi candidato em 2006, 2012 e 2018 e soube construir uma máquina eleitoral vencedora — mas também é necessário criticar pelo seu pragmatismo sem preconceitos, que lhe serviu para conseguir uma ampla base de massas mas sem mobilizá-las e, ao mesmo tempo, obter a simpatia de uma parte das classes dominantes.

A sua vitória eleitoral premeia as suas qualidades e a curto prazo também a sua astúcia, porque juntou no Morena interesses opostos e isso permitiu-lhe ganhar, pois como escrevia Nicanor Parra, “a esquerda e a direita unidas jamais serão vencidas”.

Mas o verdadeiro autor deste triunfo histórico, que tirou do governo os que o ocupavam desde os anos trinta, é o povo mexicano, com as suas lutas heróicas pagas com um alto preço de sangue.

Foram os jovens dos bairros da Cidade do México que se auto-organizaram, compreendera, e superaram a impotência e a incapacidade do governo e resgataram as vítimas do terrível terramoto de 1985, fazendo assim uma importante experiência política que, pouco depois, levou à rotura da ala esquerda do partido-Estado, o PRI.

A vitória da candidatura de Cuauhtémoc Cárdenas e do recém criado PRD na eleição de 1988, expropriada pela fraude do PRI, foi também resultado do impulso dos trabalhadores do campo e da cidade e dos jovens despertados para a luta política pelas mobilizações e matanças de 1968 e 1970 e as lutas dos ferroviários e dos médicos, e estimulados pela revolução cubana, o Vietname e a descolonização. O levantamento de 1994 dos indígenas dirigidos pelo zapatismo em Chiapas, bem como a força da corrente católica da Teologia da Libertação que os apoiava, foi também consequência direta dessas lutas anteriores e dessa fraude eleitoral descarada.

López Obrador conseguiu, primeiro, a direção do PRD e depois o governo da Cidade do México graças a essa força permanentemente em luta apesar das matanças e desaparecimentos de dirigentes camponeses, indígenas e de militantes jovens. Apoiou-se nessa força para vencer em 2006 a eleição presidencial que a fraude lhe roubou e para, uma vez afastado do PRD corrupto e formado o seu próprio Movimento de Renovação Nacional (Morena), sofrer novamente a fraude em 2012 e conquistar um apoio de massas durante todo o sexénio do PRI aliado ao PAN e ao PRD, à hierarquia da Igreja católica e às outras forças da direita e ultradireita. Pôde ganhar apesar de quase um quarto de milhão de mortos e desaparecidos, porque face ao narcotráfico fortemente armado e à corrupção policial, os indígenas e camponeses organizaram grupos de autodefesa e polícias comunitárias e responderam às leis antioperárias criando sindicatos combativos.

Os capitalistas “bons” querem travar

Um setor de capitalistas — os que temem sobretudo pelo mercado interno, as PMEs, comerciantes, indústria ligeira — e um setor nacionalista nas forças armadas (farto de fazer de polícia e ofendido pela brutalidade de Trump que o PRI aceitava sem pestanejar) preferiu ter AMLO como presidente a ter de enfrentar uma enorme onda de protestos e manifestações, inevitáveis em caso de nova fraude.

Tal como fizeram os ditadores militares argentinos quando levaram Péron — que tinham deposto em 1955 — de novo para o governo, para travar e reprimir a o protesto dos operários peronistas, essa gente está a preparar um contra-fogo. Mas López Obrador não tem um partido real (Péron contava por seu lado com os sindicatos burocratizados) e não poderá travar as reivindicações democráticas e sociais que começarão a colocar-lhe em breve os que sabem que são pilares de uma mudança que não será apenas de ocupantes da Presidência. Com quase todos os governadores e maioria em ambas as Câmaras, AMLO não tem argumentos para tergiversar, para não atuar de imediato.

Os Estados Unidos consideram o México como um problema interno, uma parte do seu território. O petróleo mexicano já está quase todo nas suas mãos, bem como os maiores bancos e as principais indústrias e o Comando Sul do exército estadunidense controla o México a partir do Texas. Trump insistirá com o muro e com a expulsão dos imigrantes centro-americanos e mexicanos, os quais forçosamente voltarão ao México deixando de enviar remessas e juntando-se ao exército de desocupados. O protecionismo, por sua vez, estimulará a desvalorização do peso e assim rebentarão novas greves e mobilizações.

Nem o Departamento de Estado passa um cheque em branco a AMLO nem este é operacional para Washington, que o vê como demasiado dependente do seu apoio de massas e por isso potencialmente perigoso. Qualquer concessão importante que AMLO faça à sua base — e deverá fazê-las — provocará a saída do círculo governamental de uma parte dos direitistas refugiados no Morena e aumentará o temor de Washington.

Esta é a hora em que todos, por interesse ou por oportunismo político, se convertem em seguidores de AMLO e criticam como sectários os que prevêem o que vai acontecer quando “desembrulharem o pacote”. Os anticapitalistas naturalmente regozijam-se com este triunfo eleitoral que mudou o governo, embora não o poder, e juntamente com os eleitores de AMLO lutarão pela revogabilidade dos mandatos dos governantes, pela realização de referendos a cada decisão que comprometa a nação, pela concessão imediata dos direitos dos povos indígenas, pela redução dos salários altíssimos dos deputados e aumentos gerais de salários e reformas, pela igualdade e defesa das mulheres, pela anulação de todas as leis antinacionais, antioperárias e reacionárias aprovadas pelos anteriores governos, pela defesa dos recursos naturais e sobretudo da água, afetados pelas grandes empresas mineiras, e a deflorestação, pela desmilitarização do país e a auto-organização bairro a bairro e comunidade a comunidade de polícias comunitárias eleitas em assembleia para extirpar o narcotráfico e a delinquência.


Artigo publicado no portal argentino El Furgón

Sobre o/a autor(a)

Historiador, investigador e jornalista. Doutor em Ciências Políticas (Universidade de París VIII), professor-investigador da Universidade Autónoma Metropolitana, unidade Xochimilco, do México, professor de Política Contemporânea da Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Autónoma do México. Jornalista do La Jornada do México.
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