Está aqui

A uberização e a cidade: os dados estão lançados

As aplicações para smartphone há muito que sabem o valor dos dados que recolhem quando o negócio é a privacidade. As aplicações das plataformas online de transporte ou de entregas, como a Uber, têm uma moeda de troca própria: os dados de mobilidade. E estão a fazer valê-la na relação com as cidades.
Dados de tráfego de São Francisco.
Dados de tráfego de São Francisco. Foto de Eric Fischer

A política pública de transportes também se uberiza. As aplicações de mobilidade e de entregas estão a fazer valer os dados que recolhem dos seus clientes. Por exemplo, a Uber deu a volta à resistência do Estado do Massachusetts e da Câmara de Boston relativamente à sua entrada na cidade oferecendo-lhe acesso aos dados dos seus itinerários. Estes constituem um manancial precioso de informação que pode contribuir para diminuir engarrafamentos e melhorar a mobilidade na cidade.

Por sua vez, a Strava, uma aplicação para corredores e ciclistas, vendeu dados em 2014 à Secretaria de Transportes Públicos do Oregon. Aquele instituto público queria melhorar ciclovias e planear novos trajetos.

À partida o atalho poderia parecer tentador para alguns autarcas: mas, ao segui-lo, as administrações locais ficam dependentes dos dados privados que se tornam uma teia que envolve as “cidades inteligentes”, tornando-as cada vez menos inteligentes.

Daí que outros municípios norte-americanos tenham escolhido um caminho diferente. Nova York e Chicago tentaram lançar aplicações próprias, procurando escapar à mercantilização e privatização dos dados de mobilidade.

E aos enviesamentos que daí decorram. Porque a divulgação seletiva de dados é uma arma temível. A este tipo de operadores não interessa que se perceba o seu impacto nos engarrafamentos ou na utilização de transportes públicos por exemplo. A Autoridade Municipal de Transportes de São Francisco, por exemplo, publicou um estudo em que concluía ter havido um aumento de mais de 50% dos atrasos no trânsito na cidade, entre 2010 e 2016, devido à Uber e à Lyft.

Um outro estudo feito por engenheiros da Universidade do Kentucky, publicado em novembro de 2018, concluiu que, num universo de 22 cidades grandes dos EUA, o aumento dos transportes individuais comercializados por estas plataformas resultou num declínio do uso de transportes públicos.

Por outro lado, a compra ou o negócio político com os dados recolhidos por este tipo de empresa tem outra consequência : serve de legitimação pública para essa recolha. Uma atividade que poderia enfrentar oposição por mexer com a confidencialidade torna-se assim passível de uma operação de marketing em que a empresa se mostra como estando a ajudar a cidade a crescer de maneira mais harmoniosa.

(...)

Resto dossier

Ciclista de um serviço de entregas.

Precariedade uber alles: a ameaça da uberização do trabalho

A uberização é a precariedade acima de todos, o desfazer dos vínculos contratuais e a anulação dos direitos dos trabalhadores. Analisamos o novo modelo de organização do trabalho imposto a quem é empregado nas plataformas de serviços online para transporte individual ou distribuição de bens e serviços. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Grupo de trabalhadores de distribuição de plataformas online em protesto.

A Uberização e os desafios laborais e sociais

Ao contrário de outros países, o debate sobre a Uber em Portugal não deu a mesma atenção no plano legal aos problemas de emprego e condições de trabalho, centrando-se sobretudo na questão da concorrência desleal. Artigo da socióloga Maria da Paz Campos Lima.

Taxista em protesto.

Uber, a regulamentação vai de carrinho?

Táxis contra Uber. Ideologicamente mostrada como escolha entre antiguidade onerosa e burocrática e leveza contemporânea barata, a guerra comercial do transporte individual de passageiros é também disputa política sobre regulamentação, liberalização e municipalização e direitos dos trabalhadores.

Dados de tráfego de São Francisco.

A uberização e a cidade: os dados estão lançados

As aplicações para smartphone há muito que sabem o valor dos dados que recolhem quando o negócio é a privacidade. As aplicações das plataformas online de transporte ou de entregas, como a Uber, têm uma moeda de troca própria: os dados de mobilidade. E estão a fazer valê-la na relação com as cidades.

Condutores em protesto.

Trabalho baseado em plataformas digitais: a caminho de um novo sindicalismo?

O crowdworking usa uma plataforma para ligar organizações ou indivíduos a outros em troca de pagamento. Um recente projeto europeu de investigação quer analisar estratégias de sindicatos ou movimentos alternativos que representem “crowdworkers” Artigo de António Brandão Moniz e Nuno Boavida.

Shame on Uber, manifestação em São Paulo. Foto dos autores FM/MAGO.

Uber: assim começam as greves do futuro

Precários fizeram a 8 de maio o primeiro protesto global contra o poder “invisível” das empresas-aplicação. Em São Paulo, dois investigadores fizeram dezenas de entrevistas e apostam: surgem novas formas de resistência no meia da ultra-exploração. Por Felipe Moda e Marco António Oliveira/Outras Palavras.

Entender quem é o proletário da era digital e sua inserção no mundo do trabalho é o tema de investigação do sociólogo Ricardo Antunes em seu novo livro

O proletário digital na era da reestruturação permanente do capital

Nesta entrevista a IHU, o sociólogo brasileiro Ricardo Antunes fala sobre o proletário da era digital e da sua inserção no mundo do trabalho, tema do seu novo livro “O Privilégio da Servidão. O Novo Proletariado de Serviços na Era Digital”.

A uberização do trabalho é pior para elas

Uberização no feminino. Um retrato de como este fenómeno é vivido pelas mulheres. São testemunhos brasileiros mas que soarão familiares em muitas zonas do globo. Texto de Julia Dolce da Agência Pública.

A uberização do trabalho não é inevitável

Não será hora de trilhar o caminho para pôr fim às relações de subordinação próprias do contrato de trabalho, reforçando os direitos sociais? Artigo de Danièle Linhart no Le Monde Diplomatique.

Charles Chaplin no filme "Tempos Modernos".

Glovo e Uber eats ou os ladrões dos tempos modernos

O capitalismo sempre quis colonizar o nosso tempo. A apropriação de cada um dos nossos minutos, marcados por esse instrumento violento chamado relógio, é uma arma poderosa para ditar e comandar a organização da vida pessoal, social e familiar.

Ciclista de um serviço de entregas.

Tudo se uberiza?

A uberização atinge até os setores mais surpreendentes. Sem contratos ou direitos, o uberproletariado fica mais vulnerável à exploração. Como mostrou cruelmente a onda de calor em França. Felizmente, a resistência organiza-se. Essa não é uberizável.