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O fim de Ianukovich é um começo

O movimento que na Ucrânia derrubou o antigo presidente Viktor Ianukovich não se encaixa em certos estereótipos usados pelas pessoas na Europa Ocidental, incluindo os socialistas e as esquerdas. Tendo passado os últimos dias em Kiev, ofereço as seguintes respostas a perguntas que me põem frequentemente amigos da Europa Ocidental. Por Gabriel Levy, no blog People and Nature
A multidão comportava-se de forma independente em relação aos seus "líderes" e isso foi crucial nos dias finais de Ianukovich. Foto de Mykhailo Liapin

Houve um golpe de direita?

Não, não houve. O novo governo irá incluir algumas más pessoas de direita. Até que ponto poderá ir a sua vileza, só o tempo dirá. Mas é difícil imaginar que possam tomar medidas repressivas mais monstruosas do que as que Ianukovich & Cia. usaram nos últimos meses (fogo de atiradores de elite sobre multidões, outros tipos de assassínio, tortura de ativistas, uso desenfreado de bandidos a soldo e assim por diante).

Em qualquer caso, a coloração de direita potencialmente perigosa do governo é uma coisa; o caráter do movimento que lhe abriu caminho, é outra. Dois pontos importantes, a meu ver, são (1) este foi um movimento de massas que abraçou largas camadas da população; e (2) a força do populismo de direita e a presença de fascistas são devidas principalmente à crise da esquerda – que é um problema internacional, não um problema ucraniano.

A ocupação da Maidan (= Maidan Nezalezhnosti, = Praça da Independência) irrompeu num movimento de massas não tanto em resposta à incapacidade de Ianukovich para assinar um acordo de associação com a Comissão Europeia, como em resposta à brutalidade policial.

Oleksandr Turchinov, porta-voz do Parlamento e presidente interino, disse na segunda-feira, 24 de fevereiro, que "a prioridade é regressar ao caminho da integração europeia, luta pela qual a Maidan se iniciou". Isso é reescrever a história – desde já! O falhanço de Ianukovich em assinar o acordo com Bruxelas trouxe para a Maidan apenas cerca de 400 estudantes. O que enfureceu boa parte de Kiev foi a brutalidade com que esses 400 foram atacados pela polícia de choque Berkut ao fim do dia 30 de novembro do ano passado. No dia seguinte, a Maidan (também local para as manifestações em massa durante a chamada "Revolução Laranja" de 2004) encheu-se com dezenas de milhares de pessoas. Um conhecido meu de meia-idade, de classe média, cujos filhos estão na universidade, disse-me esta semana: "se eles [Ianukovich & Cia.] não tivessem atacado aqueles miúdos, aquela coisa toda nunca teria teria sido posta em marcha. Eles é que tiveram estupidamente culpa disso".

A composição e motivações da multidão na Maidan eram complicadas. Eu não estava lá, por isso posso apenas passar impressões de amigos e camaradas. Quase toda a gente com que conversei parecia concordar que uma proporção gigantesca da população de Kiev (jovens e velhos, ricos, classe média e trabalhadores) esteve lá num ou noutro momento, que as motivações variaram muito, mas que o afastamento de Ianukovich se tornou um tema que envolveu tudo, especialmente depois de 16 de janeiro, quando tentou forçar através de leis a limitação drástica ao direito a protestar; e que pôr fim à corrupção na política – o que significa coisas diferentes para pessoas diferentes – constituía um problema. Vários tipos de patriotismo e nacionalismo, incluindo os mais reacionários, estavam lá em abundância; as questões sociais não pareciam estar na primeira linha. Entre as análises publicadas em inglês por pessoas de esquerda ucranianas, esta entrevista com um membro do Sindicato Autónomo dos Trabalhadores reflete sobre a política da Maidan com o maior dos detalhes.

A multidão comportava-se de forma independente em relação aos seus "líderes" e isso foi crucial nos dias finais de Yanukovich.

►Os sangrentos atiradores de quinta-feira, 20 de fevereiro, abriram fogo na Maidan e, inacreditavelmente – apesar de dezenas de mortes – a multidão ficou firme. (Disse um conhecido meu, bem na vida e que nunca, antes de novembro, tinha estado numa manifestação: "muitas pessoas em Kiev, eu incluído, que não podiam gastar todo o nosso tempo na praça, iam para lá sempre que Maidan estava sob ataque. Isso aconteceu na quinta-feira".)

►Na sangrenta quinta-feira de 21 de fevereiro, os atiradores de elite abriram fogo sobre a Maidan e – apesar de dezenas de mortes – inacreditavelmente a multidão ficou firme. (Um conhecido meu, bem de vida, que nunca tinha estado numa manifestação na sua vida antes de novembro, disse: "muitas pessoas em Kiev, incluíndo eu, que não podiam gastar todo o seu tempo na praça, iam lá sempre que a Maidan estava sob ataque. Isso aconteceu na quinta-feira.")

►Na sexta-feira 21 fevereiro, os três líderes da oposição – Vitalii Klitschko (boxeur que se tornou líder do Partido Udar (= Golpe), Arseny Yatseniuk (economista neoliberal, do partido da ex-primeira ministro Yulia Timoshenko Batkyvshchina) e Oleh Tiahnybok (líder do partido populista de direita Svoboda) – negociaram um acordo com Ianukovich: eleições presidenciais em dezembro e regresso à constituição de 2004 (ou seja, menos poder para o presidente e mais para o parlamento). As negociações também envolveram ministros dos negócios estrangeiros europeus, incluindo Pavel Sikorski da Polónia que foi apanhado por uma câmara a avisar Klitschko: "se não apoiarem isto, vão ter a lei marcial, o exército, vão ser todos mortos".

► Klitschko foi para a Praça pedir à multidão que desse o seu apoio ao acordo. Um ativista da força de autodefesa agarrou o microfone e disse que não. Se Ianukovich não saísse pela manhã a multidão iria lá buscá-lo. A multidão gritou em aprovação – e nesse momento Ianukovich perdeu a coragem. Na manhã de sábado, 22 de fevereiro, ele tinha abandonado a administração presidencial e sua obscena vivenda de campo em Mezhigorye. No domingo, 23 de fevereiro, Aleksandr Efremov, líder parlamentar do Partido das Regiões (Partido de Yanukovich), declarava-o um "traidor". No meio da pilha de riqueza de Ianukovich foram encontrados documentos que comprovam que ele tinha posto a hipótese duma "operação antiterrorista" usando 2500 soldados, que poderia ter multiplicado o número de vítimas muitas vezes.

O que valeu a Ianukovich foi a recusa da multidão em mover-se.

Isto foi uma revolução, então?

Ouvi diferentes opiniões sobre isso de amigos e camaradas ucranianos. Claro, depende do que se entende por "revolução". A meu ver uma revolução envolve um colapso ou uma reviravolta radical, não só do governo mas das estruturas de estado – aparelho burocrático, forças armadas e o resto. Na Ucrânia, estas estruturas estão de pé, para já. Um elemento decisivo na queda de Ianukovich foram as declarações na semana passada, por várias vezes, de vários chefes de serviços da polícia, exército e segurança de que não se mobilizariam contra os manifestantes. Na sexta/sábado 21/22 de fevereiro, o parlamento jogou depressa e mal com a Constituição: efetivamente usurpou os poderes do presidente, decidindo, por exemplo, libertar Yulia Timoshenko da prisão e convocar novas eleições. As estruturas foram sujeitas a tensão mas não destruídas.

Outro elemento da revolução é certamente o desafio bem sucedido ao poder do estado, por um movimento de massas, fora os habituais processos políticos. Isso certamente aconteceu – apesar das forças armadas do estado se terem rendido após os assassinatos covardes na praça, ao invés de terem sido derrotadas em batalha.

Por outro lado, o entendimento marxista de revolução assume uma mudança não só no sistema político como na ordem social e económica. Isso, claramente, não aconteceu.

Assim acho que minha resposta é mais "não" do que "sim". Mas o importante é compreender a substância e não tentar encaixar em definições pré-concebidas.

Publicado no blog People and Nature

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net

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