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O desastre da França no Mali

O perigo é que o presidente François Hollande e o estado Francês se possam, a curto prazo, encontrar na situação desastrosa do pobre coiote dos desenhos animados do Papa-léguas, tão determinado a perseguir a sua presa que se apressa a saltar sobre um penhasco e se vê a si mesmo a debater-se no ar, prestes a cair para o deserto. Por Barry Lando
Esta foto da agência AFP, de um soldado francês da força de intervenção, causou enorme polémica e levou mesmo o coronel Thierry Burkhard, porta-voz do Estado Maior, a dizer que o comportamento do soldado, ao envergar um capuz com uma caveira, "Não era aceitável".

Paris – No decorrer dos próximos dias, a França terá enviado para o Mali cerca de 2.500 militares. É um esforço da França equiparável ao realizado no que acabou por se revelar uma guerra extremamente impopular no Afeganistão. Ninguém sabe quanto tempo as tropas por lá estarão, mas o preço situar-se-á na casa das dezenas se não mesmo centenas de milhões de euros, a serem suportados por uma economia Francesa já em muito mau estado.

O perigo é que o presidente François Hollande e o estado Francês se possam, a curto prazo, encontrar na situação desastrosa do pobre coiote dos desenhos animados do Papa-léguas, tão determinado a perseguir a sua presa que se apressa a saltar sobre um penhasco e se vê a si mesmo a debater-se no ar, prestes a cair para o deserto.

O presidente Hollande disse que a ameaça da toma de poder pelos islamitas radicais estava tão iminente que ele não tinha outra escolha que não fosse intervir – para salvar não apenas o Mali, mas toda a África ocidental e, insinuam agora os franceses, a Europa também.

Curiosamente, contudo, e apesar da suposta urgência da situação, a França tem tido pouco sucesso em convencer os seus parceiros europeus a contribuírem com efetivos militares para esta intervenção. Na realidade, a última coisa que estes querem, depois da traumatizante experiência no Iraque, na Líbia, e da cruzada afegã, é verem-se envolvidos no que se arrisca a transformar num conflito aberto, em nome de um governo maliano não eleito, contra um pequeno conjunto sortido de rebeldes e jihadis1 na vastidão deserta do Norte de África. Desta forma, até aqui têm-se visto muitas “palmadas nas costas” dos aliados da França, ofertas de apoio logístico, de apoio dos serviços secretos, alguns transportes de tropas, e é tudo.
“Vocês dizem ‘nós damo-vos enfemeiros e vocês podem ir-se fazer matar’ “ disse o deputado Francês Daniel Conhn-Bendit, dirigindo-se aos seus colegas no Parlamento Europeu.

“Nós (Europa) apenas podemos ser credíveis se os soldados franceses não forem os únicos a ser mortos”.

Na realidade, foi surpreendente ficar a saber que a França, ainda considerada uma grande potência militar, não tem capacidade para transportar alguns milhares de tropas e seu equipamento para o Norte de Árica. A França teve mesmo de se apoiar numa oferta da Itália (!) que forneceu aviões cisterna para fazer o abastecimento em voo dos jatos franceses.

Apesar da resposta morna dos aliados da França, o porta-voz do governo francês continua a assegurar que as tropas francesas não vão desempenhar o papel principal como combatente nas batalhas que se seguem.

Na verdade, mesmo que quisessem desempenhar esse papel, o número de soldados no terreno está longe de ser suficiente. É educativo especular sobre a força de combate da França, usando um rácio conhecido como “funçōes de apoio”2 ou seja, o número de efetivos na retaguarda necessários para suportar cada um dos que estão na frente de combate. Para o exército dos EUA, esse rácio é de 3 para 1. Se usarmos o mesmo para a França, isso significa que dos 2500 soldados destacados no Mali apenas 600 a 700, como muito 1000 verão a frente de combate.

E é preciso não esquecer que o Mali tem o dobro do tamanho da França, do Afeganistão ou do Texas.

A luta suja, de proximidade, segundo nos dizem, vai ser realizada por tropas vindas da África ocidental, algumas das quais começaram finalmente a chegar ao Mali. Mas todos os relatórios sobre estes contingentes indicam uma enorme falta de equipamento, moral e treino, particularmente para entrar numa guerrilha nas zonas desertas do Sahel3.

 

Após meses de conversações, esta semana – no despertar da crise de reféns da Argélia – os aliados europeus da França concordaram finalmente em enviar 250 militares para ajudar no treino do exército argelino e eventualmente de outras unidades. Mas – a menos que a ressaca do desastre da Argélia mude as coisas – está já definido que esses treinadores europeus não poderão ser combatentes. Nem mesmo aconselhar os soldados malianos em combate. Conforme tornou bem claro um responsável da UE, “Nós não iremos para norte. Vamos ficar nas áreas de treino”.

Já agora, uma coisa que eu nunca consegui perceber – seja no Mali ou no Afeganistão – estamos sempre a ouvir como as tropas apoiadas pelos Estados Unidos e seus aliados, como a França neste caso, invariavelmente parecem mal treinadas e equipadas, e desmoralizadas, apesar de centenas de milhōes de dólares e anos de treino. [Pensem no Afeganistão onde apenas um entre 23 batalhões é capaz de funcionar sem apoio americano].

Entretanto, os desorganizados rebeldes que eles combatem, normalmente provindo dos mesmos países do Terceiro Mundo, como os taliban no Afeganistão ou os tuaregues no Mali são retratados como guerreiros dedicados, aguerridos e endurecidos pela guerra, que causam enormes prejuízos nos seus oponentes muitas vezes com armas improvisadas ou como bombistas suicidas. Os relatórios apontam para que sejam necessárias várias semanas, mesmo meses, para que as diversas tropas africanas estejam prontas a combater com eficácia. E existem outros problemas a ter em conta para além do treino e do equipamento: o perigo, por exemplo, de usar soldados cristãos da Nigéria para aniquilar rebeldes islâmicos no norte do Mali.

Ironicamente, como salientei num texto anterior no meu blog, enquanto os aliados da França se retraem, os chineses, que têm enormes interesses económicos e projetos de construção em curso em todos os vizinhos do Mali, continuam a sua atividade normal, aparentemente ainda satisfeitos por terem deixado o trabalho de polícia para a França, a Europa e os estados da África ocidental.

Os franceses, oficialmente, insistem que os grupos que combatem no Mali – e agora na Argélia – podem todos ser catalogados como “terroristas”, ligados à Al-Qaeda. Não existe reconhecimento oficial para o facto de que a maior parte dos grupos rebeldes, muitos deles motivados por fortes razões étnicas e nacionalistas, tal como regionalistas, não são assim tão diferentes, talvez, dos taliban no Afeganistão.

Nesse caso, é óbvio que a única forma pela qual este conflito se vai eventualmente resolver não é por, de alguma forma, erradicar os “terroristas”, mas sim por negociar um acordo, como será provavelmente o caso no Afeganistão.

No Mali, esse acordo não deverá ser muito diferente do oferecido aos tuaregues há alguns anos, que posteriormente foi rejeitado pelo governo do Mali.

Assim, o que pensam disto os franceses?

As estimativas apontam para que entre 400.000 e um milhão de franceses foram para as ruas de Paris no fim de semana passado. Um contraprotesto, a que se espera adiram centenas de milhar de outros militantes franceses está a ser organizado.

Os ânimos estão-se a exaltar.

Qual é o problema?

O Mali?

Bem, na realidade, não. É se o governo francês deve legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Quanto à intervenção no Mali, a princípio os franceses, a toda a largura do espectro político, pareciam apoiar firmemente o seu governo e os seus combatentes.

Esse consenso está já a desvanecer-se, e é certo, à medida que a intervenção se arraste, as baixas e custos se acumulem, e os aliados europeus da França atrasem o passo, que um surto de patriotismo se revele.

O que nos traz de volta ao Papa-léguas. É possível, a dada altura, que os franceses olhem para baixo e vejam que o seu presidente os conduziu a um precipício, e que eles se encontram suspensos, olhando com horror para o abismo debaixo de si.

Barry M. Lando, diplomado pelas universidades de Harvard e Columbia, passou 25 anos como produtor investigador premiado no programa “60 Minutes”. O seu último livro intitula-se “Teia de fraude: A história da cumplicidade europeia no Iraque, de Churchill a Kennedy a George W. Bush”.

Lando encontra-se atualmente a terminar um romance, “O ficheiro do guardião”, dizendo respeito ao segredo mais bem guardado de Israel (não é a bomba).

Pode ser contactado através do seu blog http://barrylando.blogspot.com/

Publicado no Counterpunch.

Tradução de Luis Moreira para o Esquerda.net

1 Aqueles que seguem ou professam a “jihad”, a guerra santa

2 No original “tooth to tail”

3 Sahel – cintura no Norte de África que integra parte da Mauritânia, Mali, Nigéria, Chad, Sudão, Etiópia e Eritreia.

(...)

Resto dossier

Intervenção francesa no Mali

Tropas francesas combatem neste momento no Mali, numa nova guerra que não parece ter fim à vista. Diante da opinião pública mundial, o presidente François Hollande justifica a intervenção pela necessidade de combater o “terrorismo”, um argumento muito semelhante ao que usou George W. Bush ao invadir o Iraque e o Afeganistão. Quais são então os motivos que provocaram esta nova guerra? Dossier organizado por Luis Leiria.

Razões da intervenção imperialista de França

A intervenção da França no Mali inscreve-se numa longa tradição de intervenções. Desde a independência das suas colónias africanas, a França interveio sessenta vezes. A estratégia da França é manter a sua influência política e económica através de um apoio inquebrantável a várias ditaduras que promovem os interesses franceses. Por Paul Martial

O próximo Afeganistão?

O Mali representa o mais claro caso de paralisia geopolítica. Todas as maiores e menores potências da região estão genuinamente preocupadas, mas nenhuma parece ter vontade ou capacidade de agir. (Artigo publicado em 1 de novembro de 2012).

Agora no Mali

O que motivou a França, com o apoio logístico e diplomático das demais potências estrangeiras, a intervir no conflito?

Nós, opositores à guerra francesa

Senhor Hollande, o destino dos malianos pertence aos malianos. E se uma guerra tiver de ser travada, não cabe seguramente à França autoproclamar-se salvadora no Mali. Em França, o Estado interessou-se até aqui pelos malianos, sobretudo para os expulsar. Esta França teria sido repentinamente tocada pelos mais sinceros sentimentos humanitários? Christine Poupin, Olivier Besancenot, Philippe Poutou, membros de direção do NPA.

Questões sobre uma intervenção

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