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Ucrânia: A Primavera dos Povos chegou já à Europa

A Primavera árabe chegou, no inverno de 2010, à vizinhança da Europa: nos países situados do outro lado do Mediterrâneo. Quatro anos depois, vemos que a Primavera dos Povos não é somente árabe. Também no inverno, irrompeu na Europa, ainda que, para falar verdade, apenas numa periferia exterior da União Europeia. Por Zbigniew Marcin Kowalewski.
O que dominava em Maidan era a auto-organização e uma inquebrantável vontade de lutar até a vitória: até o derrube do regime. Fotografia de Nessa Gnatoush, wikimedia commons

Talvez não nos déssemos conta até que ponto o processo de integração capitalista da Europa contribui para uma acumulação explosiva de tensões nas periferias próximas, mas ainda extra-europeias, e ainda mais, como se revela agora, nas já europeias. Desta vez a relação era direta, claramente visível: num primeiro momento, o conflito começou na Ucrânia a propósito da questão da adesão à UE. Foi a primeira palavra de ordem sob a qual começaram a reunir-se as multidões, nasceu um movimento social de massas e se desencadeou uma enorme tempestade que ameaçava até provocar uma guerra. Não uma guerra civil, como na Líbia ou na Síria, ainda que na Rússia e em todas as redes de propaganda ligadas a ela no mundo se contasse muito com a explosão na Ucrânia de uma guerra civil e esta fosse incitada.

Uma Primavera dos Povos sempre surpreende: chega a um país completamente de surpresa, como um trovão que cai do céu limpo. No entanto, depois descobre-se que não havia nada de estranho em que caísse ali e não noutro lado. Foi assim também neste caso. A Ucrânia é uma gigantesca anomalia histórica no mapa político do mundo: um desvio com respeito a um “valor típico” muito importante, pelo menos no âmbito europeu. O maior país da Europa após a Rússia em termos de superfície e um dos maiores em população, a Ucrânia é um Estado independente desde há pouco mais de 23 anos, num continente onde o “valor típico” são os Estados nacionais de todos os maiores povos, incluindo os muitíssimo menores que o ucraniano. As anomalias históricas têm uma característica especial: em torno delas acumulam-se, agitam-se e entrelaçam-se as mais diversas contradições que, bem mais facilmente que noutros lugares, se convertem em barris de pólvora.

O peso de uma opressão secular

Sobre a Ucrânia pesa um extraordinário ónus da opressão nacional, principalmente polaca e russa, que durou vários séculos1. Na Ucrânia soviética, após uma intensa ação afirmativa chamada “ucranização”, que durou só alguns anos, voltou-se à política de russificação, com a instauração do regime estalinista, por trás do qual ressurgia o imperialismo russo. A intelectualidade foi exterminada e a fome condenou à morte vários milhões de camponeses que constituíam a base da identidade nacional ucraniana. Após a Segunda Guerra Mundial, a russificação abarcou todas as terras ucranianas – agora reunidas, ainda que na Ucrânia ocidental, que anteriormente vivia sob o jugo colonial polaco, uma vigorosa resistência antissoviética dos nacionalistas ucranianos manteve-se até à metade dos anos cinquenta. Fora o período em que o poder na Ucrânia foi exercido por Petro Shelest (1963-1972), a russificação não foi abandonada quase até a queda da União Soviética. Nas vésperas da proclamação da independência da Ucrânia, assinalei na revista Nouvelle Europe, editada no Parlamento Europeu : “O que torna vulnerável o processo ucraniano é o facto de que, enquanto nação sem Estado, submetida a uma opressão secular, ela não concluiu ainda a sua formação nacional.”2 Não a concluiu até hoje. Um pouco mais de duas décadas de existência estatal são demasiado breves para curar grandes cicatrizes, fechar as divisões e eliminar as numerosas feridas que a opressão nacional deixou no seio da sociedade ucraniana.

Daí resulta a grande desigualdade da já segunda – após a “revolução laranja”– sublevação das massas nas diferentes regiões do país. Voltada contra um regime cuja retaguarda principal se encontra nas regiões orientais e meridionais, estendeu-se nas ocidentais e centrais, as mesmas que foram os berços dos movimentos independentistas após a Primeira Guerra Mundial. Daí resulta também uma contradição paradoxal entre este movimento nacional tão atrasado historicamente, que aspira a consolidar um Estado independente, e a sua vontade de aderir à União Europeia, a qual, servindo a globalização capitalista, debilita os Estados nacionais e restringe a sua soberania.

Assinalar esta contradição não significa em absoluto concordar com os que, por um lado, gozam dos privilégios de pertencer à rica e exclusiva Festung Europa e nos seus próprios países não chamam a sair dela, mas, por outro lado, desaconselham encarecidamente a adesão da Ucrânia à mesma ou até a estigmatizam por desejar fazê-lo. É uma manifestação do chauvinismo dos privilegiados. O acesso ao mercado de trabalho da União Europeia salvou da fome e da miséria milhões de polacos; muitos ucranianos sabem-no muito bem. Na UE, a esquerda tem o dever de ser solidária com os povos excluídos do Leste e do Sul que também querem estar nela. O argumento segundo o qual na União Europeia os esperam catastróficas reformas neoliberais é falso, porque ficando fora dela não as evitam; em vez disso sofrem mais duramente por não gozar dos benefícios que proporciona pertencer à Europa integrada. Estando na UE têm a oportunidade de resistir às transformações capitalistas neoliberais conjuntamente com outros povos, e não separadamente deles.

Não é por isto que se deva ignorar as justas inquietações dos muitos que também na Ucrânia temem que a adesão a uma zona de livre comércio com a União Europeia tenha efeitos dramáticos para o seu emprego e nível de vida. Como no caso do direito das nações à autodeterminação, trata-se de defender o direito democrático da Ucrânia de aderir à UE.

Um movimento democrático de massas

Não menos paradoxal é outra contradição da recente sublevação de massas na Ucrânia. Em essência, trata-se de um movimento democrático que se sublevou contra um regime que representava os interesses da poderosa oligarquia da Ucrânia oriental e que era conhecido pelas suas fraudes eleitorais; um regime autoritário, apodrecido pela corrupção e pela pilhagem do património nacional. Este movimento viveu a sua segunda reanimação, atingiu um grande impulso e mostrou uma extraordinária determinação na luta, quando no dia 16 de janeiro o dócil parlamento votou as restrições radicais às liberdades democráticas. Ao longo da sublevação, mantinha uma avançada independência em relação aos principais partidos de oposição, dos quais desconfiava e até considerava desprestigiados.

As massas reunidas no Maidan de Kiev jamais reconheceram o famoso trio de farsantes como a sua própria direção. Eram eles mesmos que se pretendiam líderes e eram fortemente promovidos como tais pela elite política europeia e os meios de comunicação estrangeiros. Não conduziram o movimento a lado algum; não podiam conduzi-lo senão à derrota. Pretendiam enganar com as promessas de tomar uma ou outra “medida que desta vez seria certamente eficaz”, como, por exemplo, obter do parlamento um voto que limitasse o poder presidencial, para manter o movimento em estado de imobilidade ou pelo menos contê-lo, não permitindo que fizesse algo que ameaçasse derrubar Ianukovich. Sem resultado. Não só não gozavam da obediência das massas de Maidan como em numerosas oportunidades eram apupados e repudiados. Com frequência foram ridicularizados. O que dominava em Maidan era a auto-organização e uma inquebrantável vontade de lutar até a vitória: até o derrube do regime.

Num passado não muito longínquo, o pesadelo do movimento alterglobal, como também de muitos outros protestos de massas, eram os grupos de combate que atuavam sem o seu acordo, fora de todo controlo democrático, mas por conta destes movimentos. Independentemente das siglas sob as quais atuassem, nas suas práticas reproduziam inconscientemente as ideologias de violência da extrema-direita. Não surpreende que fossem recetivos às provocações e que com frequência provocassem as represálias policiais contra os movimentos de massas ou oferecessem ao poder estatal preciosos pretextos para os reprimir.

Frente às muito brutais agressões policiais, Maidan não podia passar sem forças de autodefesa; precisava delas desesperadamente. No entanto, o movimento tinha uma estrutura demasiado débil e pouco consolidada para impor a toda a organização de combate uma submissão absoluta ao seu poder social soberano, e evitar assim o surgimento dos comandos descontrolados. O resultado desta fraqueza do movimento foi o surgimento, em torno da barricada estratégica situada na rua Hrushevski, nas proximidades de Maidan, de uma praça de armas dominada por uma coligação dos comandos de extrema-direita chamada Sector de Direita.

Há uma série de enigmas que rodeiam esta coligação, incluindo a sua comprovada recetividade às provocações. Registemos aqui um só facto espantoso: em 20 de fevereiro, o dia em que em Maidan foi derramado abundante sangue, o comandante geral do Sector de Direita, Dmytro Yarosh, conferenciou secretamente com Ianukovich em pessoa. Após o seu derrube, o facto foi descoberto pelos jornalistas. Falou sobre quê? Posto contra a parede, Yarosh explicou: “Tratava-se do acordo, tal como foi assinado mais tarde. Recusei-me a assiná-lo. Disse que não éramos fantoches. E, disse-lhe, Víctor Fedorovych, retire as tropas do exército, porque no caso contrário em toda a Ucrânia explodirá uma guerra de guerrilhas. Era a maneira de dizer-lhe que não íamos renunciar, não íamos entregar as armas, que íamos estar firmes até o fim. (...) Via-se que estava esgotado e assustado.”3 Não se sabe nada mais sobre este encontro, mesmo tratando-se de uma bomba, talvez de efeito retardado.

Uma aliança paradoxal

O papel muito importante desta formação ultranacionalista nos combates com a polícia lançou uma sombra sobre Maidan. Lançou-o igualmente o facto de que no mencionado trio de farsantes que se faziam passar pelos máximos dirigentes de Maidan se encontrava o líder do Svoboda, um partido da direita nacionalista radical. O comportamento do Svoboda durante estes acontecimentos valeu-lhe, de parte de um observador ucraniano, o qualificativo de “gatuno da revolução”4. A propaganda russa e os seus retransmissores disseminados no mundo inteiro fizeram o possível e o impossível por explorar esta sombra com o objetivo de desacreditar Maidan como um movimento fascista ou neonazi5. Esta propaganda resultou tão eficaz que mais de quarenta historiadores ucranianos e estrangeiros, todos eles especialistas em nacionalismo ucraniano, consideraram que era necessário reagir. Maidan, declararam, é “uma ação de massas emancipadora, e não extremista, de desobediência civil”. Conscientes do “risco que para o Euromaidan representa[va] a participação da extrema-direita”, apelaram aos meios de comunicação no mundo inteiro a não sugerirem que este era dirigido ou dominado pelos grupos de fanáticos radicalmente etnocêntricos” e a levarem em conta o facto de que tais sugestões levariam água ao moinho do imperialismo russo. Este imperialismo, advertiram, representava “um perigo muito maior para a justiça social, para os direitos das minorias e para a igualdade política, do que todos os etnocentristas ucranianos juntos”6.

É um facto de que em Maidan surgiu uma espantosa aliança do movimento democrático de massas com os comandos de extrema-direita. Nisto consiste a segunda grande contradição de Maidan. Para este movimento, trata-se de uma aliança mortalmente perigosa. Mas a história jamais poupa perigo algum aos grandes movimentos de massas. Mesmo os movimentos de classe já configurados, e mais ainda os não configurados, como o ucraniano, aprendem essencialmente das suas próprias experiências penosamente acumuladas. Movem-se sobre a cena política tateando, cristalizam a sua natureza social e diferenciam-se politicamente ao longo dos intrincados processos, avançando pelos caminhos onde os ameaçam muitos becos sem saída e armadilhas. São condenados a tudo isto pelo menos enquanto não criarem as suas próprias forças políticas que possam ser capazes de propor os programas coerentes de ação e as estratégias de luta.

No seio de um povo que, como o ucraniano, exposto à opressão, pressão ou agressão imperialista, não consegue resolver a sua questão nacional, as combinações extraordinariamente paradoxais como a mencionada aliança são, no fundo, inevitáveis. As razões foram explicadas a seu tempo por Mykola Jvylovy, comunista, escritor e antigo dirigente da Academia Livre de Literatura Proletária. Em 1933, Jvylovy suicidou-se para protestar contra o horrível massacre de seu povo por Estaline, como quase simultaneamente o fez também o líder histórico dos comunistas ucranianos Mykola Skrypnyk. Vários anos antes, Jvylovy escreveu as seguintes e significativas palavras : “Quando (como se disse já mais de uma vez) um povo manifesta durante séculos a vontade de constituir o seu organismo como uma entidade estatal, todas as tentativas de deter este processo natural de uma ou outra maneira, por um lado travam a formação das forças de classe e pelo outro introduzem um elemento de caos no processo histórico-mundial. Negar a aspiração à independência por meio de um pseudomarxismo estéril significa não compreender que a Ucrânia será um terreno das ações da contrarrevolução enquanto não passar por aquela etapa natural que a Europa Ocidental transitou na época da formação dos Estados nacionais.”7

É muito difícil passar por esta etapa quando a grande potência vizinha não quer perder o controlo da sua antiga possessão, ameaçando com a guerra e as anexações, e quando o novo governo, não menos antipopular que o anterior, dos neoliberais e os nacionalistas de direita, cria para si uma nova base oligárquica e está disposto a submeter o país a uma rapace mundialização capitalista.

Uma coisa é certa. A fase mais recente da Primavera contemporânea dos Povos varreu um regime mais. Conseguiu-o depois de uma luta prolongada, ao preço de sacrifícios extremos. Pela primeira vez fê-lo na Europa. É um grande acontecimento.

13 de março de 2014

Traduzido do polaco pelo próprio autor. Este artigo apareceu na edição polaca do mensal Le Monde Diplomatique. Kowalewski é o seu redator em chefe adjunto e autor de vários estudos sobre a história da questão nacional ucraniana, publicados, entre outros, pela Academia Nacional de Ciências da Ucrânia.

Retirado do site do CADTM

Traduzido do castelhano por Luis Leiria para o Esquerda.net

1 Veja-se Z.M. Kowalewski, “L’Ukraine : réveil d’um peuple, reprise d’une mémoire”, Hérodote, Nº 54-55, 1989 ; idem, “Miedzy wojna ou historie a wyprawami kijowskimi”, Le Monde Diplomatique – Edycja polska, Nº 1 (95), 2014.

2 Z.M. Kowalewski, “L’Ukraine entre a Russie soviétique et l’Europe orientale”, Nouvelle Europe, Nº 3, 1990, p. 5.

3 R. Malko, “Dmytro Yarosh : ‘Moya zustrich iz Yanukovychem spravdi bula’”, Ukrayins´kyi Tyzhden, Nº 9 (329), 2014, p. 12.

4 W. Rasewycz, “Swoboda, maruderzy rewolucji”, Le Monde diplomatique – Edycja polska, Nº 3 (97), 2014.

5 Fundamental sobre o ultranacionalismo na Ucrânia, também no contexto do Maidán, é o blog de Anton Shekhovtsov. Veja-se também A. Umland (ed.), “Pós-Soviet Ukrainian Right-Wing Extremism”, Russian Politics and Law, Vol. 51, Nº 5, 2013.

7 M. Khvylovy, The Cultural Renaissance in Ukraine : Polemical Pamphlets, 1925-1926, Edmonton, Canadian Institute of Ukrainian Studies, 1986, p. 227.   

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