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Tudo se uberiza?

A uberização atinge já dos setores tradicionais como a educação até aos mais surpreendentes como a religião. Sem contratos ou direitos, o uberproletariado fica mais vulnerável à exploração. Como mostrou cruelmente a onda de calor em França. Felizmente, a resistência começa a organizar-se. E essa não é uberizável.
Ciclista de um serviço de entregas.
Ciclista de um serviço de entregas. Foto de Jon Crel. Flickr.

1- Início do verão de 2019, França. Uma inédita vaga de calor atinge o país. Vítimas pouco notadas e pouco notáveis desse calor são os muitos trabalhadores desqualificados. Entre eles estão os das plataformas online de entrega: de comida ou de outros bens. A pé, de bicicleta, de mota, muitos trabalhadores uberizados trabalham independentemente das condições climatéricas ou do estado de saúde. Sem contratos, não podem falhar um único momento. Também é disso que a uberização é nome.

A Deliveroo é umas dessas plataformas de entregas por bicicleta. Foi ela que no final deste mês de junho colocou um anúncio numa plataforma de contratação de serviços de estudantes que pedia “estudantes sorridentes e amáveis que não tenham medo de ir ao encontro dos entregadores”. Missão: comprar garrafas de água e ir entregá-las de bicicleta nos percursos de distribuição. Aos estudantes pedia-se que avançassem o dinheiro para as garrafas que comprassem e não se esclarecia quanto iria ser pago em troca do serviço.

Depois de ter sido criticada, a Deliveroo veio justificar que seria ela a pagar a água. Negou também as acusações que vários entregadores tinham feito de ter descido o pagamento da deslocação na altura de maior calor e de fazer uma campanha publicitária agressiva para aumentar o número de entregas sem se preocupar com os efeitos para os entregadores.

Habitualmente, o salário destes trabalhadores depende da sua performance e o número de encomendas que lhe será atribuído a seguir depende das estatísticas da semana anterior. Sem complacência para com condições atmosféricas ou esforços físicos acrescidos que podem ter consequências graves. A água? A água apresentada como uma esmola que a empresa até dá, é afinal chegar ao destino o mais rapidamente possível e satisfazer o cliente. Tudo se uberiza. Até a uberização. Até a água.

2- Maio de 2013, Japão. Uma empresa local lança uma plataforma online no Japão que faz com os monges budistas o que a Uber fez com os motoristas. Pode-se alugar um monge para uma cerimónia fúnebre à distância de um clique. Um passo adiante num negócio que começou em 2009 como plataforma de comparação de preços e qualidade de serviços funerários, como é habitual no setor hoteleiro, e passou a seguir pelos funerais budistas low-cost. Sucesso à vista, a Amazon apressou-se a fazer uma parceria com esta start-up que cobra 30% ao monge.

O episódio vale o que vale. Mas não deixa de ser um símbolo perfeito de um modelo de negócio que passa pela plataforma digital como a intermediária entre trabalhadores e clientes que desregula não só o esquema tradicional de um setor económico mas também e sobretudo as relações laborais. Buzzword que já perdeu fôlego ou conceito fundamental para compreender uma parte importante da estrutura atual do trabalho, seja como for a inovação da uberização conta com a conivência de um certo deslumbramento tecnológico para celebrar uma pouco escondida regressão. Trabalho à jorna 2.0, economia do biscate digital, a uberização leva mais longe a destruição de direitos, precariza mais além, coloniza ainda mais vida, entranha-se mais profundamente.

O episódio pode ser também apresentado como um sinal da sua amplitude. O que “começou” nos transportes de passageiros, vai agora do ensino com os cursos online à religião. Tudo se uberiza. Até o que não seria uberizável. E sobretudo as vidas.

3- 8 Maio de 2019. O mundo assiste a uma greve e manifestações globais contra a Uber e a Lyft. Dos Estados Unidos ao Brasil. Um passo significativo desses trabalhadores que têm sido tantas vezes menosprezados por supostamente acreditarem na ideologia do patrão, por serem individualistas ou incapazes de se organizar.

A dimensão deste fenómeno e o desdobramento dos focos de resistência à uberização ainda estão a acontecer, ainda estarão por conhecer em toda a sua real dimensão. Certo é que despontam coletivos de trabalhadores uberizados em vários continentes.

Tudo se uberiza? A resistência à uberização não. A organização e a luta continuam a não poder ser intermediadas à comissão ou delegáveis. E a primeira vitória foi fazer a solidariedade romper essa atomização cruel inscrita na uberização.

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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