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Precariedade uber alles: a ameaça da uberização do trabalho

A uberização é a precariedade acima de todos, o desfazer dos vínculos contratuais e a anulação dos direitos dos trabalhadores. Analisamos o novo modelo de organização do trabalho imposto a quem é empregado nas plataformas de serviços online para transporte individual ou distribuição de bens e serviços. Dossier organizado por Carlos Carujo.
Ciclista de um serviço de entregas.
Ciclista de um serviço de entregas. Foto de Robert Anasch. Unsaplash.

A uberização do trabalho aconteceu de repente e envolve milhões de trabalhadores no mundo inteiro. Para além da dispersão geográfica, entranhou-se, intensificou-se e colonizou domínios que se pensava que não poderiam ser uberizados.

Os seus patrão são ladrões do tempo que se apropriam da vida pessoal de quem exploram, como nos explica Joana Neto. Por detrás da sedução tecnológica, escondem a regressão social do trabalho à jorna 2.0. Sob a propaganda da libertação dos horários e da subjugação hierárquica, disseminam o contrário, escreve Danièle Linhart enquanto procura alternativas à uberização.

E esta precarização ainda é mais dura se vivida no feminino acredita Julia Dolce que foi ao encontro das experiências de mulheres brasileiras uberizadas.

Mas não há um ubercapitalismo, sem um uberariado. Para compreender as novas relações de trabalho é preciso analisar o perfil dos novos “servos digitais”. É o que faz Ricardo Antunes em entrevista.

A exploração máxima a que estão sujeitos não fez deles sujeitos passivos e dóceis. Aliás, até já realizaram um protesto mundial. Mas a condição dos também chamados crowdworkers implica necessariamente dificuldades organizativas. Esse foi o tema que fez António Brandão Moniz e Nuno Boavida juntar-se a um projeto de investigação europeu que nos apresentam.

Nascida no mundo das aplicações, à exploração dos trabalhadores juntam-se também a exploração dos dados dos clientes. Várias destas empresas utilizam-nos para ganharem dinheiro ou influência junto dos decisores políticos, uberizando as políticas locais de transportes.

Neste dossier, damos ainda a conhecer a empresa que deu o nome a este processo e que é campeã das práticas abusivas. Faz agora cinco anos que a Uber entrou ilegalmente em Portugal. Comprou uma guerra com os taxistas que se queixaram de concorrência desleal. E acabou por ser regulamentada através de uma polémica lei apoiada pelo PS, PSD e PAN. Uma luta que ainda não acabou já que a disparidade de condições entre os dois setores permanece e os taxistas ameaçam voltar aos protestos. Revisitamos esse processo em que o Bloco se bateu pela equidade.

Para além das questões de regulamentação dos transportes que foram as mais sublinhadas na comunicação social portuguesa, subjacente a toda esta disputa estava questão laboral, como lembra, num artigo de fundo, a socióloga Maria da Paz Campos Lima.

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Resto dossier

Ciclista de um serviço de entregas.

Precariedade uber alles: a ameaça da uberização do trabalho

A uberização é a precariedade acima de todos, o desfazer dos vínculos contratuais e a anulação dos direitos dos trabalhadores. Analisamos o novo modelo de organização do trabalho imposto a quem é empregado nas plataformas de serviços online para transporte individual ou distribuição de bens e serviços. Dossier organizado por Carlos Carujo.

Grupo de trabalhadores de distribuição de plataformas online em protesto.

A Uberização e os desafios laborais e sociais

Ao contrário de outros países, o debate sobre a Uber em Portugal não deu a mesma atenção no plano legal aos problemas de emprego e condições de trabalho, centrando-se sobretudo na questão da concorrência desleal. Artigo da socióloga Maria da Paz Campos Lima.

Taxista em protesto.

Uber, a regulamentação vai de carrinho?

Táxis contra Uber. Ideologicamente mostrada como escolha entre antiguidade onerosa e burocrática e leveza contemporânea barata, a guerra comercial do transporte individual de passageiros é também disputa política sobre regulamentação, liberalização e municipalização e direitos dos trabalhadores.

Dados de tráfego de São Francisco.

A uberização e a cidade: os dados estão lançados

As aplicações para smartphone há muito que sabem o valor dos dados que recolhem quando o negócio é a privacidade. As aplicações das plataformas online de transporte ou de entregas, como a Uber, têm uma moeda de troca própria: os dados de mobilidade. E estão a fazer valê-la na relação com as cidades.

Condutores em protesto.

Trabalho baseado em plataformas digitais: a caminho de um novo sindicalismo?

O crowdworking usa uma plataforma para ligar organizações ou indivíduos a outros em troca de pagamento. Um recente projeto europeu de investigação quer analisar estratégias de sindicatos ou movimentos alternativos que representem “crowdworkers” Artigo de António Brandão Moniz e Nuno Boavida.

Shame on Uber, manifestação em São Paulo. Foto dos autores FM/MAGO.

Uber: assim começam as greves do futuro

Precários fizeram a 8 de maio o primeiro protesto global contra o poder “invisível” das empresas-aplicação. Em São Paulo, dois investigadores fizeram dezenas de entrevistas e apostam: surgem novas formas de resistência no meia da ultra-exploração. Por Felipe Moda e Marco António Oliveira/Outras Palavras.

Entender quem é o proletário da era digital e sua inserção no mundo do trabalho é o tema de investigação do sociólogo Ricardo Antunes em seu novo livro

O proletário digital na era da reestruturação permanente do capital

Nesta entrevista a IHU, o sociólogo brasileiro Ricardo Antunes fala sobre o proletário da era digital e da sua inserção no mundo do trabalho, tema do seu novo livro “O Privilégio da Servidão. O Novo Proletariado de Serviços na Era Digital”.

A uberização do trabalho é pior para elas

Uberização no feminino. Um retrato de como este fenómeno é vivido pelas mulheres. São testemunhos brasileiros mas que soarão familiares em muitas zonas do globo. Texto de Julia Dolce da Agência Pública.

A uberização do trabalho não é inevitável

Não será hora de trilhar o caminho para pôr fim às relações de subordinação próprias do contrato de trabalho, reforçando os direitos sociais? Artigo de Danièle Linhart no Le Monde Diplomatique.

Charles Chaplin no filme "Tempos Modernos".

Glovo e Uber eats ou os ladrões dos tempos modernos

O capitalismo sempre quis colonizar o nosso tempo. A apropriação de cada um dos nossos minutos, marcados por esse instrumento violento chamado relógio, é uma arma poderosa para ditar e comandar a organização da vida pessoal, social e familiar.

Ciclista de um serviço de entregas.

Tudo se uberiza?

A uberização atinge até os setores mais surpreendentes. Sem contratos ou direitos, o uberproletariado fica mais vulnerável à exploração. Como mostrou cruelmente a onda de calor em França. Felizmente, a resistência organiza-se. Essa não é uberizável.