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Questões sobre uma intervenção

Os objetivos anunciados incluem de tudo. A duração da operação é "o tempo que for necessário", "algumas semanas"... As justificativas políticas são de geometria variável. Os benefícios políticos para François Hollande, autopromovido "senhor da guerra" são indiscutíveis, num terreno onde tem a garantia de encontrar ampla aprovação em clima de unanimidade nacional. Por Philippe Leymarie, Les Blogs du Diplo
Caça Rafale francês. Foto de marcovdz

A França assumiu a liderança e decidiu sozinha sobre a forma de intervenção militar no Mali para deter o avanço das milícias jihadistas, e em seguida atacou as suas bases de retaguarda nas cidades do norte, bombardeadas por caças Rafale. Apesar da "união sagrada" em França, e de um amplo apoio internacional – incluindo de africanos – em torno da iniciativa do presidente Hollande, levantam-se algumas questões ...

Os objetivos de guerra: como no caso da Líbia, em 2011, são confusos. Ouvimos de tudo: a segurança de cidadãos franceses; assalto agravado; guerra contra o terrorismo; deter os grupos armados; impedir a tomada de Bamako etc. Se bem que os grupos jihadistastenham procurado avançar em direção ao sul, não há nenhuma evidência de que pretendessem lançar uma operação até Bamako, a capital (localizada a mais de 800 km de Konna, localidade da qual haviam assumido o controlo na semana anterior). Agora, é o ataque às bases em retirada dos grupos armados. Para quando a "limpeza" do terreno?

Ler também « La guerre du “Sahelistan” aura-t-elle lieu ? », uma reportagem no Mali de Philippe Leymarie em Le Monde diplomatiquede janeiro de 2013.

Tropas de terra: foram enviadas nos últimos dias, por conta da França, para o Mali. Precisamente o que se evitou na Líbia em 2011. E o que evitam, de uma maneira geral, os norte-americanos, ingleses, etc. Mas o que os franceses não conseguiram impedir no Mali: um envolvimento mais profundo, mais "nacional", mais arriscado política e humanamente do que os simples ataques aéreos realizados à distância e em segredo.

Duração da operação: é o menos variável ("o tempo que for necessário", "algumas semanas", "até que as forças do exército da África Ocidental e do Mali retomem fôlego", etc .). Mas o tempo não joga necessariamente a favor de quem intervém, e que pode ver-se ligado a uma imagem de "ocupante" – como aconteceu no Afeganistão.

Os alvos: primeiro foram as colunas de combatentes na linha de demarcação, agora são as bases de retaguarda dos movimentos jihadistasnos seus redutos a norte, a centenas de quilómetros da "linha da frente". Nada neste plano foi realmente negociado, discutido e aprovado: é ao critério do país que toma a iniciativa, numa quase clandestinidade. Em qualquer caso, uma guerra sem rosto, durante estes primeiros dias.
A interpretação das resoluções do Conselho de Segurançaque fundamentam, em princípio, a legitimidade da intervenção: tira-se daí o que se quer de uma maneira "ousada", que novamente faz recordar o precedente líbio. Assim, a resolução 2085 de 22 de dezembro concentrou-se principalmente nas negociações políticas necessárias, para separar a questão Tuaregue (reivindicação nacional ou comunitária comparável à questão curda) da constituição de polos jihadistas focados (em nome de uma interpretação salafista da sharia) na repressão da população, na tomada de reféns, no tráfico, nas operações de tipo terrorista, etc. Hoje, Paris pretende atuar ofensivamente no norte do Mali a coberto daquela resolução que autorizava uma negociação política e a implementação de uma operação das forças da África Ocidental, mas reservava para mais tarde uma luz verde aos militares... Claro, tudo isso foi um "psst", ao estilo de "a necessidade não conhece leis."

Justificativas políticas: são de geometria variável, com uma vertente "grande lacuna" da esquerda que, desde a eleição de François Hollande, garantia não querer continuar no papel de "polícia da África"​​, dizer adeus ao "Françáfrica”, "deixar os africanos cuidar da sua segurança, não agir senão ao abrigo da ONU, etc. No entanto, mesmo que a causa pareça bastante justa, a França está em posição de agir na primeira linha, num primeiro tempo sozinha, com os seus próprios recursos, o seu tradicional conhecimento de África (que remonta aos tempos coloniais, particularmente no respeitante à guerra no deserto). Corre o risco de ficar nessa pele por muito tempo e não vão faltar "amigos" da França, pedindo-lhe para intervir em favor deste ou daquele país.

No plano militar, cabe à França agir de forma independente, no "teatro aberto" ou como uma "nação-quadro": número de efetivos relativamente limitado de ambos os lados (alguns milhares), terreno familiar (Sahel) e "livre" (deserto), apoio na rede de bases e tropas pré-posicionadas em Libreville, N'Djamena, Djibouti (que fazem da França mais de 50 anos após a independência, um caso especial). Se a França não tivesse começado, ninguém o teria feito em seu lugar. Ela pode dizer: "Intervenho, logo existo." Mas deve fazer entender que não quer tornar-se polícia regional, para o que – na realidade – não tem nem meios nem vontade.

Adiamentos africanos. É verdade que, à custa de preparar, discutir, atrasar a formulação oficial de pedidos, criar instituições, assegurar o financiamento, dispor dos meios técnicos, etc, estava-se nas últimas semanas perante um plano de ação que não teria permitido a intervenção das forças da África Ocidental antes de setembro de 2013, na melhor hipótese, ou seja, ano e meio após a divisão do país e a tomada das cidades do norte porjihadistas. Em termos de segurança, os africanos – à falta de recursos técnicos e humanos – arrastam-se nas conversações, na mediação, na procura de consenso... correndo o risco de deixar crescer os conflitos.

Puritanismo europeu: a missão de treinamento do exército maliano "EUTM Mali" há seis meses no ativo, nem sequer foi iniciada no terreno pelos militares da União Europeia, que passaram mais tempo a preocupar-se com a sua própria segurança – numa zona ainda longe dos combates – do que a pôr-se concretamente a caminho do Mali.

O posicionamento ofensivo francês(já observado em relação à Líbia em 2011 e à Síria em 2012) fez de Paris o inimigo número um dos jihadistas, o novo "Grande Satã", com o risco de que os seus nacionais no local ou no exterior, particularmente na África, se tornem alvos potenciais; ou que os seus objetivos visem a França – o que provavelmente poderia ser evitado por um dispositivo como o Vigipirate "vermelho reforçado", ativado em caso de "ameaça altamente provável".

Os benefícios políticos para François Hollande, autopromovido "senhor da guerra" são indiscutíveis. O presidente "normal" – mais rosa do que vermelho, mais social-democrata do que socialista, mais "soft-soft" em tudo – não perde a oportunidade de exibir o papel de duro, determinado, num terreno onde tem a garantia de encontrar ampla aprovação em clima de unanimidade nacional. Além disso, o presidente francês dá uma oportunidade de ação ao exército, quando se impõe um regime fiscal de emagrecimento. Única desvantagem: se acontece uma desgraça aos prisioneiros agora reféns no Sahel, como aconteceu durante a operação realizada no sábado na Somália para libertar o agente francês detido há mais de dois anos, que teve o efeito desastroso que sabemos.

14 de janeiro de2013

Publicado no Les Blogs du Diplo

Tradução de Deolinda Peralta para o Esquerda.net

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