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Dos Documentos do Pentágono aos dias de hoje

O jornal que já foi chamado de “o Pravda do Potomac” e se celebrizou pelas reportagens que levaram Nixon à renúncia, adotou uma posição abertamente pró-guerra do Iraque e defendeu a condenação judicial a uma das suas fontes. Ainda assim, é odiado por Trump. Por Luis Leiria.
Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, é o novo dono do Washington Post. Foto de Steve Jurvetson
Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, é o novo dono do Washington Post. Foto de Steve Jurvetson

O The Washington Post já não pertence à família Graham. Em 2013, foi vendido ao multimilionário Jeff Bezos, conhecido por ser o fundador e dono da Amazon e ostentar hoje o título de o homem mais rico do planeta, com um património calculado em 120 mil milhões de dólares (em fevereiro deste ano), o que o torna também no homem mais rico jamais registado na história moderna.

Katharine Graham, interpretada por Meryl Streep no filme “The Post”, ficaria à frente da empresa até à sua morte, em 2001. Outra mulher, Katharine Weymouth, sobrinha do filho de Katharine Graham, ocupou os cargos de publisher e principal executiva da empresa até à venda ao milionário Bezos.

Mas foi no período em que a dupla formada por Graham e o editor executivo Ben Bradlee conduziu os destinos do jornal que este viveu o seu período de glória, consolidando-se como um dos principais media de referência nos Estados Unidos.

O Watergate, furo do Post

No caso dos Documentos do Pentágono, o Post tivera um papel apenas coadjuvante em relação ao New York Times. Já o Watergate, que acabaria por levar à renúncia do presidente Richard Nixon, foi exclusivo do Washington Post, e Bradlee, com o apoio de Kathatine Graham, mobilizaria todos os recursos do jornal para apoiar os repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein na investigação que deslindou passo a passo o que estava por trás da invasão da sede do Comité Nacional do Partido Democrata, situado no edifício Watergate. Aliás, os “canalizadores” que invadiram o Watergate eram a mesma equipa montada por Nixon que já antes penetrara furtivamente no escritório do psiquiatra de Daniel Ellsberg.

Manchete do Post no dia da renúncia de Nixon. O Caso Watergate foi o momento de maior glória do Post
Mnachete do dia da renúncia de Nixon. Investigação do caso Watergate foi momento de Glória do Post.

A investigação jornalística do caso Watergate rendeu ao Post o prémio Pullitzer de Serviço Público em 1973, deu origem ao famoso filme “Os Homens do Presidente” e criou um enigma acerca da identidade da fonte de informação de Woodward e Bernstein, o “Garganta Funda”. Considerado o maior mistério não-revelado do jornalismo dos Estados Unidos, a identidade da fonte do Post era conhecida por apenas quatro pessoas: Woodward, Bernstein, o editor-executivo Bradlee e o próprio Garganta Funda. O segredo manter-se-ia protegido até que o próprio decidisse vir a público. Foi o que aconteceu em 2005, quando W. Mark Felt, que na altura do caso Watergate era o número dois do FBI, assumiu que tinha sido ele a fornecer as informações decisivas aos repórteres do Post.

Post contra o perdão a Snowden

Mas a tradicional – e obrigatória – postura de preservar e defender as fontes não foi mantida 44 anos depois, quando, depois de publicar reportagens baseadas nas fugas de informação de Edward Snowden, o Washington Post foi contrário, em editorial, à concessão de um perdão ao ex-administrador de sistemas da CIA e ex-contratado da NSA, pedindo explicitamente a Obama que não lhe desse o indulto que lhe permitiria voltar aos EUA livre de acusações. O perdão vinha sendo defendido por três dos quatro meios de informação que publicaram as revelações de Snowden – The Guardian, The New York Times e The Intercept – os quais, por terem aceitado e publicado o material disponibilizado pela fonte, implicitamente consideraram os documentos fornecidos por ele como sendo de interesse público.

O editorial em que o Post pede a condenação da fonte que lhe rendeu inúmeros artigos, uma atitude muito criticada.
O editorial em que o Post pede a condenação da fonte que lhe rendeu inúmeros artigos, uma atitude muito criticada.

Assim, o Post “conseguiu uma infeliz proeza na história dos media americanos, tornando-se o primeiro jornal a defender explicitamente a acusação criminal da sua própria fonte, após ter recebido dela a oportunidade de vencer e aceitar o Prémio Pulitzer por Serviço Público”, acusou Glenn Greenwald, o jornalista que primeiro falou com Snowden. Para o fundador do The Intercept, os editores do Post deram provas de desonestidade intelectual e de covardia.

Favorável à guerra do Iraque

Foi um momento triste para um jornal que chegou a ser chamado pelos conservadores, nos anos 70, como “o Pravda do Potomac”. O Post deixaria para trás as posições mais liberais (no sentido que dão a esse termo nos EUA), para assumir posturas de “falcão” durante a guerra do Iraque. Nos meses anteriores à invasão, o jornal publicou nada menos que 27 editoriais a favor da guerra. E entre agosto de 2002 e o início da invasão, em março de 2003, o Post publicou 140 artigos de primeira página apoiando os esforços da administração Bush para começar a guerra. Perante o desastre que se seguiu, o jornal foi lento a admitir as evidências. Em agosto de 2004, um editorial admitiu “não ter dado suficiente atenção às vozes que questionavam a guerra”, nomeadamente em relação à existência de armas de destruição maciça.

O “Amazon Washington Post”

Apesar disto, o Washington Post é abertamente considerado inimigo pelo presidente Trump, que o acusa – como aliás quase todos os media, à exceção da Fox News – de produzir notícias falsas contra a sua gestão. Com a venda a Bezos, Trump gosta de se referir ao jornal como o “Amazon Washington Post”. Bezos apoiou, tal como o Post, a candidatura de Hillary Clinton e tem uma postura particularmente crítica em relação aos que hoje ocupam a Casa Branca. De tal forma que o Post, ao fim de décadas, adotou um lema, inscrito no alto da sua primeira página: “Democracy dies in darkness” (A democracia morre na escuridão), inspirada numa entrevista dada por Bezos ao editor Martin Baron. Bezos, por sua vez, atribui-a a Bob Woodward. Seja quem for o autor, o lema pretende sublinhar que o papel da imprensa é iluminar os factos, impedir que as ações do ogverno permaneçam na escuridão.

O slogan do Washington Post da era Bezos: A democracia morre na escuridão.
O slogan do Washington Post da era Bezos: A democracia morre na escuridão.

Apesar de não ser demasiado evidente, ainda assim o lema parece melhor que o do New York Times, “All the news that's fit to print" (Todas as notícias que estão aptas para impressão), consideradas as sete palavras mais famosas do jornalismo dos EUA. Valha a verdade que o slogan do NYT foi criado em 1897.

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Resto dossier

The Post - cartaz

O filme "The Post" e os Documentos do Pentágono

O último filme de Steven Spielberg, “The Post”, aborda uma das mais importantes fugas de informação da história dos EUA, Os Documentos do Pentágono, a que dedicamos mais um dossier do Esquerda.net, organizado por Luis Leiria.

No centro, Tom Hanks (Ben Bradlee) e Meryl Streep (Katharine Graham) aguardam a decisão do Supremo Tribunal sobre a publicação dos Documentos do Pentágono

“The Post”: quando a imprensa esteve do lado certo da História

O filme de Steven Spielberg transmite-nos a vertigem do tempo sentida a partir do aproximar da hora do fecho de edição, o momento certo para a decisão acertada, a História a acontecer… é um filme que nos coloca, incontornavelmente, entre o passado e o futuro, por isso a urgência. E a urgência é Trump, a guerra, a verdade e a república. Por Sofia Roque.

“Documentos do Pentágono”: uma fuga de informação decisiva para pôr fim à guerra do Vietname

No ano de 1971, pela primeira vez na história dos Estados Unidos, os dois principais jornais de referência dos EUA foram impedidos de publicar artigos com base num estudo de 7.000 páginas que evidenciava as mentiras dos sucessivos presidentes  em relação à guerra do Vietname. A censura foi derrubada pelo Supremo Tribunal e fuga de informação conhecida como os Documentos do Pentágono faria história e ajudaria a pôr um fim à guerra. Por Luis Leiria.

Daniel Ellsberg ao sair do tribunal, depois de terem sido retiradas todas as acusações contra ele.

Daniel Ellsberg: de falcão a pomba

Nascido em Detroit, em 1931, Daniel Ellsberg foi trabalhar para a Rand Coporation, em 1959, como consultor do Departamento de Defesa e da Casa Branca. Nessa altura já tinha servido na Marinha de Guerra por três anos (presenciou em Alexandria a crise do Canal do Suez) e graduara-se em Harvard.

Daniel Ellsberg e Edward Snowden: o primeiro ficou detido apenas dois dias; o segundo arriscava a prisão perpétua.

Ellsberg e Snowden: o que mudou nos EUA entre 1971 e 2013

Alterações na legislação reforçaram os poderes do executivo e obrigaram Snowden a refugiar-se no estrangeiro. Ao contrário de Ellsberg, Snowden não tinha a menor hipótese de evitar a cadeia e sequer teria direito a um julgamento justo. Por Luis Leiria.

Jeff Bezos, o homem mais rico do mundo, é o novo dono do Washington Post. Foto de Steve Jurvetson

Dos Documentos do Pentágono aos dias de hoje

O jornal que já foi chamado de “o Pravda do Potomac” e se celebrizou pelas reportagens que levaram Nixon à renúncia, adotou uma posição abertamente pró-guerra do Iraque e defendeu a condenação judicial a uma das suas fontes. Ainda assim, é odiado por Trump. Por Luis Leiria.

Vídeos sobre Ellsberg e Snowden

Veja dois documentários premiados: um sobre os Documentos do Pentágono e Citizenfour, o famoso trabalho de Laura Poitras que documenta os preparativos para a conferência de imprensa de Edward Snowden em Hong Kong; e ainda uma palestra de Daniel Ellsberg.