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“The Post”: quando a imprensa esteve do lado certo da História

O filme de Steven Spielberg transmite-nos a vertigem do tempo sentida a partir do aproximar da hora do fecho de edição, o momento certo para a decisão acertada, a História a acontecer… é um filme que nos coloca, incontornavelmente, entre o passado e o futuro, por isso a urgência. E a urgência é Trump, a guerra, a verdade e a república.
No centro, Tom Hanks (Ben Bradlee) e Meryl Streep (Katharine Graham) aguardam a decisão do Supremo Tribunal sobre a publicação dos Documentos do Pentágono
No centro, Tom Hanks (Ben Bradlee) e Meryl Streep (Katharine Graham) aguardam a decisão do Supremo Tribunal sobre a publicação dos Documentos do Pentágono

Urgência. É esse o sentimento que permanece em nós, durante e após o visionamento do último filme de Steven Spielberg, The Post”. Claro que o que nos fica, ficará de muitas maneiras, de acordo com as referências que habitamos, as expectativas que transportamos e também considerando o modo como o próprio mundo, nos seus possíveis e impossíveis, nos inquieta. Seja como for, trata-se de uma história incrível. A vertigem do tempo sentida a partir do aproximar da hora do fecho de edição, o momento certo para a decisão acertada, a História a acontecer… é um filme que nos coloca, incontornavelmente, entre o passado e o futuro, por isso a urgência. E a urgência é Trump, a guerra, a verdade e a república.

É certo que este tema merecia mais cinema, mais subtileza, arte e incisão, mas a urgência… As críticas, nacionais e internacionais, parecem divididas entre o deslumbramento e a desilusão, entre o elogio do virtuosismo de Spielberg e da sua equipa, e a crítica da sua preguiça ou prevalência no clichê estilístico. Poderemos sempre avaliar o “The Post” com base no grau de rebeldia ou refinamento de Spielberg, que o realizou, afinal, no espaço de apenas um ano. Deixo aqui algumas notas desassombradas. Interessa-me antes debater o que fica em nós e o seu alcance, mesmo que o veículo seja a convenção cinematográfica e um pathos mais imediato e de “massas”, esse que conjuga habilmente a adrenalina e o drama.

O filme coloca-nos em 1971 e no centro do processo de decisão do The Washington Post sobre a publicação de parte dos chamados “Documentos do Pentágono” [Pentagon Papers], um relatório secreto de milhares de páginas que condensava informação sobre a presença dos EUA no sudeste asiático, desde a II Guerra Mundial, em particular, sobre o esforço de guerra no Vietname. Na ficção histórica de Steven Spielberg, a trama constrói-se ao ritmo de um thriller que vagueia entre a liberdade de imprensa e o autoritarismo da Administração de Nixon, mas centrado na figura de uma mulher que surge, enfim, emancipada e usando um maravilhoso caftan dourado - como um sultão impossível, reinando sobre homens e sob o signo da justiça. Denunciando ainda a relação de proximidade e cumplicidade entre o poder político e os editores das grandes redacções, Spielberg acentua também, como seria de esperar, a tonalidade moral da decisão central que determina o desenlace do filme. Aí, o pessoal e o político confundem-se e contagiam-se mutuamente, acrescentando-se uma interessante dimensão de contradição a esta trama que é ficcional, mas transbordante de realidade.

Tom Hanks, Meryl Streep e Steven Spielberg

Tudo começa, e começou, com o corajoso ato de Daniel Ellsberg: tendo acesso aos Documentos, por ser um dos investigadores implicados, tornou-se pacifista e resolveu fotocopiá-los e entregá-los ao The New York Times. A 13 de junho desse ano, o Times inicia a publicação e as sucessivas manchetes vão desmascarando e desmentindo as narrativas e os factos que durante anos legitimaram a intervenção no Vietname. Afinal, desde o início, sabia-se que era uma guerra perdida e nunca se soube qual a sua utilidade. O Times acabaria impedido de voltar a publicar, por “razões de segurança nacional”, tendo sido acusado de violação da Lei da Espionagem. Pouco tempo depois, o The Washington Post publica outros excertos dos Documentos e o Supremo Tribunal é chamado a intervir – foi a Primeira Emenda da Constituição Americana que prevaleceu. Sabemo-lo através de uma jornalista e não é por acaso que é ela que transmite a decisão do juiz. Nesse momento, a sua voz torna-se símbolo de liberdade: “A imprensa deve servir os governados e não os governantes”.

Considerando os elementos claramente sublinhados por Spielberg compreendemos melhor a sua urgência. Centrando o filme no processo de empoderamento e afirmação da então Presidente da Administração do Post, Katharine Graham (a genialidade de Meryl Streep permite a esta personagem, e ao seu estatuto no filme, uma densidade e expressividade marcantes), desenha-se o augúrio das emancipações do presente e das lutas protagonizadas por mulheres. Contra Nixon e para pôr fim à guerra, Katharine disse “publique-se”. Hoje, elas ocupam as ruas e marcham contra Trump. Sim, não me parece que seja um pormenor despiciendo o facto da figura de Nixon surgir (quase) sempre como um prenúncio de Trump. O propósito é esse mesmo. Contudo, o símbolo poderia ser mais profundo e não mero decalque. É aqui que o valor retórico do filme perde poder, isto é, quando a simplificação da mensagem se torna pura arrogância, porque se subestima o sentido crítico do público.

Por fim, o elogio da liberdade de imprensa e do seu precioso papel numa democracia – realizado através da invocação de um dos mais dolorosos episódios da história ainda recente dos EUA, a guerra no Vietname – The Post” é, sem dúvida, uma tomada de posição sobre a vida e a política nos tempos que correm. Num mundo globalizado, as “fake news”, os “alternative facts” e as doutrinas da pós-verdade influenciam o curso das nossas vidas e o destino do planeta, e é preciso combatê-las. Porém, a diferença entre verdade e mentira mantém-se e talvez seja urgente lembrar simplesmente isso. Num texto que escreveu a propósito dos Documentos do Pentágono1, Hannah Arendt descreve “o direito à informação factual não-manipulada” como uma liberdade política essencial para que a própria “liberdade de opinião” não se torne uma “cruel farsa”. Isto é o coração da mensagem de Speilberg. Na realidade, o filme The Post” permite aceder a um desse momentos de ouro em que a imprensa esteve do lado certo da História, mas nem sempre foi ou é assim. Num passado mais recente, por exemplo, o próprio The New York Times viu-se obrigado a publicar um mea culpa, justificando a sua cobertura sobre “os factos” que justificaram a invasão do Iraque, em 2003. Invocando novamente o texto de Arendt e parafraseando as suas palavras, a imprensa pode ser mesmo o quarto poder, mas desde que se mantenha “livre e incorruptível”. Talvez seja algo em que não deveríamos apostar, mas não me parece que possamos pensar noutro sentido.

Uma nota ainda sobre o jogo do tempo, que esconde e desvela camadas de sentido no filme, entre imprecisões e impressões muito fortes, numa densa memória do presente. Por um lado, “The Post” coloca-nos no passado e, aqui com algum brilhantismo, deliramos com a aceleração das máquinas nas salas das reprografias, a complexidade da distribuição dos jornais e a precisão dos caracteres de chumbo, letra a letra, reportando o estado do mundo. São imagens-vertigem que contrastam com o clique rápido e o estatuto instantâneo da realidade online e digital. Também é curiosa a acentuação implícita do uso imperativo e imprescindível do telefone, ou da chamada-conferência improvisada entre o telefone da sala e o da cozinha, e o que isso diz sobre o nosso admirável mundo novo dos smartphones.

No entanto, na distância criada por uma história contada no passado, algo da urgência do presente poderá perder-se. Por exemplo, há um momento no filme em que, após um jantar de classe alta e instruída, as mulheres retiram-se para a sala-de-estar, para que os homens possam falar de política. Numa entrevista conjunta com Tom Hanks (que interpreta, com um rigor expressivo, o papel de Ben Bradlee, editor-chefe do Post) e Meryl Streep, o primeiro comenta, a certa altura, que não sabia que tal poderia ainda ser possível, referindo-se ao tempo do filme, os anos 70 do século XX. Meryl acaba por lembrá-lo que só quando chegou à universidade pôde, pela primeira vez, ter um cartão de crédito, sem precisar de uma assinatura de um membro familiar do sexo masculino. É certo que, desde então, os meios de comunicação e a tecnologia de informação mudaram drasticamente. Contudo, as transformações sociais têm um outro tempo, menos veloz, e é a política que as acelera (não a tecnologia), inaugurando novos começos, ou seja, caindo como uma pedra num charco de água estagnada.


1Hannah ARENDT, “Lying in Politics”, in Crises of the Republic (New York: Harcourt Brace & Company, 1972).

Por Sofia Roque.

(...)

Resto dossier

The Post - cartaz

O filme "The Post" e os Documentos do Pentágono

O último filme de Steven Spielberg, “The Post”, aborda uma das mais importantes fugas de informação da história dos EUA, Os Documentos do Pentágono, a que dedicamos mais um dossier do Esquerda.net, organizado por Luis Leiria.

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“Documentos do Pentágono”: uma fuga de informação decisiva para pôr fim à guerra do Vietname

No ano de 1971, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, os dois principais jornais de referência dos EUA foram impedidos de publicar artigos com base num estudo de 7.000 páginas que evidenciava as mentiras dos sucessivos presidentes  em relação à guerra do Vietname. A censura foi derrubada pelo Supremo Tribunal e fuga de informação conhecida como os Documentos do Pentágono faria história e ajudaria a pôr um fim à guerra. Por Luis Leiria.

Daniel Ellsberg ao sair do tribunal, depois de terem sido retiradas todas as acusações contra ele.

Daniel Ellsberg: de falcão a pomba

Nascido em Detroit, em 1931, Daniel Ellsberg foi trabalhar para a Rand Coporation, em 1959, como consultor do Departamento de Defesa e da Casa Branca. Nessa altura já tinha servido na Marinha de Guerra por três anos (presenciou em Alexandria a crise do Canal do Suez) e graduara-se em Harvard.

Daniel Ellsberg e Edward Snowden: o primeiro ficou detido apenas dois dias; o segundo arriscava a prisão perpétua.

Ellsberg e Snowden: o que mudou nos EUA entre 1971 e 2013

Alterações na legislação reforçaram os poderes do executivo e obrigaram Snowden a refugiar-se no estrangeiro. Ao contrário de Ellsberg, Snowden não tinha a menor hipótese de evitar a cadeia e sequer teria direito a um julgamento justo. Por Luis Leiria.

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Dos Documentos do Pentágono aos dias de hoje

O jornal que já foi chamado de “o Pravda do Potomac” e se celebrizou pelas reportagens que levaram Nixon à renúncia, adotou uma posição abertamente pró-guerra do Iraque e defendeu a condenação judicial a uma das suas fontes. Ainda assim, é odiado por Trump. Por Luis Leiria.

Vídeos sobre Ellsberg e Snowden

Veja dois documentários premiados: um sobre os Documentos do Pentágono e Citizenfour, o famoso trabalho de Laura Poitras que documenta os preparativos para a conferência de imprensa de Edward Snowden em Hong Kong; e ainda uma palestra de Daniel Ellsberg.