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Nós, opositores à guerra francesa

Senhor Hollande, o destino dos malianos pertence aos malianos. E se uma guerra tiver de ser travada, não cabe seguramente à França autoproclamar-se salvadora no Mali. Em França, o Estado interessou-se até aqui pelos malianos, sobretudo para os expulsar. Esta França teria sido repentinamente tocada pelos mais sinceros sentimentos humanitários? Christine Poupin, Olivier Besancenot, Philippe Poutou, membros de direção do NPA.
Tropas francesas chegam ao Mali. Foto de U.S. Air Force, por Senior Airman James Richardson, Wikimedia Commons

O senhor Hollande, numa conferência de imprensa, a 15 de Janeiro último, declarou: “O que é que vamos fazer dos terroristas? Destruí-los!”. Declaração choque, violenta, e guerreira, quase a fazer lembrar as entoações de Vladimir Putin. Declaração também um tanto ou quanto imprudente pelo seu lado perentório. Porque no jogo da escalada verbal, os factos, esses, seguem uma engrenagem onde, enfim!, frequentemente os sequestros se somam aos sequestros. A trágica tomada de reféns que ocorreu na plataforma de gás de Tigantourine, na Argélia, que nos revolta a todos, foi disso uma dramática demonstração.

Então o que quis o senhor provar ao utilizar aquelas palavras? Que é também o chefe das forças armadas e o chefe de guerra. E sobretudo que assumia inteiramente a guerra no Mali. Como é triste constatar que um dos raros domínios onde o senhor não se concede hesitações seja precisamente no domínio da guerra. Mantendo a tradição, segue alegremente as pisadas dos seus antecessores. É bom que se diga, o senhor postula também à estatura de presidente da France “A fric”1 para usarmos a expressão da associação Survie). Como é consternante refugiar-se, como de costume, atrás de razões humanitárias – que lhe ocorrem apenas consoante as circunstâncias – para mascarar perante a opinião pública os verdadeiros interesses colonialistas que a França defende neste conflito.

Então vamos lá. Sim, Senhor Hollande, no norte do Mali, fanáticos religiosos tentam impor um regime odioso à população mali. E sim, há razões para nos comovermos e nos sentirmos solidários com o povo mali. Mas a questão que se põe é a de sabermos se a sua intervenção, levada a cabo isoladamente, arrisca a melhorar ou a agravar a situação. Colocar esta simples questão perturba. Porque sim, os primeiros aplausos, ritual dos inícios de guerra, que saudaram a sua iniciativa, rapidamente se silenciaram e o murmúrio das primeiras dúvidas começa a instalar-se já.

Teremos nós, também a este respeito, perdido a memória da nossa história recente? As diferentes intervenções militares estrangeiras deste tipo que se sucederam nestes últimos vinte anos, no Iraque, no Afeganistão, na Somália, na Líbia, desembocaram num situação política ingerível e na maior parte dos casos numa guerra civil seguida de uma catástrofe humanitária. Porque o balanço lúgubre dos milhares de mortos não encerra com o cessar -fogo decretado pelas potências ocidentais; continua incessantemente a aumentar com o lote das novas vítimas, noticiado em breves segundos nos jornais televisivos da noite. No final essas guerras que prendiam acabar (leia-se) “destruir” o terrorismo, não fizeram mais do que reforçar, em muitos casos, a posição dos mais determinados, dos mais extremistas, dos mais radicais, de entre eles. Quanto à defesa dos direitos das mulheres, quem ousará dizer que ela melhorou? E onde? No Iraque, Afeganistão, Somália, Líbia?

Senhor Hollande, o mundo político atribui-lhe agora louros. Para quê sentir-se agora levado por esse impulso de união nacional, provavelmente rebuscado. Ao ponto de perder, a este respeito, um pouco o sentido das proporções. Já se deu conta do ridículo da situação quando, fora de brincadeiras, chegou envergando as vestes e assumindo o papel de novo cavaleiro universal da democracia, arvorando orgulhosamente os seus belos valores – os direitos do homem, das mulheres, a luta implacável contra o obscurantismo religioso – para fazer o ponto da situação desta guerra, durante uma conferência de imprensa realizada... nos Emirados Árabes Unidos? Aí onde a legislação é aplicada segundo a sharia e condena a lapidação por adultério, blasfémia e homossexualidade? Mas que importa? A delegação do CAC 40 saiu reforçada, carregada de contratos vantajosos. E todos queremos acreditar que a cimeira sobre a defesa do ambiente, patrocinada pela Total e pela Exon, tomou fez reflexões muito prospetivas e decisões cheias de bom senso. Infelizmente houve um assunto que envenenou as suas conversas e encontros : entender-se finalmente com a presidência dos Emirados para acertar a venda de 60 aviões Rafale. O grupo Dassault sabe-o bem: fazer a guerra é um ofício.

Nos Emirados Árabes Unidos, como no Mali, prossegue inexoravelmente a sua missão: assegurar os bons negócios da França. Descobrimos então que o Sahel não é só um deserto mas é também a confluência geoestratégica de inúmeras trocas, tanto lícitas como ilícitas. É também a chave fronteiriça frágil que dá acesso a zonas que a França precisa manter seguras, em primeiro lugar as minas de urânio que explora, no Níger, a Areva, jóia francesa da indústria nuclear. O senhor não é um herói desinteressado nesta guerra. Nem um bombeiro voluntário que tivesse vindo extinguir o fogo, que , convém dizê-lo, tem sido ciosamente mantido nos últimos anos por todos os governos franceses que se sucederam desde o início dos anos 80. Com efeito, as políticas liberais, os planos de ajustamento estrutural da dívida maliana, cujo reembolso interessa particularmente à França, desagregaram a sociedade privando-a dos seus serviços públicos, das suas indústrias, das suas empresas de serviços. O estado foi sendo apagado ao ponto de quase desaparecer no norte do Mali. Além disso, os recentes acontecimentos estão diretamente ligados à guerra na Líbia.

Ora a intervenção militar francesa na Líbia não consistiu em distribuir gratuitamente armas à legítima revolução do povo líbio. A França interveio militarmente enquanto potência exterior, para lembrar ao futuro poder toda a sua dependência, esperando em troca outros tantos gestos, nomeadamente em relação ao mercado petrolífero. Desapossou-se, desta forma, a revolução libía da possibilidade de se apropriar politicamente do controlo das regiões tomadas militarmente. Assim, a região do Sahel foi brutalmente desestabilizada e permitiu o afluxo de combatentes fortemente armados aos seus países de origem, nomeadamente ao Mali. Por fim, o senhor está muito bem colocado para saber que o Estado francês não viu com bons olhos, em Março de 2012, a destituição do regime corrupto de Amadou Toumani Touré, por um levantamento militar que se transformou num golpe de estado. Desde então a França não cessou de privar o exército maliano dos seus próprios apoios logísticos. A Cédéao, dirigida por Alassane Ouattara, que deve muito à França pela sua ascensão ao poder na Costa do Marfim em 2011, decidiu assim um embargo, no verão passado, às armas que eram destinadas, no entanto, aos militares malianos, bloqueando blindados, munições e armas pesadas, nos portos de Dakar, no Senegal e de Conacry, na Guiné. Defender-se sozinho tornou-se necessariamente mais complicado.

Senhor Hollande, o destino dos malianos pertence aos malianos. E se uma guerra tiver de ser travada, não cabe seguramente à França autoproclamar-se salvadora no Mali. O paternalismo francês em África já durou demais. Em França, o Estado interessou-se até aqui pelos malianos, sobretudo para os expulsar. Esta França teria sido repentinamente tocada pelos mais sinceros sentimentos humanitários? Esta França que não consegue, sequer, reconhecer a sua responsabilidade no genocídio Tutsi que ocorreu no Ruanda em 1994. Não privemos o povo mali de uma solução política que vozes reclamam, com insistência, no país. O deputado Oumar Mariko da organização Sadi (Solidariedades, Africa, democracia, independência), por exemplo, ou a antiga ministra Aminata Traoré, que lançou, há já alguns meses, um manifesto contra esta guerra em nome do direito das mulheres. Porque a sociedade civil, sindical e política é uma realidade incontornável no Mali. Em França a união nacional, para além das dúvidas expressas quanto ao mandato francês, ou ao pouco debate parlamentar, parece ter contaminado todos os partidos. Apenas com raras exceções. A melhor forma de ajudar o povo maliano a travar os seu combate contra o obscurantismo religioso, Senhor Hollande, é que o Estado francês pare de falar em nome dos outros.

18 de janeiro de 2013

Christine Poupin, Olivier Besancenot, Philippe Poutou, membros de direcção do NPA (Nouveau Parti Anticapitaliste).

Publicado no Libération, retirado do site do NPA.

Tradução de Natércia Coimbra para o Esquerda.net

1 Nota de tradução : fric em francês "pilim" "cacau" "dinheirinho"

(...)

Resto dossier

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