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Marichuy, a candidata dos povos indígenas que não chegou ao boletim de voto

A porta-voz do Conselho Nacional Indígena, com apoio dos zapatistas, não conseguiu alcançar a fasquia das mais de 860 mil assinaturas necessárias para a candidatura presidencial.
Comício de Marichuy na cidade universitária da capital mexicana. Foto Eneas De Troya/Flickr

“Aparecer no boletim eleitoral é só para os que pretendem administrar o poder a partir de cima oprimindo os de baixo, porque o poder que procuram está podre em todas as suas partes”, acusam o Congresso Nacional Indígena, o Conselho Indígena de Governo e a Comissão Sexta do Exército Zapatista de Libertação Nacional no comunicado divulgado em maio.

Durante vários meses, María de Jesús Patrício Martínez, conhecida como Marichuy, percorreu as comunidades indígenas em vários estados mexicanos. Sem os meios das outras candidaturas, o roteiro de Marichuy passou por aldeias isoladas e quase inacessíveis. Numa dessas viagens, o autocarro da campanha capotou, provocando a morte de uma voluntária e ferimentos em Marichuy, que teve de ser operada.

Aos 54 anos, a história de vida de Marichuy é também uma história de luta contra a dupla discriminação de que é alvo, enquanto mulher e indígena. Trabalhou a terra em criança e estudou às escondidas do pai, que a proibiu de frequentar a escola, tornando-se especialista em medicina natural e professora na Universidade de Guadalajara.  

A população indígena representa 10% dos mexicanos, que concentram os maiores índices de pobreza e exclusão. O avanço dos projetos de exploração de minérios e de fábricas industriais nas zonas indígenas, ameaçando o território e a água, fizeram aumentar o número de assassinatos e desaparecimentos por entre as comunidades que resistem à destruição das suas terras. A par da luta contra a repressão e da afirmação do papel da mulher numa sociedade marcadamente patriarcal, na agenda de Marichuy esteve também a denúncia da reforma energética de 2015, que passou a permitir o investimento estrangeiro na indústria petrolífera e assim aumentar o ritmo de expropriações que despojaram os povos indígenas das suas terras.

A falta de uma estrutura política consolidada prejudicou as aspirações da pré-candidata, a par de questões logísticas —o registo das assinaturas era feito por uma aplicação num smartphone, o que requer acesso à internet díficil de obter em muitas comunidades. Marichuy conseguiu recolher mais de 280 mil assinaturas e conseguiu pelo menos vencer o campeonato da honestidade: foram validadas 93% das assinaturas recolhidas, o que contrasta com os números dos candidatos de grandes partidos como o PRI, PRD e PAN, sempre abaixo dos dois terços de assinaturas validadas.

“A esquerda do México não está lá em cima. Está aqui em baixo e está a sofrer. Está a morrer. Ela precisa de um antídoto, que é a organização”, dizia Marichuy em dezembro ao El País. Se fosse eleita presidente do México, prometia, seria realizado um grande plenário para repensar a organização do país. “Nas localidades indígenas, discute-se um tema até que tudo fique claro e se chegue a um consenso. Não saímos se não houver acordo, podem passar um, dois, três dias. Há que ter paciência para analisar e ouvir a situação”, explicava a pré-candidata, consciente da dificuldade de transpor o modelo para a escala do país mas esperançada em que “é possível construir algo novo” que garanta a participação de toda a gente.

Mais do que a recolha de assinaturas, a caravana de Marichuy pretendeu lançar sementes de organização nas comunidades “onde a terra é despojada para que deixe de ser coletiva e fique nas mãos dos ricos, para que os territórios sejam ocupados e destruídos por empresas mineiras, os aquíferos devastados para a extração de hidrocarbonetos, os rios contaminados, a água privatizada por represas e aquedutos, o mar e o ar privatizados pelos parques eólicos e a aviação, as sementes nativas contaminadas por transgénicos e tóxicos químicos, os territórios configurados para o funcionamento do narcotráfico transnacional, a organização de base submetida pela violência terrorista dos grupos narco paramilitares que servem os maus governos”, como diz o comunicado subscrito pelas organizações indígenas e zapatistas.

“É aí que brilha a esperança que fomos procurar, como é também a sociedade civil organizada nas cidades com a Sexta, com os grupos e Redes de apoio ao CIG que não apenas saíram para mostrar a sua solidariedade e fazer uma agenda em todo o país, como foram construir a partir de baixo, a partir das próprias ruínas capitalistas, um país melhor e um mundo melhor”, sublinham.

O próximo passo do Congresso Nacional Indígena e do Conselho Indígena de Governo será dado no próximos dias 28 e 29 de julho, com a realização de um Encontro Nacional de Mulheres em San Lorenzo Nenamicoyan “para que em coletivo e com organização de base, anticapitalista, antipatriarcal, apartidária, construamos um governo de mulheres e homens que obedeçam aos povos organizados a partir das suas assembleias e construamos este mundo onde caibam muitos mundos”.

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