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O papel da direita e extrema-direita nos protestos e as perspetivas

Nesta segunda parte do artigo em que discute os acontecimentos de Kiev, que presenciou, Gabriel Levy aborda o papel dos populistas de direita e fascistas no movimento, os grupos de autodefesa, e as perspetivas. Por Gabriel Levy, no blog People and Nature
Bandeiras do Svoboda na praça. Foto de Mykhailo Liapin

Que papel jogaram os populistas de direita e fascistas?

A ala direita e os fascistas são numericamente uma pequena minoria num amplo movimento popular. Mas não podem ser ignorados. E para a esquerda da Ucrânia a sua presença ameaçadora é um problema que não vai passar.

O partido populista de direita Svoboda (= Liberdade) – que é agressivamente nacionalista, homofóbico e que recebeu cerca de 10,5% dos votos nas eleições legislativas de 2012 – estava em destaque na Maidan. Também o Setor de Direita, uma aliança de nacionalistas, incluindo a organização mais destacada, o Trizub (= Tridente, o grupo de Dmitry Yarosh, líder do Setor de Direita), racistas como Belyi Molot (= Martelo Branco), UNA-UNSO (Assembleia Nacional Ucraniana - Autodefesa Nacional Ucraniana) e outros grupos de extrema-direita e fascistas.

O Setor de Direita tomou forma na Maidan como força de combate e desenvolveu-se na Ucrânia Ocidental. Assim que os seus líderes começaram a falar sobre a sua passagem a partido político, a tensão cresceu entre eles e os líderes do Svoboda, uma vez que iam apelar aos mesmos eleitores. Alguns camaradas ucranianas descrevem todos estes grupos como "Nazis" mas não acho que seja um termo de análise adequado; obscurece diferenças significativas entre eles. (Mais alguns detalhes em entrevista com um ativista de esquerdaaqui e em entrevista com anti-fascistas que estavam na praça aqui.)

O Setor de Direita e/ou bandos associados têm agredido e ameaçado sindicalistas e pessoas de esquerda na multidão da Maidan. Uma tenda montada pela Confederação dos Sindicatos Livres da Ucrânia, a principal federação sindical independente, foi atacada por um bando armado com facas. Tal violência é a continuação duma série de ataques a teuniões da esquerda na Ucrânia que ocorreram em paralelo com o crescimento do Svoboda nestes últimos últimos anos.

Isto destaca outra questão – que embora centenas ou talvez milhares de pessoas de esquerda (incluindo socialistas, anarquistas e outros ativistas sindicais) tivessem participado na Maidan, tentar fazê-lo de forma visível ou organizada, falhou. Alguns socialistas estavam fortemente envolvidos em iniciativas como apoio médico e nas greves de estudantes anti-Ianukovich. Mas as tentativas de formar na praça um setor de esquerda e de formar um grupo de combate anarquista, foram ambas abandonadas devido a ameaças da direita.

Para pessoas ativas no movimento dos trabalhadores e nos grupos de esquerda da Ucrânia, este é um problema prático urgente. Em vez de tentarmos avaliar a força das organizações fascistas ou de direita de acordo com os preconceitos sobre o nacionalismo ucraniano, vamos focar-nos em incidentes concretos e certificar-nos de que apoiamos os nossos amigos e camaradas. A minha proposta concreta é de que os ataques sejam monitorizados de forma sistemática para que as nossas discussões possam ser baseadas em boa informação.

Nota: para além dos ataques à esquerda anti-Ianukovich, também houve ataques generalizados a membros e à propriedade do Partido Comunista da Ucrânia. Mas esta organização pós-estalinista estava do outro lado das barricadas. Votou notoriamente a favor das leis anti-protestos de 16 de janeiro, cuja introdução produziu um grande crescimento no movimento. Há muito tempo que vem apoiando Ianukovich no parlamento numa série de questões e na segunda-feira anunciou que estava a passar para a oposição juntamente com o Partido das Regiões. (Veja também este apelo à Esquerda Europeia).

Os fascistas e nacionalistas extremistas não são os únicos a organizar grupos de autodefesa, pois não?

Certamente que não. O Setor da Direita foi substancialmente ultrapassado em número pelas unidades de autodefesa da Maidan que deviam a sua lealdade ao "Conselho Cívico da Maidan", formado por ativistas dos direitos humanos, ONGs e aspirantes a políticos (políticos em funções não eram bem-vindos) para vir a ser a voz das manifestações. O Setor de Direita e as unidades de autodefesa da Maidan lutaram lado a lado contra a polícia de choque. Enquanto as forças do Estado tinham a maior parte das forças armada, não tinham o seu monopólio. Entre uns estimados 82 mortos na semana passada, 10 eram polícias. A meio da semana passada havia cerca de 250 polícias no hospital com ferimentos de bala, além dos 350 manifestantes.

No dia seguinte à queda de Ianukovich a polícia praticamente desapareceu das ruas de Kiev e doutras cidades. Tinha sido alcançado em Kiev um acordo para que polícia e grupos de autodefesa da Maidan patrulhassem em conjunto. Grupos de autodefesa eclodiram em todo o país, a maioria armados com paus, bastões de basebol e máscaras de esqui, alguns com armas de fogo. Alguns são coordenados pela Maidan ou pelo setor de direita; alguns são organizados por moradores locais, em resposta a temores de colapso da lei e da ordem; alguns são pouco mais do que bandos de jovens autonomeados, seguindo as suas próprias regras.

Não está claro como isso se vai desenrolar. Um amigo disse-me que um grupo recém-formado de defesa da vizinhança no enorme conjunto habitacional em que vive, ao lado de Kiev, é disciplinado e coordenado eficazmente com tecnologia baseada na Internet. No auge do conflito ergueu uma barreira na estrada principal de Kiev para obstruir as forças pró-Ianukovich; durante o fim de semana, patrulhou as ruas sem policiamento. O meu amigo descreveu um razoável nível de coerência da comunidade. Mas eu ouvi e li relatos de outros grupos armados aparentemente não sustentados por uma coletividade assim.

Na segunda-feira, 24 de fevereiro, realizou-se um piquete pequeno – de cerca de 20 pessoas, na sua maioria radicais de esquerda – no exterior da embaixada russa para apoiar os prisioneiros do 6 de maio, que naquele dia foram condenados a penas de dois e meio a quatro anos pelo sua atuação em manifestações anti-Putin em Moscovo. (Veja mais sobre eles aqui). Foi interessante ver a resposta da Maidan.

Uma unidade de auto-defesa de cerca de dez homens permaneceu todo o tempo. O seu representante dirigiu-se aos piquetes e disse que queriam proteger a embaixada de provocações. Os meus amigos de esquerda achavam que esse perigo era real – que, em resposta ao apoio do governo russo a Ianukovich, manifestantes ucranianos pudessem usar o piquete como pretexto para atacar a embaixada – e que o raciocínio das unidades de legítima defesa era lógico. A meio daquela hora de duração do piquete chegou um grupo menos amigável – apoiantes do Svoboda. O grupo de autodefesa conversou com eles e eles permaneceram espetadores passivos. Perguntei-me o que se estaria a passar nas suas mentes: um dos seus sabidos inimigos, a esquerda, estava contra um outro, a Rússia.

E como podem as coisas evoluir, politicamente, a partir daqui?

A oposição está a preparar um governo que vai liderar um estado fraco, num tempo de crise económica em ascensão. É difícil ver como as forças políticas da oposição serão capazes de trabalhar em conjunto. Mesmo dentro do maior partido, Batkyvshchina (Pátria), existem profundas diferenças: Yatseniuk, proposto na quarta-feira, 26 de fevereiro, como primeiro-ministro, tem adotado a agenda neoliberal que implica abrir a economia da Ucrânia a movimentações de peso ("tornando-a competitiva internacionalmente"). O modus operandi de Timoshenko, por outro lado, é fazer negócios com oligarcas russos e ucranianos (empresários politicamente poderosos); Ela é um deles, tendo acumulado uma fortuna enorme no sector do gás na década de 90.

Mesmo que os neoliberais dogmáticos e os grupos de interesses oligárquicos possam chegar a compromissos, têm ainda que lidar com as pessoas das classes trabalhadoras da Ucrânia. O impacto da crise económica de 2008-2009, em termos de desemprego e de inflação, tem sido parcialmente amortecido pelos salários e pensões do setor público, que cresceram em linha com a inflação, e serviços municipais relativamente baratos (habitação, gás, eletricidade, etc.) e serviços sociais do estado que nenhum governo ucraniano – nem Yanukovich e seus aliados (2004/5, 2006/7 e desde 2010) nem Timoshenko & Cia. (2005 e 2007/10) – se atreveram a cortar. Udar e Svoboda, prováveis parceiros de governo de Batkyvshchina, ambos ganharam votos por fazerem barreira contra os cortes, bem como contra a corrupção no governo.

Fazer a quadratura deste círculo não será fácil para o novo governo, disseram que os meus amigos de esquerda de Kiev. Tensões poderão também abrir-se entre o Svoboda e os extremistas nacionalistas do Setor da Direita. A minha opinião é que os governos ucranianos não podem afastar para sempre o aperto da corda aos níveis de vida do povo. As batalhas em torno disso podem abrir espaço para a ação das classes trabalhadoras e a atividade da esquerda e não apenas espaço para a direita.

Algumas pessoas de esquerda veem um grave perigo em a ala direita e grupos fascistas se poderem fundir com as estruturas estatais. Temem que os combatentes de rua de direita radical, que hoje operam patrulhas conjuntas com a polícia, amanhã possam obter uniformes e armas (legais). As nomeações propostas para o governo parecem justificar tais temores. Na quarta-feira, 26 de fevereiro, foi noticiado que Andrei Parubi, que chefiou a força de autodefesa da Maidan, assumiria o Conselho de Defesa Nacional da Ucrânia e que Yarosh da Detor da Direita seria um dos seus dois adjuntos.

O parlamento nomeou Arsen Avakov, antigo governador de Kharkiv, ministro do interior; Valentin Nalivaichenko do Udar, chefe do serviço de segurança SBU; e Oleg Makhnitsky do Svoboda, procurador-geral. "Quem ele vai processar?" perguntou um amigo socialista.

Algumas pessoas da esquerda ocidental centram-se na ala direita e nos fascistas; outras parecem ignorá-los completamente. Porquê?

A questão está mais na esquerda ocidental e nos estereótipos com que se satisfaz tão frequentemente do que no que está a acontecer na Ucrânia.

As pessoas que veem o mundo em termos duma batalha geopolítica entre os EUA e a NATO, dum lado, e a Rússia, entre outros, do outro, olhem para a Ucrânia como uma peça de xadrez neste conflito. Para elas, o que é mais importante não é o desenvolvimento de movimentos sociais e laborais – na Ucrânia, na Rússia ou em qualquer lugar – mas de que lado a Ucrânia está nesta batalha (o Ocidente contra a Rússia). Não conseguem meter na cabeça a ideia de que a classe média ou as classes trabalhadoras ucranianas vejam coisas positivas na Europa, em oposição à Rússia. A resposta, estão convencidas, será que a Maidan não pode ser um movimento de massas em que populistas de direita e fascistas ganharam influência e, portanto, deve ser um movimento inspirado pela direita, apoiado material e ideologicamente pelos Estados Unidos.

Uma versão especialmente tosca desta visão estáaqui. ("Na tentativa de tirar a Ucrânia da esfera de influência Russa, a aliança EUA-UE-NATO tem-se aliado, não pela primeira vez, com fascistas", etc.) Alguns destes pressupostos refletiram-se tambémno artigo de Seumas Milne em The Guardian aqui.

Do outro lado estão adeptos social-democratas do ideal europeu, o que quer que isso signifique para eles. Acreditam que o seu trabalho é ajudar a trazer a Ucrânia de volta ao redil da Europa capitalista. Isto significaria fazer vista grossa ou desprezar a violência da ala direita e dos fascistas e realçar que a Maidan é europeísta e portanto inerentemente progressista. Variantes de tais visões são efetivamente desafiadas por Volodymyr Ishchenko do jornal Spil'ne, aqui e aqui.

Uma grande quantidade de história atravessa estes argumentos. Eu estava deprimido por ver na Maidan bandeiras e símbolos do Exército de Resistência da Ucrânia (UPA) do tempo de guerra, do qual alguns líderes colaboraram com os nazis e alguns destacamentos participaram na limpeza étnica contra os judeus, polacos e russos. Esse simbolismo cola-se-me à garganta; talvez sejam os meus antecedentes familiares judaicos. (Senti-me ainda pior em 2010 quando o antigo presidente ucraniano, Viktor Iushchenko, pendurou uma medalha ao peito do neto do líder do UPA Stepan Bandera, dizendo, com efeito, "que se lixem as discussões de história entre ucranianos, vamos apelar aos os sentimentos nacionalistas mais grosseiros".)

Os socialistas precisam de abordar o nacionalismo ucraniano de forma histórica. Mas para o fazerem, na minha opinião, precisamos primeiro de filtrar o pesado legado da ideologia soviética que ainda corrói o movimento laboral do século XXI. Essa ideologia moldou como "socialista" a tirânica ditadura estalinista que, em 1932/33, conduziu a uma fome que matou milhões de ucranianos e como "fascistas" todos os nacionalistas ucranianos – tivessem ou não qualquer ligação com a UPA ou simpatia pelas suas relações de tempo da guerra com os nazis. Tudo isto está por trás de alguns dos estereótipos.

Quando Yanukovich disse que ele foi deposto por um golpe "fascista", ele até pode ter acreditado nisso. Em termos de análise, seguramente podemos fazer melhor.

Publicado no blog People and Nature

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

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