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Daniel Ellsberg: de falcão a pomba

Nascido em Detroit, em 1931, Daniel Ellsberg foi trabalhar para a Rand Coporation, em 1959, como consultor do Departamento de Defesa e da Casa Branca. Nessa altura já tinha servido na Marinha de Guerra por três anos (presenciou em Alexandria a crise do Canal do Suez) e graduara-se em Harvard.
Daniel Ellsberg ao sair do tribunal, depois de terem sido retiradas todas as acusações contra ele.
Daniel Ellsberg ao sair do tribunal, depois de terem sido retiradas todas as acusações contra ele.

No seu papel de consultor da Rand, visitou pela primeira vez o Vietname em 1961, e voltou convencido de que a guerra não podia ser ganha e que o melhor que tinha a fazer era ficar longe desse assunto incómodo. Conseguiu-o só por três anos. Em 1964, assumiu um cargo de assessor no Pentágono e foi nele que presenciou o início da intervenção militar direta americana no Vietname. Um ano depois, foi como voluntário para o Vietname, ao serviço do Departamento de Estado, numa equipa liderada pelo famoso espião e militar Edward Lansdale (que inspirou Graham Greene no romance O Americano Tranquilo). Nos dois anos que aí permaneceu, aprofundou o seu conhecimento sobre a realidade da guerra e o beco sem saída em que os EUA tinham entrado. A estadia fê-lo também passar a ver os vietnamitas com outros olhos: “Aprendi a preocupar-me com o que acontecia ao povo vietnamita... Eles deixaram de ser apenas números e cifras abstratas, como eram para outras pessoas”, lembrou numa entrevista a Harry Kreisler, do Instituto de Estudos Internacionais de Berkeley.

Depois de ficar doente com hepatite, voltou para os EUA e para a Rand, quando trabalhou no estudo encomendado por Robert McNamara que ficaria mais tarde conhecido como os Documentos do Pentágono. Convencido de que Nixon iria seguir a linha dos seus antecessores e que faria de tudo para prolongar inutilmente o conflito, na tentativa de evitar a derrota, aproximou-se dos movimentos de protesto contra a guerra. Em Agosto de 1971, um encontro com um dos dirigentes do movimento antiguerra, Randall Keeler, mudou a sua vida. Keeler ia para a cadeia por se recusar a combater no Vietname. A tranquilidade e a firmeza do ativista da não-violência (que preferia ir para a cadeia a, por exemplo, fugir para o Canadá) caiu como um raio sobre Ellsberg, que imediatamente começou a pensar o que ele pessoalmente podia fazer para ajudar a abreviar a guerra. Decidiu então copiar as 7 mil páginas dos Documentos do Pentágono para entregá-las ao Congresso e mais tarde à imprensa.

A tentativa do governo Nixon de impedir a publicação criou um dos mais famosos julgamentos em defesa da liberdade da imprensa. Mais tarde, o próprio Ellsberg, que assumira ter sido ele a fonte da imprensa, foi processado e levado a um julgamento onde se arriscava a uma pena de 115 anos. Mas as manobras do governo para tentar descredibilizá-lo, que incluíram a invasão do consultório do seu psicanalista, levaram finalmente o juiz a retirar as queixas e anular o julgamento em 1973.

Ellsberg mantém um site na Internet em www.ellsberg.net

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Resto dossier

The Post - cartaz

O filme "The Post" e os Documentos do Pentágono

O último filme de Steven Spielberg, “The Post”, aborda uma das mais importantes fugas de informação da história dos EUA, Os Documentos do Pentágono, a que dedicamos mais um dossier do Esquerda.net, organizado por Luis Leiria.

No centro, Tom Hanks (Ben Bradlee) e Meryl Streep (Katharine Graham) aguardam a decisão do Supremo Tribunal sobre a publicação dos Documentos do Pentágono

“The Post”: quando a imprensa esteve do lado certo da História

O filme de Steven Spielberg transmite-nos a vertigem do tempo sentida a partir do aproximar da hora do fecho de edição, o momento certo para a decisão acertada, a História a acontecer… é um filme que nos coloca, incontornavelmente, entre o passado e o futuro, por isso a urgência. E a urgência é Trump, a guerra, a verdade e a república. Por Sofia Roque.

“Documentos do Pentágono”: uma fuga de informação decisiva para pôr fim à guerra do Vietname

No ano de 1971, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, os dois principais jornais de referência dos EUA foram impedidos de publicar artigos com base num estudo de 7.000 páginas que evidenciava as mentiras dos sucessivos presidentes  em relação à guerra do Vietname. A censura foi derrubada pelo Supremo Tribunal e fuga de informação conhecida como os Documentos do Pentágono faria história e ajudaria a pôr um fim à guerra. Por Luis Leiria.

Daniel Ellsberg ao sair do tribunal, depois de terem sido retiradas todas as acusações contra ele.

Daniel Ellsberg: de falcão a pomba

Nascido em Detroit, em 1931, Daniel Ellsberg foi trabalhar para a Rand Coporation, em 1959, como consultor do Departamento de Defesa e da Casa Branca. Nessa altura já tinha servido na Marinha de Guerra por três anos (presenciou em Alexandria a crise do Canal do Suez) e graduara-se em Harvard.

Daniel Ellsberg e Edward Snowden: o primeiro ficou detido apenas dois dias; o segundo arriscava a prisão perpétua.

Ellsberg e Snowden: o que mudou nos EUA entre 1971 e 2013

Alterações na legislação reforçaram os poderes do executivo e obrigaram Snowden a refugiar-se no estrangeiro. Ao contrário de Ellsberg, Snowden não tinha a menor hipótese de evitar a cadeia e sequer teria direito a um julgamento justo. Por Luis Leiria.

Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, é o novo dono do Washington Post. Foto de Steve Jurvetson

Dos Documentos do Pentágono aos dias de hoje

O jornal que já foi chamado de “o Pravda do Potomac” e se celebrizou pelas reportagens que levaram Nixon à renúncia, adotou uma posição abertamente pró-guerra do Iraque e defendeu a condenação judicial a uma das suas fontes. Ainda assim, é odiado por Trump. Por Luis Leiria.

Vídeos sobre Ellsberg e Snowden

Veja dois documentários premiados: um sobre os Documentos do Pentágono e Citizenfour, o famoso trabalho de Laura Poitras que documenta os preparativos para a conferência de imprensa de Edward Snowden em Hong Kong; e ainda uma palestra de Daniel Ellsberg.