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No México, a tentação de ter esperança

O México de 2018 não se parece com a Venezuela em meados dos anos 2000. No poder, Amlo deverá pilotar um Estado enfraquecido. Por Renaud Lambert, do Le Monde Diplomatique.
Ilustração no Le Monde Dilomatique - edição brasileira,

Um estúdio de televisão como qualquer outro. Como acontece em todo o mundo, jornalistas mexicanos reuniram os candidatos à presidência para um debate. As roupas, os cortes de cabelo, os sorrisos treinados: nada distingue a cena de outras análogas francesas, alemãs ou norte-americanas. Até que um dos candidatos começa a procurar algo atrás do seu palanque. Assim que se recompõe, José Antonio Meade, candidato do Partido Revolucionário Institucional (PRI, direita), exibe um papel pouco legível que apresenta à câmera: com grifos e flechas apontando nomes, o documento demonstrava o enriquecimento ilícito daquele que havia acabado de interpelá-lo, Ricardo Anaya Cortés, candidato de uma coligação liderada pelo Partido de Ação Nacional (PAN, direita) e o Partido da Revolução Democrática (PRD, centro-esquerda). Sem se desfazer do sorriso, este último procura algo em suas pastas e tira um punhado de papéis datilografados: eles provam manipulações fraudulentas orquestradas pelo homem que acabava de acusá-lo. Reunidos na imagem, os cinco candidatos se agitam atrás dos palanques, mexem em papéis e fichas, pedem a palavra… Durante toda a transmissão, acusações de infração são atiradas para todos os lados, sem abalar os seus alvos. O principal tema em torno do qual os candidatos combinaram debater nesse 22 de abril de 2018? As medidas que tomariam, uma vez no poder, para lutar contra a corrupção.

Do ponto de vista dos dirigentes políticos, o México parece uma imensa piñata, essas figuras de papelão recheadas de doces e brinquedos que as crianças rompem a golpes de bastão em festas de aniversário. Uma piñata que a cada eleição é novamente recheada. Durante o mandato do atual presidente, Enrique Peña Nieto (PRI), uma enxurrada de escândalos conduziu dezesseis governadores, ou ex-governadores, a responder perante a justiça e, em alguns casos, a ir para trás das grades. Um deles, Javier Duarte, destacou-se por desviar US$ 3 mil milhões na sua passagem pelo estado de Veracruz. Ao contar tantos zeros, a corrupção passou, há tempos, de hobby de dirigentes políticos sem escrúpulos a atividade económica a tempo inteiro. Em 2015, o Banco Mundial estimava a sua participação no PIB em 9%,[1 ou seja, mais que o turismo.

Suborno para ter água corrente

Para alguns, a situação apresenta algumas vantagens. Depois de agraciar a empresa espanhola Iberdrola (especializada na exploração de gás) durante a sua passagem pela presidência, Felipe Calderón (2006-2012) agora goza de uma participação no conselho administrativo da companhia. Preocupada com uma investigação sobre casos de corrupção ligados à empresa brasileira Odebrecht, a maioria dos deputados mexicanos votou, em março passado, contra a perseguição de altos funcionários culpados de enriquecimento pessoal. Mais recentemente, o tribunal eleitoral validou a candidatura à presidência do governador do estado de Nuevo León, Jaime Heliódoro Rodríguez Calderón, mesmo com 58% das assinaturas necessárias terem sido consideradas fraudulentas. “As normas indicam que é preciso um número suficiente de assinaturas”, justificou um dos magistrados. “Não indicam, contudo, que as assinaturas precisam ser validadas” (El País, 12 abr. 2018).

De acordo com certas estimativas, os lares mexicanos consagram cerca de 14% dos seus salários para satisfazer as exigências de funcionários corruptos – número que sobe para 33% nas famílias que recebem um salário mínimo.[2] Do lado das empresas, mais de um terço declara ter pago suborno para obter um contrato público e 36,7% para obter uma simples ligação de água corrente (contra médias de 15,8% e 8,5%, respectivamente, na América Latina).[3] Alguns esvaziam a piñata; outros recheiam-na.

Esse contexto, sem dúvida, explica o avanço do candidato Andrés Manuel López Obrador, chamado de “Amlo”, nas sondagens de opinião.[4] Desde sempre Amlo se gaba pelo seu combate à “máfia que se apropriou do México” – título de um de seus muitos livros, publicado em 2010. Essa constância terminou por convencer que ele traduz uma convicção.

Mas os mexicanos realmente decidem o destino do México? “Todas as vezes que se candidatou, Amlo liderou as sondagens de intenção de voto”, lembra o historiador Massimo Modonesi. “Ainda assim, o candidato do sistema sai sempre vencedor.” E isso é anterior à primeira candidatura de Obrador.

Em 1988, quem perturbava a ordem era Cuauhtémoc Cárdenas. Dissidente interno do partido no poder, ele rejeitava a linha direitista da agremiação. Na noite do pleito, quando ele estava à frente, o sistema de contagem “empanou”. Quando os resultados foram finalmente anunciados, seu adversário, Carlos Salinas de Gortari, estava no topo. Em 1994: o candidato do PRI, Luis Donaldo Colosio Murrieta, ameaçou romper com a linha de seu predecessor. Foi assassinado. Em 2000: dessa vez, a normalidade institucional não sofreu nenhuma investida. A “transição democrática”, cuja irrupção foi celebrada pelo poder após 71 anos de reinado sem interrupção do PRI, trocou um representante do sistema por seu sósia político, encarnado no PAN: o ex-diretor da Coca-Cola Vicente Fox. 2006: na sua primeira campanha, López Obrador propõe sair do emaranhado neoliberal em que o México se enredou. Uma fraude maciça priva-o da vitória. 2012: Amlo tenta a sorte mais uma vez. As manobras do PRI e o apoio dos grandes meios de comunicação levam Peña Nieto à presidência.

López Obrador não ignora esse contexto. “Para mudar as coisas, há duas opções: a luta armada ou a via eleitoral”, declarou durante um programa de televisão do grupo Milenio, no dia 21 de março de 2018. “Acredito que é possível transformar o México de forma pacífica. […] E, embora as cartas já estejam marcadas, lanço-me na batalha eleitoral. Não é uma contradição, é apenas porque não tenho escolha. […] Às vezes, é um caminho mais difícil que a via armada. Porque nos sujeitamos ao Estado: um Estado antidemocrático e autoritário. Não tenho ilusão, já vivi fraude eleitoral. Mas não renunciei à esperança.”

Pessimismo da razão e otimismo da vontade? Não apenas. “O México atravessa uma crise de extrema violência”, analisa o sociólogo Mateo Crossa. “Essa situação evidentemente toca as populações mais pobres, mas passou a afetar igualmente a burguesia, que está a desfazer-se. Pela primeira vez, ela multiplica os candidatos, o que é bom para Amlo.” Nem o PAN nem o PRI conseguiram firmar aliança. No interior do primeiro, a candidatura de Anaya não convenceu os próximos do ex-presidente Calderón, cuja esposa, Margarita Ester Zavala Gómez del Campo, se apresenta como candidata independente. No interior do PRI, a nomeação de Meade pelo atual presidente, Peña Nieto – desacreditado e suspeito de enriquecimento ilícito –, provocou uma fuga de quadros para a Morena, formação de Obrador.

“Se estão a chantagear-te, expropria-os”

Apesar dos desacordos (e da troca de amabilidades de seus candidatos no debate de abril), um pacto entre o PRI e o PAN não está totalmente descartado. Mas Crossa acrescenta um segundo fator que joga a favor de López Obrador. “O país nunca teve tanto descrédito na classe política e nunca sofreu tanto com a corrupção. A situação atual não pode durar. Ora, Amlo dispõe de algo que falta na elite: legitimidade.” Numa notícia publicada no dia 27 de março último, Valeriano Suárez, vice-presidente da Coparmex, um dos principais organismos patronais, dizia a mesma coisa: “É verdade que o exemplo de um presidente determinado a mostrar-se não corrompível seria ideal para impulsionar a transformação do sistema que rege o nosso mundo político e os seus apêndices do setor privado” (El Sol de México).

Daí a apoiar um dirigente político de esquerda é outra coisa: uma parte do eleitorado recusa-se a dar esse passo. López Obrador assumiu por missão encorajar essas pessoas, multiplicando os discursos moderados. O seu slogan preferido? “Amor e paz”, o mesmo escolhido por Luiz Inácio Lula da Silva para ganhar as elites brasileiras em 2002. “Dada a gravidade da situação e a profundidade da crise, prevemos uma espécie de trégua, […] para fazer que as coisas se mantenham em ordem”, explicou durante a transmissão organizada pela Milenio – o que suscitou uma reação entusiasmada do editorialista Jesús Silva Herzog: “Tenho a impressão de que você está assumindo plenamente, e com certo orgulho, uma posição abertamente conservadora”.

Se por um lado Amlo permanece o único candidato a evocar a soberania alimentar do país, a querer mergulhar nas raízes sociais da violência, a denunciar os baixos salários e a prometer melhorar a universidade, por outro ele tranquilizou os setores mais conservadores da sociedade ao se aliar ao Partido Encuentro Social (PES), evangélico e contrário ao aborto[5] – assim como grande parte da população e a maioria das formações políticas. Amansou o Exército prometendo não intervir na Lei de Segurança Interna, votada em dezembro de 2017, que endossa a presença de militares nas ruas e amplia as prerrogativas a ponto de provocar inquietação na ONU e em organizações de defesa dos direitos humanos.[6] O seu programa também seduziu alguns atores do setor privado, que consideram atualmente, com o Financial Times, que López Obrador “não é tão perigoso como muitos imaginam” (24 jan. 2018).

A hostilidade, contudo, permanece viva no interior de um patronato pouco habituado a receber provocações. “Por mais paradoxal que possa parecer, a Morena representa a melhor opção para os empresários”, reafirma Martí Batres, um dos dirigentes do partido, antes de referir-se efetivamente aos pontos do programa: “Acabar com extorsões e subornos que entravam os negócios”, “não aumentar os impostos”, “conservar os grandes equilíbrios macroeconômicos” e “criar zonas francas para facilitar o investimento privado por meio de benefícios fiscais” (El Universal, 6 mar. 2017). “Nada de confiscos, expropriações ou nacionalizações. Nada de corrupção. Nada de problemas”, resumiu o candidato diante dos banqueiros do país reunidos em sua conferência anual.[7] López Obrador permanece, ainda assim, muito à esquerda para muitos donos de empresas, que tentam desacreditá-lo comparando-o com outro populista: o presidente norte-americano, Donald Trump, que os mexicanos execram.

Acusação inversa parte do outro lado do tabuleiro político: “Morena, a direita disfarçada de esquerda”, resume uma caricatura que circula nas redes sociais. Alguns sem dúvida prefeririam ver outro Hugo Chávez chegando ao poder. Evidentemente, López Obrador não o é. Mas o México de 2018 também não se parece com a Venezuela em meados dos anos 2000, quando o preço das matérias-primas decolou. No poder, Amlo deverá pilotar um Estado enfraquecido. Milícias e cartéis contestam o monopólio legítimo da violência (estatal) em algumas regiões. O Exército e os serviços de informação do seu poderoso vizinho do norte administram, financiam e às vezes supervisionam seus próprios serviços de segurança. As instituições administrativas, eleitorais e fiscais sofrem de um profundo descrédito. E, desde os anos 1980, a economia foi reestruturada com o único objetivo de fornecer mão de obra barata às transnacionais norte-americanas. Com ou sem Chávez, a margem de manobra mostra-se limitada…

“Imagine se ganharmos as eleições”, lançou o romancista Paco Ignacio Taibo II aos militantes da Morena, da qual ele é membro. “O Congresso será contra nós, porque seremos um grupo minoritário, 35% no máximo. A maioria dos governadores? É do PRI e do PAN, ou ainda pior, do PRD. […] Então veja: Andrés Manuel está em Los Pinos [residência do chefe de Estado] no dia seguinte de sua posse. Ele recebe uma comissão de grandes empresários que dizem: ‘Cuidado, Andrés, porque, se continuar assim, deslocaremos nossas empresas para a Costa Rica’. […] E, se isso acontecer, é preciso que sejamos 2 milhões ou 3 milhões nas ruas dizendo: ‘Se eles estão a chantagear-te, Andrés, expropria-os. Que se lixem!’. […] A pressão que essas pessoas podem exercer sobre um dirigente – radical, competente, honesto – é imensa. É preciso um movimento social que leve à mudança.”[8]

A capacidade de mobilização da Morena existe: foi minuciosamente construída para responder às solicitações de seu dirigente. Uma vez no poder, ele incentivaria seus militantes a pressionar as trincheiras do sistema?

 

*Renaud Lambert é jornalista do Le Monde Diplomatique. Artigo publicado na edição brasileira do Le Monde Diplomatique

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